Era uma sexta-feira qualquer, e como de praxe, o pessoal da engenharia se reuniu para um happy hour após o expediente. A certa altura da conversa, Joaquim, o analista sênior, olhou para o estagiário e disse:
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- Cara, não sei como você consegue viver sem um carro.
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No mesmo instante, Mathias, o estagiário, parou, respirou bem fundo, e sutilmente devolveu a indagação;
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- Cara, não sei como você consegue viver sem livros, sem arte e sem cultura.
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Houve um silêncio constrangedor no local, foram poucos segundos, mas o suficiente para causar um impacto pavoroso, uma espécie de choque coletivo. Provavelmente Joaquim e os demais não esperavam tal resposta, talvez aguardassem uma justificativa qualquer, algo como: estou fazendo uns investimentos, ou aguardando uma promoção interna, ou qualquer outra falácia típica do nosso senso comum.
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Analisando de forma racional percebemos que o comentário em si é algo corriqueiro, de pouca relevância. O "xis" da questão é a nossa mentalidade coletiva, é a força que opera em nosso subconsciente e nos leva a naturalizar determinados comportamentos e práticas. Em linhas gerais, não há problema algum em ter um carro ou qualquer outro bem, a grande questão é a glamourização em torno do consumo, ou como diria um velho barbudinho: o tal fetiche da mercadoria. Pois bem, estamos diante de uma imposição típica da pós-modernidade, em que a nossa existência como sujeito social depende da nossa posição enquanto consumidor.
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Talvez isso explique o fenômeno em torno do hit "HB20" do cantor Tierry. A narrativa que se dá em torno de um bêbado apaixonado nos deixa em dúvida se o sofrimento é por conta da mulher ou do carro. Em nenhum momento os detalhes da mulher amada são descritos na música, pelo contrário, ela foi secundarizada, e paradoxalmente é o veículo que ocupa o centro das atenções.
Pois bem, o sociólogo Martin Gagner definiu o fetiche dos brasileiros por carros como "egomovel". Para o autor, tal perspectiva está arraigada em nossa sociedade, o que de certa forma nos ajuda a entender as nossas deficiências em torno do transporte público/mobilidade, já que o nosso ideal supremo está pautado na individualidade, e não mais no bem comum.
Não muito distante, temos em Camaçari-BA um sintoma real desta anomalia, pois, estamos diante de uma metrópole que tragicamente não possui um sistema de transporte coletivo eficiente. Inclusive, o único terminal de integração da cidade (TIR) foi desativado pela atual gestão. Ou seja, enquanto os países desenvolvidos estão projetando as suas cidades sob uma perspectiva mais inclusiva e sustentável, continuamos presos ao passado, numa espécie de cápsula do tempo que segue nos moldando como um projeto mal acabado de civilização.
Talvez o nosso grande legado seja a cafonice nossa de cada dia, uma cópia pirateada em Feira de Santana do estilo de vida estadunidense. Criamos uma espécie de narcisismo brazuca, uma caricatura liberal/cristã que vive aprisionada em frente a um falso espelho, no qual a face racista, classista e misógina é refletida em verde e amarelo, projetando assim, a figura icônica do brasileiro mediano, com suas cores e formas, e claro, com as chaves do carro pendurada no cós da calça, pois, caretice ainda é pouco para nós. Ou como diria o grande Caetano Veloso: "é que Narciso acha feio o que não é espelho".

