Eu sei que não deveria ter me sentido tão inferior,de repente o ar ficou preso em meus pulmões e o meu rosto estava quente como se meu sangue estivesse em chamas...o dia estava meio frio,e eu simplesmente me perdi no emaranhado de capuzes, bonés e mochilas. Coloquei o capuz do meu moletom cinza na cabeça e me tornei ainda mais invisível, eu queria chorar e mandar quem quer que cruzasse o meu caminho ir à merda- meus nervos estavam em frangalhos-e eu me sentia o cara mais infeliz desse mundo.
Não queria voltar para a casa, se minha mãe me visse naquele estado surumbatico em que me encontrava, surtaria também, e eu já tinha minhas próprias frustrações para lidar. E como a escola ficava há três quarteirões de casa, decidi ficar matando o tempo até ter apagado por completo a imagem de Renata beijando aquele imbecil...e embora eu estivesse andando em círculos, pois todos os caminhos de alguma forma davam perto de casa, fui procurando as ruas e até mesmo ladeiras que me dessem algum tempo até eu me sentir totalmente vazio de toda àquela dor. E enquanto caminhava tentando me distanciar ao máximo do ponto de chegada, fui pensando nas coisas que eu diria à Renata caso ela ainda lembrasse de mim, em como eu simplesmente evitaria tocar em assuntos que remetessem ao dia de hoje. Eu já estava até ensaiando mentalmente o que lhe diria, sobre deixarmos de nos falar definitivamente. E isso só foi aumentando o nó que já existia dentro de mim, porque se eu deixasse de vê-la sem um motivo aparente, seria pego por minha mãe, que me sondaria ao máximo até tirar a verdade a respeito de nosso distanciamento abrupto.
Por outro lado havia a própria Renata, que não entenderia o porquê do meu afastamento e acabaria suspeitando de minhas intenções quanto à ela, o que a levaria a investigar a fundo toda a história e ela acabaria envolvendo o capeta da minha irmã, que certamente confirmaria as suspeitas dela... o que me levaria a ser zoado eternamente por Flora e totalmente hostilizado por Renata.
E matutar sobre tudo isso me tirava o chão, e eu teria de voltar para casa mais cedo ou mais tarde. E foi exatamente o que fiz, engoli o choro e fui para casa, ao chegar encontrei minha mãe se preparando para levar meu irmãozinho na creche; então como eu realmente não queria falar sobre o assunto, me ofereci para ir no lugar dela, o que minha mãe aceitou de bom grado.
E foi isso...
Até hoje não tivemos de conversar sobre o quão arrasado eu me senti naquele dia, e eu continuei falando com Renata, não com a mesma frequência de antes, mas eu acho que ela nem notou que algo havia mudado. Creio também que ela nunca descobriu a proporção que meus sentimentos tomaram com relação à ela... o tempo também foi se encarregando de clarear algumas coisas e fui percebendo, que talvez, tivesse confundido os meus sentimentos.
Sim, foi um tanto complicado superar,e no início eu mal conseguia encará-la sem quase cair no choro, principalmente quando a via andando de mãos dadas com o seu namorado mais velho. Foi mais ou menos nessa época que eu comecei a planejar sair de vez daquela escola, e não me entendam mal, eu realmente não fiquei noites em claro estudando coisas que eu sequer tinha aprendido ainda por causa de Renata, nada do que eu fiz foi para me afastar do sofrimento que sem perceber ela me causara. Não, eu já tinha vontade de sair de lá, eu tinha um monte de coisas em mente e ainda que ela nunca houvesse arranjado um namorado, eu certamente ainda nutriria o desejo de mudar.
É óbvio que estar com o coração partido facilitava muito na decisão de ir embora, porque se não houvesse aquele cara, eu ainda me iludiria e isso forçaria a continuar. Mas com toda certeza não foi por ela que eu decidi ir embora, e muito menos, não foi por ela que sacrifiquei minhas esparsas horas de felicidade jogando Call Of Duty.
Desde então o meu foco tornou-se os estudos, não que eu tenha me isolado do resto do mundo ou algo assim, na verdade eu só diversifiquei os meus interesses. Antes de minha primeira desilusão amorosa, eu vivia para as opiniões de Renata e estava sempre muito preocupado com minha mãe, não que esta última preocupação tenha se dissipado mas como como é né? ter diminuído o meu tempo ao lado de Renata acabou por ampliar os meus horizontes, até então eu acho que todos me viam como o bichinho de estimação dela, que era arrastado pra lá e pra cá.
