Era noite e sob a luz da lua no reflexo dos seus olhos eu existia. Permanecia ali tão muda, tão calada, tão calejada que meus defeitos misturavam-se com a ventania e se desfaziam. Eram usurpados, queimados pela alma que apaixonada enxergava meu reflexo no teu regaço. Como quem esperava a sorte, esperava tu no meu silencio e eu almejava os seus suspiros e nos cobrávamos dos sonhos de outrora, estes que só se afloraram depois de um tempo.
Caminhamos outro dia pela calçada da cidade, também era noite e a rua estava reservada para os mais rápidos e os mais espertos, e para nós que caminhávamos a passos cândidos, nada nos sobraram.
Apontei-te uma arvore que dançava sobre as luzes dos postes, de lá saíram pássaros, um gato amarelo e os desencantos pintados com as cores de um arco-íris, e então você me disse “ se sucumbirão eles e logo nós também, mas enquanto nada nós detém você tem a mim eu a ti. Eu te amo até depois do fim quando a morte puxar-me os cabelos e eu avistar o além.”
Meus olhos embeberam-se de lagrimas salgadas levando minh’alma à boca, na lógica irracional do tempo a minha vida era pouca, mas o nosso amor se estendia para além de tudo, das estrelas manhosas, das tardes findas e para depois da vida, onde ainda eu com esperança o veria.

