Era só um olhar.
Pelo menos, foi isso que tentei dizer a mim mesmo naquela tarde, quando nossos olhos se encontraram pela primeira vez.
Nada de extraordinário aconteceu. O mundo não parou, o tempo não retrocedeu, nenhuma música começou a tocar ao fundo. As pessoas continuaram caminhando, os carros continuaram passando, e o sol continuou sua lenta despedida atrás dos prédios.
Mas eu perdi o fôlego.
Por fora, permaneci imóvel, fingindo uma tranquilidade que nunca existiu. Por dentro, alguma coisa se desfez. Meu coração parecia desconhecer o próprio ritmo, e minhas mãos tremiam discretamente, como se meu corpo tivesse reconhecido um perigo que minha razão ainda não conseguia explicar.
O que está acontecendo comigo?
Seria isso o amor?
Hoje, olhando para trás, percebo a ironia daquela pergunta. Eu ainda não sabia que o amor poderia começar com um olhar e terminar com anos de silêncio. Não sabia que o mesmo sorriso capaz de iluminar uma tarde seria capaz, algum dia, de arruinar uma madrugada inteira.
Muito menos imaginava que, entre aquele primeiro encontro e o último adeus, eu me tornaria o responsável pela minha própria ruína.
Você sorriu.
E eu, que sempre tive medo de sentir demais, comecei a desejar que aquele sorriso me pertencesse.
Talvez tenha sido ali que tudo começou.
Ou talvez tenha sido ali que comecei a cometer meu primeiro erro: acreditar que encontrar alguém era o mesmo que saber amar alguém.
