Moldes

Moldes

O jovem rapaz estava na sala de espera. Olhava para o relógio na parede, observando o lento e constante movimento dos ponteiros. Era sua primeira entrevista de emprego. Tinha acabado de concluir o ensino médio.

Após longos minutos de espera, seu número foi chamado. O jovem se levantou. Ajeitou a gola de sua camisa. Respirou fundo. E caminhou até a porta indicada.

Entrou na sala. Cumprimentou a banca examinadora com um aceno. Os homens grisalhos não disseram nada. Encararam o rapaz e apertaram um botão. Do teto, um molde desceu e se fixou no centro do cômodo.

O rapaz se aproximou do molde. Logo de cara, percebeu que seu corpo não caberia naquela armação metálica. O jovem se contorceu para entrar no espaço limitado. Travou os dentes enquanto lâminas automatizadas fatiavam sua carne e prensas mecânicas esmagavam seus ossos. Quase desmaiou durante o doloroso processo. Mas conseguiu resistir. Foi aprovado pelos examinadores. Foi admitido pela empresa.

 

Aqueles que não se encaixavam nos moldes eram descartados; forçados a viver nas ruas, mendigando ou roubando para não passar fome. Era assim que funcionava aquela sociedade: apenas aqueles que se moldavam às exigências corporativas escapavam da miséria. Por isso, tantos jovens se submetiam à penosa jornada de padronização.

 

O rapaz passou os anos seguintes trabalhando em um emprego inútil e tedioso. Realizava funções burocráticas, que não entendia bem. Checava contratos e redigia ofícios. Carimbava documentos. Entregava relatórios aos supervisores. Todos os trabalhadores do setor eram como ele: pessoas moldadas para servir ao sistema.

Quando completou quatro anos em sua função, o rapaz recebeu a oportunidade de passar por um novo molde para ser promovido. Animado com a possibilidade de receber um salário melhor, ele entrou no processo seletivo. Inicialmente, não cabia na moldura metálica. Teve um braço arrancado para se encaixar. Mas foi aprovado. E assim, subiu na hierarquia da empresa.

Trabalhou alguns anos como supervisor, realizando atividades ainda mais abstratas, de propósito incompreensível. Depois, passou por um terceiro molde, onde perdeu um olho e a língua para se tornar diretor regional.

O rapaz, já envelhecido, se sentia importante. Acreditava estar perto de um cargo de chefia. Continuou investindo em sua carreira, passando por dolorosos processos de moldagem. Era promovido para cargos mais elevados. Cumpria funções indecifráveis. Mas nunca chegava à riqueza prometida pelas propagandas. Parecia andar em círculos.

 

Quando adoeceu, o funcionário foi abandonado pela empresa. Não recebeu cuidados médicos. Faleceu, sem nunca ser recompensado por seus sacrifícios.