Ele só percebeu que havia chovido durante a noite quando abriu a porta que dava para o quintal, mas o frio não era uma novidade. Morava em algo que julgava o mais próximo de uma geladeira com móveis, mas o cansaço era tanto que naquela noite específica apagou, ignorando frio, chuva e tudo mais.
Encarou a manhã gelada para ir trabalhar.
Mesmo com o vento frio deixou passar um ônibus, não porque estava cheio e sim porque não havia lugares vazios do lado da janela, mas não demorou muito para que outro chegasse atendendo aos seus pré-requisitos de assentos. Como de costume, ao sentar desconectou-se do restante das pessoas, quase dormindo, ouvindo suas músicas, mas esse estado de hibernação e desconexão foi quebrado por uma passageira que subiu três pontos depois.
Pessoas bonitas entram e saem de ônibus todos os dias e é bem provável que ele já tenha visto outras pessoas tão lindas quanto, mas por algum motivo ela o impressionou. Pode ter sido o gorro roxo que usava, ou as tranças num tom azulado que ele não conseguiu identificar. Pode ser também o jeito confiante com que falou bom dia ao cobrador ou até mesmo pelo seu sorriso que acompanhou o cumprimento, mas seja o que for, capturou sua atenção. Não se trata de amor a primeira vista, paixão arrebatadora de contos românticos, mas sim uma impactante primeira impressão.
Ela sentou-se à cinco fileiras dele num banco que ficava de frente para o seu, pegou o celular e parecia rolar o 'feed" de algum aplicativo.
Depois de alguns segundo admirando a nova passageira, ele voltou ao estado normal de distanciamento para com o restante da humanidade, observava o movimento da rua pela janela, criando "fanfics" ao som de suas músicas favoritas, quando sem querer olhou novamente para ela e se surpreendeu ao ver que também olhava para ele. A mulher, também pega de surpresa, olhou de improviso para a janela. Ele fez o mesmo e logo cogitou que a moça estava viajando em seus pensamentos e por uma casualidade seus olhares se encontraram. "Devia estar olhando para alguma outra pessoa atrás de mim ou apenas pensando na vida", disse a si mesmo, mas a partir daquele momento não conseguia mais dar continuidade em sua fanfic mental com a Rihana e tentou ao máximo se controlar pra não dar mais uma olhada, mas não conseguiu e meio que de canto de olho tentou avista-la e viu que estava vendo algo no celular, mas aos poucos ela também levantou os olhos e por um segundo e meio se encararam. Era evidente que olhava para ele e que, seja lá porquê, a sua pessoa despertou interesse nela. Desviou o olhar e pensou :"pode ser que ela me achou parecido com um amigo, com um parente, ou tenha gostado do meu cabelo, que realmente está legal". Especulou dezenas de possibilidades, menos a dela ter o achado bonito ou minimamente interessante, mas sentia que não era isso.
Ficaram nessa troca de olhares por todo o percurso, mas os olhares pareciam durar mais a cada encontro. Os demais passageiros não poderiam imaginar que haviam naquele coletivo duas pessoas que se comunicavam por gestos. Era um ajeitar do gorro, um sorriso com os olhos, uma escolha intencional de música para aquele momento...
Muita coisa estava acontecendo entre aquelas cinco fileiras de bancos e pela primeira vez ele não queria chegar ao seu destino. Queria ficar ali, do lado da janela, olhando pra ela e percebendo que alguém nesse mundo também olhava para ele. Queria salvar aquele momento, baixar aquele instante para curtir outras vezes, mas o ônibus continuava a se mover e acabou chegando num ponto em que ela precisou descer. Assim que o coletivo parou, segundos antes de descer as escadas, a moça olhou novamente para ele, que por sua vez não teve medo de permanecer conectado aos seus olhos até que ela fosse embora.
Durante o restante do seus percurso sentiu uma coisa diferente. Estava misteriosamente feliz, viu seu reflexo na tela preta do celular, ajeitou o cabelo, escolheu uma música mais alegre.
Ele não sabia, mas aquilo era sua auto estima apresentando um leve crescimento em relação ao mesmo período do ano passado.
R. T. Medrado