Daí então quando eu finalmente saí de debaixo de sua asa, passei a ser notado. As pessoas vinham até mim para conversar, eu não parecia mais infectado pelo vírus da servidão cega, agora eu tinha a minha própria identidade e não precisava mais me sentir culpado por dizer uma bobagem, aliás agora eu me sentia totalmente livre de qualquer censura. Porque é meio complicado ter uma garota como melhor amiga, sei lá principalmente aos 15 anos onde tudo soa obsceno e na maioria das vezes, metade das coisas que dizemos não fazem o menor sentido, é como um eterno abrir e fechar de bocas mecânico, onde as palavras saem quase que involuntariamente.
Foi nessa época em que eu dormia e acordava com a cabeça debruçada em livros que pareciam não ter fim, que eu conheci o João Vitor, bom como eu poderia descrevê-lo? acho que se eu dissesse apenas que ele era um cara legal soaria muito genérico... então toda vez que penso em apresentá-lo para desconhecidos digo logo que sem a menor sombra de dúvidas ele é uma das pessoas mais talentosas que já conheci. E isso não é um eufemismo não! ele poderia muito bem ser o melhor aluno da classe se realmente tivesse o interesse. É estranho, porque ele diz que nós estudamos na mesma classe desde a 6° série, embora eu nunca o tivesse visto por lá.
Nós nos conhecemos por acaso, se é que podemos chamar isso de "O dia em que nos conhecemos" porque ele disse que sempre me via pela escola andando com uma garota que parecia meio louca ( e pensando bem esta é uma excelente descrição de Renata). Ele disse que sentia um pouco de pena de mim, porque eu parecia não ter muito amor próprio, e embora essa constatação tenha doído um pouco, eu concluí que no fim das contas, eu agia como um perfeito pau mandado.
Mas, voltando ao dia em que nos conhecemos oficialmente.
Lembro que estávamos na aula de biologia e e ele se sentava na última carteira da fileira, do outro lado da sala, você sabe, a parede com janeja que sempre tem cheiro de papel queimado ou pessoas mostrando o dedo do lado de fora. E assim como a maioria, não prestava atenção na aula, coisa que pensando bem parecia impossível, se levarmos em consideração o fato de que a professora mesmo não estando nervosa conosco, já falava uns quatro tons acima do normal.
E além de falar praticamente gritando, ela tinha o estranho costume de repetir as primeiras e as últimas frases, o que sempre nos confundia um bocado, e nesse dia ela estava falando sobre os processos de mitose e meiose. Quando notei que João parecia muito ocupado escrevendo freneticamente em um papel, sem sequer olhar para a professora ou para qualquer um de nós. Ele parecia completamente absorto pelas ideias que expressava ali, e mesmo estando de cabeça baixa eu podia notar a tensão em seus ombros curvados. Por mais que isso pareça esquisito, ainda que eu quisesse não conseguiria parar de prestar atenção nele, porque eu estava muito curioso para descobrir o que ele estava fazendo.
Até que o sinal tocou e como era a última aula, os que ainda não haviam guardado o material agora se detinham em fazê-lo o mais depressa possível, era sexta feira e muitos planos se desenrolavam nesse meio tempo. Eu ainda estava curioso para descobrir o que aquele cara que parecia ter saído diretamente de um editorial da I-D (sim, por andar demais com a Renata eu sabia bastante sobre esse tipo de coisa) que eu nem sabia que estudava comigo estava fazendo.
Joguei minhas coisas na mochila e fiquei à espreita, ele continuava fazendo sabe-se lá o quê e aos poucos a sala ia se esvaziando, e o cara nem sequer olhava para os lados. Devo confessar que às vezes minha curiosidade é maior que o meu constrangimento, sei lá o que me passou pela cabeça, que ele pudesse estar armando,mas fosse o que fosse eu estava interessado em descobrir... à certa altura eu já nem escondia minha vontade de saber qual o conteúdo daquela folha de papel. Eu bem que poderia me levantar e ir até lá, ver o que ele estava fazendo, mas isso era demais até mesmo pra mim. Então continuei a esperar...
