TERIA NELSON RODRIGUES MENTIDO? YORICK, RITINHA E O DIÁLOGO SECRETO ENTRE SHAKESPEARE E NELSON RODRIGUES

TERIA NELSON RODRIGUES MENTIDO? YORICK, RITINHA E O DIÁLOGO SECRETO ENTRE SHAKESPEARE E NELSON RODRIGUES

Here hung those lips that I have kissed I know not how oft.”

William Shakespeare, Hamlet, Ato V, Cena I

 

“É o último beijo! O último! O nosso adeus!”

Nelson Rodrigues, Bonitinha, mas Ordinária

 

 

Há uma pergunta que me persegue desde que reli Bonitinha, mas Ordinária:

Teria Nelson Rodrigues mentido ao dizer que não lia Shakespeare?

Não tenho a resposta. E talvez seja melhor assim.

Para discutir o assunto, convoquei mentalmente Otto Lara Resende. Afinal, quem melhor do que o velho amigo de Nelson para participar de uma suspeita dessa natureza?

Otto provavelmente me ouviria em silêncio e perguntaria:

"Mas você quer provar que Nelson leu Shakespeare?"

"Não."

"Então?"

"Quero saber se ele precisou ler."

Aí começa o problema.

 

Nelson dizia que lia e relia Dostoiévski. Era uma declaração perfeitamente rodrigueana: em vez de ostentar uma biblioteca, escolhia uma obsessão.

E havia boas razões.

Dostoiévski gostava de homens divididos contra si mesmos. Homens que desejam uma coisa, acreditam em outra e acabam fazendo uma terceira.

Nelson também.

Edgard, em Bonitinha, mas Ordinária, é um desses homens.

Ele ama Ritinha.

E Ritinha sabe.

Mas ela não recebe esse amor como uma dádiva. Recebe-o como um perigo.

Ela se considera indigna dele e tenta desiludi-lo. Quer libertá-lo do amor que ele sente por ela. Quanto mais percebe que Edgard a ama, mais procura mostrar-lhe aquilo que acredita ser a sua verdadeira condição.

É uma das crueldades mais bonitas de Nelson:

Ritinha tenta afastar Edgard porque sente compaixão por ele.

Ela quer salvá-lo dela mesma.

Edgard, ao contrário, quer permanecer.

E então os dois entram na cova.

 

É nesse momento que Shakespeare aparece.

Ou talvez não apareça.

Esse é justamente o mistério.

Em Hamlet, Shakespeare coloca o príncipe diante do crânio de Yorick, o velho bobo da corte que o carregava nos ombros quando criança.

Hamlet segura aquilo que um dia foi um rosto.

Agora é osso.

A pessoa desapareceu. Restou a matéria.

E Hamlet contempla a morte.

Em Nelson, Edgard está dentro de uma cova com Ritinha.

Mas não há um crânio em suas mãos.

Há um rosto.

E Edgard pede um beijo.

É difícil não perceber a estranha simetria.

HAMLET SEGURA O CRÂNIO.

EDGARD SEGURA O ROSTO.

Um está diante do que a morte deixou.

O outro, diante do que a morte ainda pode levar.

Hamlet contempla a morte.

Edgard, diante da morte, procura o amor.

E talvez esteja aí a diferença essencial.

 

Porque aquele beijo não é apenas um beijo.

Ritinha quer que Edgard desista dela porque acredita que ele não sabe quem ela é.

Edgard, ao contrário, quer saber.

Ele não está apenas dizendo:

"Eu desejo você."

Está dizendo:

"Eu sei."

E continua ali.

O beijo, portanto, é também uma recusa ao julgamento que Ritinha faz de si mesma.

Ela acredita não ser digna de amor.

Ele não aceita essa sentença.

A cova, que deveria ser o lugar da morte, torna-se o lugar em que Edgard afirma a vida.

E isso é muito mais interessante do que uma simples semelhança entre duas cenas.

É uma mesma pergunta aparecendo em dois escritores:

O que fazemos com aquilo que amamos quando sabemos que vamos perdê-lo?

 

Otto talvez interrompesse:

"Você está vendo Shakespeare porque conhece Shakespeare."

É possível.

Uma cova não pertence a Shakespeare.

Um beijo não pertence a Nelson.

E um personagem diante da morte é tão antigo quanto a própria literatura.

Mas há coincidências que merecem ser observadas.

Shakespeare tem Yorick.

Nelson tem Ritinha.

