Minha amiga e sempre lembrada Das dores,
Hoje pela manhã tive terapia.
Me permiti dessa vez entrar no mais profundo de mim, e desaguei num choro cansado e antigo.
A dra Lúcia como sempre me ouviu com afeto e compreensão, apesar de muitas das vezes eu acreditar que ela - devido meu soluço - tenha deixado de compreender muito do que eu dizia.
A vi anotando com um olhar questionador alguns dos detalhes de minha dor, mas não me importei. Ter dividido com ela um peso que já estava deixando meus ombros curvados, me fez perceber - uma percepção minha e dela - que nenhuma das feridas estavam cicatrizadas, mesmo passado tanto tempo.
Quando sai do quarto trazia os olhos inchados e o nariz vermelho. O coração também saiu ansioso, meio dolorido e novamente nostálgico.
Abracei Cecília e olhei Pinheiro com ternura. Fiquei pensando no quão estranho é conviver com alguém, dividindo cômodos, móveis, e esta pessoa sequer imaginar o quanto ferido está sua alma.
O dia passou sem grandes perspectivas de algo grande. Tenho um livro que logo mais estará parido para o mundo; um sonho tão grande que não sei como devo sonhar.
A vida passa. Às pessoas mudam. E por que eu continuo aqui, tão presa a algo que só machuca?

