Das dores,
Estou neste exato instante olhando para a lua enquanto te escrevo. A imensidão da fazenda me faz observar melhor os detalhes da natureza. Posso sentir o vento tímido deste começo de noite; ver às cores do céu que vão meslando entre a morte do dia e o nascer da noite; e claro a lua, ver, sentir, me sentir parte insolúvel desse eterno e misterioso momento que me nego a dividir com outra pessoa que não seja você.
Me senti bem ao te ver ontem, mesmo que de forma tão rápida. Infelizmente não posso conversar contigo como desejo -sozinhas e entre goles de café-. Há muito que eu gostaria de dividir contigo e assim poder me esvaziar ao menos um pouco. Sei que pôde perceber isso através dos meus olhos. A gente se entende em nossos silêncios, não é mesmo?
Tenho pensado muito sobre voltar a morar em fortaleza, e quase sempre pensar sobre isso me gera uma espécie de angústia.
Não que tenha sido ruim o tempo que passei lá, não foi, embora a maior parte dos dias eu tenha me sentido muito sozinha. Pinheiro estava comigo, mas sentia falta do afeto de outras pessoas, e na imensa parte do tempo não sentia aquela como minha casa.
Tenho medo de voltar a me sentir assim.
Mas também sinto que não posso simplesmente dizer a ele que quero ficar, construir uma vida nessa cidade que tanto me tirou. Criar Cecília... Não sei. Tenho estado confusa com absolutamente tudo; minhas inseguranças estão de portas abertas; abertas não, escancaradas, recebendo todos os sentimentos medíocres que guardo.
Me despeço desta carta que mais parece uma lista de reclamações. Ao menos sei que você terá paciência e me lerá com calma e afeto, como sempre tem sido e será.
Permaneço olhando a lua que se torna mais luminosa enquanto o céu vai se tornando mais negro. Olho-a e penso: será que também conseguirei algum dia me destacar dentro do escuro de mim?

