#02 CARTA
0:00

#02 CARTA

Querida Das dores,

 

Aproveito que Cecília dorme e te escrevo. Há um bocado de coisas que preciso fazer e não faço; minhas roseiras estão a espera de água, meus cadernos jogados; Preciso urgentemente encontrar uma maneira de fazer as pessoas se interessarem pelo meu livro que, como sabe logo mais será lançado.

 

No entanto deixo tudo para o tempo do "depois", e sentada no alpendre venho te escrever por pura necessidade de desabafo e compreensão: duas coisas que você sempre teve de mim e sempre me presenteou de volta.

 

Estou lendo Bukowski. De início foi com uma certa resistência e curiosidade. A resistência se deu porquê para meu desgosto este é o autor favorito de Andresa, e nada quero ter por perto que me lembre dela.

Infelizmente gostei de "misto quente" e já estou iniciando o segundo, "pedaços de um caderno manchado de vinho"; espero verdadeiramente odiar, mas sinto que isso não vai acontecer.

 

Acordei um pouco ansiosa. Talvez porque ontem não tenha tomado minha medicação, talvez pelo livro, talvez por sentir que minha vida inteira está passando diante dos meus olhos e eu apenas assisto de forma passiva e desesperada.

Tenho convivido diariamente com o peito apertado num nó que não desata. Será que uma hora me acostumarei a viver dessa maneira?

 

Sinto que preciso ir ao cruzeiro ver o pôr do sol, como fazia em outros anos. A saudade de sentir o vento bater em meus cabelos enquanto pouco a pouco às luzes da cidade se acendiam e o céu tornava suas cores amareladas e rosadas, é algo que me traz uma saudade difícil de te dizer.

Preciso ir lá e novamente me sentir assim.

Penso que talvez encontre um pouco de liberdade para minha alma tão presa neste corpo cansado. E quero te convidar a ir comigo e ver, e sentir, e explodir em sensações que só nós duas sabemos a força que é.

 

Então, o que me diz?