A VINGANÇA DO BARBEIRO
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A VINGANÇA DO BARBEIRO

Quase que sem notar entrou na galeria de

um prédio. Sentiu a atração do caldo de

cana na loja de entrada, um cheiro de

couro o fez fugir mais para dentro da galeria, quando

passou pela espremida sapataria. Viu uma ótica com

muitos relógios Orient nas prateleiras e ainda com a

visão das vitrines empoeiradas e os olhos se

acostumando a pouca luz invadiu a barbearia de

Jonas.

Fazia uns dois anos que não ia aquela barbearia, a vida

o havia empurrado para o centro da cidade e era

quase sempre por lá que se servia das barbearias.

Hoje ao sair de casa tinha decidido duas coisas, que

iria tirar a barba, e que faria isto na barbearia de

Jonas.

Procurou Jonas com o olhar e só o encontrou

numa foto na parede de paletó e gravata. Foi quando

viu uma cópia clonada, mais jovem de Jonas, só podia

ser filho dele. Não perguntou nada, como não havia

mais ninguém tão cedo na barbearia foi sentando e

pedindo para tirar a barba, o rapaz começou então o

ritual de colocar o avental, inclinar a cadeira…

Falou em voz firme e decidida:

- Cabelo número três e faz a barba também.

Enquanto o filho de Jonas pincelava a máquina e

ajustava o pente para número três perguntou

- Cadê Jonas?

O rapaz então de uma forma séria e muito natural

falou:

- O Senhor não sabia? Meu pai morreu o ano passado.

Ficou confuso como o barulho do comércio lá fora.

Confuso, pois era um choque aquela notícia, pensava

que Jonas como todas as coisas da sua vida era como

um elemento de um cenário de uma peça destas que

ficam a vida inteira em cartaz e sempre existiriam.

Confuso porque de repente estava ali um garoto

ocupando o espaço de um pedaço da sua vida. As

barbearias da vida. Tomando novamente o controle

de si respondeu:

- Não. Não sabia, faz alguns anos que não venho aqui.

Sinto muito! De que foi que ele morreu?

- Coração, teve um enfarte, ainda foi para o hospital,

mas não resistiu.

- Sinto muito mesmo, eu gostava muito de Jonas,

corto o cabelo com ele desde meus sete anos, ainda

não era aqui a barbearia dele, era lá na rua de cima.

- Meu pai sempre foi barbeiro, já tinha estado bem

doente um tempo atrás, por conta de beber demais,

mas se curou e parou de beber. Esta foto aí de paletó

foi quando ele concluiu um curso de bíblia na igreja,

pois depois da primeira doença ele passou a

frequentar a igreja universal.

Pensou consigo mais dinheiro para o Edir.

Mas continuou a conversa sem alimentar o

assunto da igreja, pois não estava mesmo a fim de

ouvi sobre os efeitos dos milagres universais.

- Sabe foi Jonas quem fez minha primeira barba. E

ainda comentou que nunca tinha visto uma primeira

barba tão cheia como a minha.

- Meu pai quando morreu já tinha comprado esta

loja aqui, é própria. Eu já o ajudava aqui há mais de

um ano.

- É... Gostaria de ter visto o Jonas! Para você saber,

quando comecei a frequentar esta barbearia, não esta

a lá de cima, eu ainda precisava de uma tábua na

cadeira pra ter altura para o Jonas cortar.

Finalmente de barba feita, se via como se veria

nos próximos meses.

Depois dos próximos meses sem destino certo e

em silencio andava, quando entrou na barbearia.

Subiu os dois batentes que levantavam a barbearia da

rua, olhou quantas pessoas o separavam da vez de

sentar na cadeira do barbeiro, sentou e pegou um

jornal. Não demorou em notar que era o mais moço

de todos os que esperavam a vez. Foi então que

começou um dos seus filmes mentais onde ele mesmo

era o protagonista da saga de barbearias. Voltava à

barbearia de Jonas e falava com seu filho ou era com o

próprio Jonas no instante que o barulho da

cremalheira da cadeira encheu a barbearia.

Não demorou e já era sua vez de sentar naquela

cadeira de prateado ferro fundido com estufados

vermelhos

- O Botafogo empatou de novo, não sei por que não

tiram aquele técnico burro.

Falou o barbeiro, não para ele, mas para

barbearia inteira, e só depois é que perguntou:

- O que vai?

E continuou:

- Não só o técnico. Tinham era que trocar o time

todo…

- Barba e cabelo.

- Joga um real no milhar do talão e um na de sempre

Gritou o barbeiro para a cambista que acabara de

entrar.

Ainda olhou pelo espelho e viu dois velhos de

quase nada de cabelos brancos, um senhor de bigodes

pintados com uma das mãos na vasilhazinha de sabão

da manicure e a outra entregue a carnificina do alicate

e repetiu.

- Barba e cabelo no numero três.

Nem bem terminara a frase e já estava a máquina a

lhe zumbir nos ouvidos.

- Sabe cheguei há dias de viagem e esta barba é de

quase cinco dias sem ser feita.

- Parece que tem mais...

- Estava viajando passei um tempo fora, trabalhando.

- É? Sabia que o botafogo está numa fase ruim

mesmo, não ganha há dez jogos.