Até que ele finalmente terminou o que estava fazendo e saiu da sala, é óbvio que eu não fiquei ali todo esse tempo olhando pra ele sem fazer nada, então quando percebi que ele havia terminado o seu trabalho misterioso e estava se preparando para sair, fingi estar lendo um livro, que aliás eu já deveria ter terminado há um bom tempo, o livro em questão era "Dom Casmurro" estava lendo para um seminário e devo confessar que é bem chatinho... mas voltando ao cara,ele nem percebeu que eu estava fingindo, tudo o que fez foi pegar sua mochila e sair porta afora, como se ninguém estivesse ali. Por um instante eu fiquei meio frustrado por ter perdido o meu tempo curiando a vida dos outros, mas aí quando me levantei olhei para o lado e percebi que embaixo da carteira dele, tinha um papel, tentando parecer o mais natural possível pois a professora meio surda ainda estava na sala, fui andando até a carteira de João e peguei o tal papel.
Na folha que encontrei estava a reprodução mais perfeita que eu já vi da capa do álbum "Neighborhoods" do Blink 182, confesso que fiquei impressionado com aquilo, ele conseguiu copiar com destreza todos os detalhes do desenho original...mesmo o mais complicado ele reproduzira com perfeição.
Ainda meio chocado saí da sala e fui atrás dele, rezando para que ainda o encontrasse em meio à loucura que era a hora da saída lá na escola, eu parecia meio louco quando o alcancei, provavelmente foi o que ele pensou ao meu ver, me achou com cara de bobo mas não pareceu surpreso quando lhe estendi a mão com o desenho. E com um sorriso um tanto malicioso ele apenas balbuciou isso:
_ Ah, então é você que recolhe os meus desenhos no fim da aula?...
A voz dele era grave e muito calma.
_ Bom... na verdade eu nunca tinha te visto na sala de aula, provavelmente você já deve ter um fã.
Disse eu, pensando bem acho que foi meio rude de minha parte dizer isso, porque eu praticamente joguei em sua cara que nem sabia de sua existência, sei lá se ele não fosse tão legal, teria me dado um soco naquele instante.
_ É... é que esse lance de ficar preso dentro de um cubículo, abrindo e fechando a boca para dizer "sim" ou "não", enfileirado parecendo uma coisa não é mesmo pra mim. Quer dizer, nada contra se você acredita nesse sistema...mas eu penso diferente.
E eu fiquei calado, pois principalmente naquela escola àquela definição se adequava perfeitamente, eu também me sentia assim, meio encurralado e sem muita esperança com relação ao futuro, se continuasse ali. Mas ele tinha uma forma de expressar aquela sensação tão comum à maioria de nós, que realmente era digno de alguma reflexão.
Ele parecia mais velho que eu, aliás eu ainda estou na lanterninha... continuo franzino, mas já nem ligo mais pra isso. Ele era alto e tinha a pele bronzeada, os cabelos ondulados muito negros, olhos grandes e e um nariz e boca bem desenhados, era bonito. Não era magrelo como eu, mas também não se destacaria entre os outros caras da escola. Quando ria deixava escapar os seus dentes da frente meio separados, o que mais tarde,lhe rendera o apelido de Bob Esponja. O cabelo dele era meio comprido... eu sou ruim de descrição, mas tenho certeza de que se a Renata o visse, diria que era um "gatinho".
Coisa que por sinal ela não pensava de mim...
_ Uma vez eu li um livro de um cara chamado Tolstoi, nele retratavam a experiência real dele ter transformado a própria casa em uma escola. E na escola dele, você podia se sentar onde quisesse, tipo na janela até, não tinha chamada e nem mesmo uma divisão entre idades. Você sabe as classes, e ainda assim todas as crianças aprendiam a ler e escrever, aprendiam artes e cálculos e ele nunca precisou gritar com ninguém. Falando assim até parece mentira, né? mas isso realmente aconteceu. Ele tinha 14 filhos! e foi por isso que idealizou esse método de ensino, no começo eram só eles, depois vieram as crianças filhas dos trabalhadores da fazenda, depois os próprios trabalhadores e por fim o pessoal da comunidade. Não é mais bonito?! eu só acho que ficar trancafiado em uma sala com um bando de desconhecidos não nos tornará mais aptos para a vida, certo?
É, ele têm bons argumentos
_Veja o nosso caso por exemplo. Estudamos juntos desde a 6° série, embora sejamos totalmente estranhos um para o outro...eu sei, eu sei, que não facilito muito as coisas quer dizer- eu raramente assisto às aulas- então é óbvio que você me ache louco,mas eu te vejo há um bom tempo andando com uma garota que acha que sabe tudo sobre tudo...mas agora estamos aqui , um diante do outro fazendo nossos próprios julgamentos que certamente ainda são bem precipitados. Passamos todo esse tempo dispersos, até que uma coisa tão comum, quanto este desenho- e pegou a folha de minha mão- até que por uma bobagem, estamos nos falando. Agora você entende o que quero dizer?
