Sentado em uma poltrona próximo a porta, meu desejo. Pensativo, recorda com cintilância a fome que o apanhou na noite de ontem e revê o engasgo, o vomito de sangue, a bile amarga.
Como se sentisse saudade do susto, sustenta sua sede sobre a pele, tem ainda nela as marcas do espinho, desfigurada como uma solitária pedra viscosa, na calçada de um céu revestido de luto.
Em ato súbito percorre com os olhos a sala, espantado. No tapete de penas analisa as borboletas que rondam seus pés, elas haviam entrado pela janela entreaberta, o nome de uma delas, era amor. Acompanhou atentamente seu trajeto, o amor pairou sobre fotos empoeiradas, passou por entre as prateleiras cobertas de livros sem capa, rodopiou ao redor do velho lustre que se pendia no teto e por fim, exausto de uma irracional procura, o amor parou ali, ao pé do meu desejo.