- Não sabia, mas ouvi você falando há pouco, lá onde

eu estava ouvia falar pouco de futebol.

- Sei. Quanto tempo mesmo?

- Vários meses. Esta referencia ao tempo que ficara

fora, era a primeira, embora vaga, demonstração de

A vingança do barbeiro

interesse do barbeiro por algo que ele falara que não

fosse futebol. Aí continuou

- Cheguei há dois dias e estou vendo o que fazer por

aqui.

- É a primeira vez que faço sua barba não?

- Sim, tava passando nesta rua, não ando muito por

aqui.

- Como ia dizendo não vou mais a jogo nenhum, não

vou dar dinheiro à cartola pra deixar o time nesta

situação.

De novo futebol o homem parecia mesmo

transtornado com a fase ruim do seu time.

- Sabe. Lá onde eu estava escurecia bem tarde, sete da

noite ainda tem sol alto.

- Imagino que fizesse calor.

- Nem tanto sai de lá era inverno, bastante frio.

- Aqui este calor infernal. Viu então que o barbeiro

tinha umas gotas de suor na testa.

- Seu Jorge, o senhor viu ontem o bicho, joguei a de

sempre 3514, e deu lá bem no quinto premio 3415.

Ainda chego lá.

- Eu peguei uma dezena ontem , no quarto premio ,

respondeu seu Jorge.

- São cinco horas de avião daqui até onde eu estava

trabalhando, e ainda se faz quatro escalas.

Continuou a falar de coisas da sua viagem, até que

terminou o barbeiro de cortar o seu cabelo, colocou a

toalhinha em seu pescoço. Abriu a navalha, trocou a

lamina e começou a espalhar creme em seu rosto.

Quando com o pincel espalhou uma nuvem de

espuma em seu rosto, o fez também na boca. Era

assim que o barbeiro o fazia calar, pois tava claro que

não havia interesse comum naquela conversa. Aliás,

monologo, pois a nada que falara, o barbeiro

demonstrou interesse ou respondeu. Agora, naquele

instante, voltara o barbeiro a sua rotina, e falava dos

seus assuntos com seu Jorge e com o cara que trocara

de mão na vasilhazinha de sabão.

Lentamente a navalha removia tufos brancos de seu

rosto.

Quando diminuiu a quantidade de espuma e a cada

parada do barbeiro para limpar a navalha num tufo de

papel higiênico, ele falava:

- Pois é meu amigo, estou de volta e numa barbearia.

E tome navalha

- Sabe dias antes de viajar eu tirei a barba, pois a

usava bem grande. Foi quando sai da barbearia

naquele dia que recebi o convite pra trabalhar fora.

O barbeiro calado, agora com uma cara séria,

escanhoava sua pele, já toda sem espuma. Puxava a

navalha e em seguida puxava-lhe a pele com a outra

mão, em busca de algo ainda crespo de cabelos.

Enquanto o barbeiro molhou as mãos para passar em

seu rosto continuou.

- Foi na barbearia de Jonas, onde desde criança fiz

minha barba. Dizia isto na esperança de trazer o

barbeiro para a conversa.

Afinal a frase “desde criança” o tornaria um pouco

mais velho, e também trazia o assunto pra barbearias,

mas o barbeiro tornara-se mudo.

Obstinado que estava em puxar sua pele e

deslizar a navalha, extinguindo de sua face qualquer

vestígio de pelos. Já estava mesmo era doendo aquele

prazer de ter a barba feita, e em alguns cantos do

rosto já via mesmo pequenos pingos de sangue. Neste

momento o barbeiro com uma pedra hume estancou

aquela mínima hemorragia. Sentiu prazer e pensou-se

masoquista, e isto já era bom, pois era, mais um lado

seu que passaria a explorar.

Foram instantes, que ele também se calara

embevecido nos movimentos firmes com que o

barbeiro esticava sua pele.

Estava bem longe em seus pensamentos, quando o

barbeiro enfim falou.

- Com ou sem Vingança.

Ele demorou a entender e acha mesmo que deve ter

feito algum movimento com a cabeça, pois o barbeiro

entendeu que sim. E enchendo as mãos de colônia

passou as duas de uma vez, nos dois lados do seu

rosto. Foi ao inferno de ardor. Como aquilo ardeu,

seus pecados se eriçaram junto com todos os pelos do

corpo, quando abriu os olhos , viu em cima dele o

rosto do barbeiro, parecia enfim ter algo de sorriso no

canto da boca. Mas o que se via mesmo era aquele

brilho no olhar. Era vingança. Vingara-se com aquela

fartura de colônia, de todas as palavras que não

diziam respeito ao botafogo nem a nada que o

barbeiro tivesse interesse e que ele despejara

naqueles minutos. Vingou-se acho mesmo até do

Botafogo. Sentiu-se usado.

Emprestara o rosto ao sadismo daquele homem, até

sentira prazer, mas o desgraçado preparava mesmo

era aquela vingança.

Quando desceu os batentes da barbearia e uma brisa

soprou-lhe o rosto. Ainda ardia a pele. Sentiu aquele

cheiro de colônia, parecia algo de nostalgia, lembrou-se do seu avô barbeado. Pisou e saiu desenhando um

projeto de vida.