Desde o início eu havia entendido, mas ainda não conseguia encontrar uma ligação entre a nossa situação e o que ele me disse sobre Tolstoi.
É como se tivesse o poder de ler os meus pensamentos, ele fisgou a minha incerteza e prosseguiu...
_ O que estou tentando te dizer, é que todo esse tempo estivemos encarcerados, não encontrávamos nada que nos ligasse, nem mesmo o fato de estudarmos juntos. Foi preciso que uma coisa fora do "âmbito escolar"acontecesse para que você percebesse, que sim! eu não sou um aluno muito exemplar e o mais importante que existo, ora essa. É disso que estou falando, nós passamos metade de nossas vidas trancafiados em salas de aula, para logo em seguida passarmos a outra metade dela trancafiados em outras salas, fazendo companhia a estranhos que fazemos questão de não criar laços, simplesmente por achá-los diferentes de nós. E sim! nós somos muito diferentes mesmo uns dos outros, mas isso não precisa ser uma barreira, precisa?
Ele parecia me dissecar com os olhos - e sim eu havia entendido- isso é totalmente real, para ser sincero eu nunca me dei conta do quão seletivo,na verdade preguiçoso já fui no que diz respeito a conhecer outras pessoas. É como se houvesse uma amarra mental, que só me permitia estar próximo do que de alguma forma, já me era comum. Eu sei que para superar todas as "limitações" eu precisava de anos de terapia, que muito desse meu jeito frio de ser tenha a ver com a criação nada acolhedora que tive...mas aí estava a minha chance de ultrapassar essa fase.
_ Você tem razão, me desculpe-disse eu- é que eu não sou muito de puxar conversa com o pessoal lá da sala...mas você desenha muito bem, principalmente pelo fato desse desenho ter muitos detalhes. Eu gosto muito de Blink 182...
_ É, eu já sabia.
Na verdade todo mundo da escola já sabia disso, afinal por qual outro motivo eu andaria por aí com uma camiseta da banda?
_ Mas sobre esse livro, você acha que se as escolas adotassem esse modelo, você acha que daria certo? quer dizer , seria bom sair um pouco de toda essa histeria...
_ Sim. Eu acho que sim. Tudo depende da união da boa vontade e interesse dos alunos com um pouco de empenho da diretoria da escola. Na verdade já existe uma escola assim, e é lá em Portugal, antes de adotar esse sistema eles passavam pelas mesmos perrengues que a gente, tipo os alunos desinteressados, violência e descaso por parte dos professores.
Até que o diretor da escola decidiu derrubar o muro, que separava a escola de tudo ao redor, e a primeira coisa que eles notaram foi que ninguém mais queria cabular. Logo em seguida, acabaram com esse lance de só ficar dentro da sala de aula, mesmo com toda facilidade para fugir de lá, ninguém ia embora. Até que acabaram com as classes formais e foi aí que a coisa engrenou. Porque finalmente as pessoas perceberam que a educação não precisa ser imposta como se só tivesse uma forma de fazer as coisas. Então sei lá... nós não somos piores do que ninguém, não custaria tentar, né?
Ele sabia defender com bastante veemência seus argumentos, essa é uma das coisas que mais admiro nele, porque mesmo quando ele opta por acreditar na coisa mais difícil, não importa a privação ou o tanto de pedras que possam existir ao longo do caminho, mesmo assim ele continua indo na mesma direção.
_ É... você tem razão. De qualquer forma eu não pretendo ficar aqui por muito tempo.
_ Por quê?
_ É que eu estou pensando em me inscrever no vestibulinho da escola técnica...
_ Àquela que fica no outro bairro?
_ Sim, essa mesmo.
_ Bom...cara, então desde já te desejo sorte, porque dizem que só tem crânio lá. Você sabe, gente muito inteligente e tal; não que eu esteja insinuando que você não tenha capacidade para estudar lá...mas sejamos sinceros, é um páreo duro.
_ É...eu sei, mas eu tenho me esforçado muito este ano, até em matemática eu tenho me saído bem. Sei que as chances são de 1 em 1.0000 de conseguir passar,mas eu vou tentar.