Shakespeare põe um crânio nas mãos de Hamlet.

Nelson põe um rosto nas mãos de Edgard.

Um personagem olha para o passado da vida.

O outro tenta salvar o presente.

Talvez não seja influência.

Talvez seja convergência.

 

E então aparece aquela frase que não sai da cabeça:

"O mineiro só é solidário no câncer."

Otto Lara Resende deu a Nelson essa frase, e Nelson a transformou num dos centros morais de Bonitinha, mas Ordinária.

À primeira vista, é apenas uma boutade feroz.

Depois, começa a parecer uma filosofia.

O homem só seria solidário quando já não houvesse mais nada a ganhar.

Quando a doença chegasse.

Quando a morte estivesse próxima.

Quando já fosse tarde.

Mas Ritinha complica o teorema.

Porque ela tenta ser solidária antes do câncer.

Antes da morte.

Antes da cova.

Ela quer poupar Edgard de si mesma.

E Edgard recusa essa piedade.

Talvez seja essa a pequena revolução moral da cena.

É POSSÍVEL SER SOLIDÁRIO ANTES DA COVA?

Talvez.

Talvez o amor seja justamente isso: reconhecer a miséria do outro sem transformá-la numa sentença.

 

É aqui que Dostoiévski volta.

Nelson dizia que lia Dostoiévski.

Talvez tenha lido Shakespeare também.

Talvez não.

Mas os três escritores parecem conhecer a mesma região do homem.

Aquela em que desejo e consciência entram em conflito.

Aquela em que o homem não consegue ser inteiramente bom nem inteiramente mau.

Aquela em que amar alguém pode significar tanto aproximar-se quanto afastar-se.

Dostoiévski procura esse homem na consciência.

Shakespeare, no palco.

Nelson, muitas vezes, dentro de uma sala, de um quarto ou de uma cova.

 

Então, teria Nelson mentido?

Se leu Shakespeare, temos uma influência possível.

Se não leu, temos algo talvez ainda mais fascinante.

Dois escritores chegaram à mesma região sem necessariamente percorrer o mesmo caminho.

Talvez Nelson não precisasse ler Shakespeare.

Talvez precisasse apenas olhar para o homem com a mesma ferocidade.

Porque as grandes obras não conversam somente quando um escritor leu o outro.

Às vezes conversam porque ambos fizeram a mesma pergunta.

Shakespeare perguntou pela morte.

Dostoiévski perguntou pela consciência.

Nelson perguntou pelo amor, pelo desejo, pela vergonha e pelo preço que o homem está disposto a pagar.

E todos encontraram, em algum momento, o mesmo homem dividido.

 

Volto à cova.

Hamlet segura Yorick.

Edgard segura Ritinha.

Um tem nas mãos aquilo que já morreu.

O outro, aquilo que ainda pode perder.

E talvez essa seja a diferença entre os dois gestos.

HAMLET TEM O CRÂNIO.

EDGARD TEM O ROSTO.

Um contempla aquilo que restou.

O outro pede um beijo antes que reste apenas a memória.

Talvez seja por isso que a cena de Nelson me faça pensar em Shakespeare.

Não porque Nelson tenha necessariamente copiado Shakespeare.

Mas porque, diante da mesma escuridão, os grandes escritores às vezes encontram a mesma pergunta.

E talvez Otto, depois de ouvir tudo isso, apenas sorrisse e dissesse:

"Você ainda não provou que Nelson leu Shakespeare."

"Não."

"Então?"

"Talvez essa seja justamente a melhor parte."

Porque a literatura é esse diálogo interminável.

Um escritor cava.

Séculos depois, outro cava em outro lugar.

E, de repente, os dois encontram a mesma água.

Shakespeare encontrou Yorick.

Nelson encontrou Ritinha.

Um encontrou um crânio.

O outro encontrou um rosto.

E, entre a morte de um e o beijo do outro, permanece uma pergunta que talvez seja antiga demais para pertencer a qualquer escritor:

o que fazemos com o amor quando sabemos que tudo acaba?

Talvez Nelson tenha lido Shakespeare.

Talvez tenha mentido.

Talvez tenha dito a verdade.

Mas existe uma possibilidade ainda mais bonita:

talvez Nelson Rodrigues não precisasse ler Shakespeare para conversar com ele.

Talvez bastasse ser Nelson Rodrigues.

E talvez seja justamente isso que fazem os grandes escritores:

descem sozinhos à cova e voltam de lá trazendo uma pergunta que já estava esperando por nós.