Dona Meire, a heroína invisível.
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Dona Meire, a heroína invisível.

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Patricia estava impaciente, vasculhava a timeline do instagram há horas, os seus dedos deslizavam para cima e para baixo em ritmo frenético, num instante, uma nova atualização, a página da Globo News tinha acabado de publicar uma matéria que atualizava a quantidade de dias do isolamento social. Patricia devorou rapidamente as poucas linhas da manchete, e num gesto brusco jogou o tablet em cima da cama, saindo aos gritos pela casa, em um verdadeiro ataque de fúria..

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- Porra!! Caralho! 90 dias neste maldito isolamento, não aguento mais, estou a ponto de enlouquecer e fazer uma besteira..

 

Dona Meire, a empregada da casa, era uma senhora de certa idade, e pelos anos de experiência já estava acostumada com as birras dessas meninas de classe média. Mesmo assim, ela ficou assustada com a cena, pois, era a primeira vez que presenciava um comportamento agressivo de Patrícia.

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- Esse povo criado em berço de ouro é assim, reclamam de tudo! Oxi, onde já se viu? Esbravejou Dona Meire, enquanto lustrava os móveis da sala..

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Patricia estava com 22 anos, havia se mudado com a família no início do ano para o recém lançado Alphaville, primeiro empreendimento de alto padrão na sede de Camaçari-BA. Da janela do quarto de Patrícia era possível visualizar a sua nova vizinhança. Ao fundo, o bairro Limoeiro, antiga fazenda, hoje reduto de prédios populares do programa Minha Casa Minha Vida, a direita, o Parque das Mangabas, bairro humilde, de casas simples. As fronteiras do condomínio eram bem delimitadas, a muralha adornada por arames e cerca elétrica simboliza as novas configurações do espaço geográfico local. De certo modo, a fortaleza de concreto era a personificação camaçariense do "muro de Berlim’, uma clara demonstração do nosso gritante abismo social, ou como diria os Racionais MC´s: “O mundo é diferente da ponte pra cá”...

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O relógio marcava 17h30, como de costume, Dona Meire passou o café e serviu uma xícara para patroa que folheava discretamente a nova edição da revista Caras. Dona Meire apertou o passo, sabia que não poderia perder o ônibus das 18h, o próximo certamente iria demorar.

 

Nestas ida e vindas Dona Meire adoeceu, hipertensa, não tardou a sucumbir diante do Covid. Assim como milhões de brasileiros e brasileiras, ela não pôde evitar as aglomerações, possivelmente contraiu o vírus em algum ônibus lotado, ou no “ligeirinho” que fazia a linha do Parque das Mangabas p/ o centro da cidade.

 

Apesar do susto, em poucos dias a rotina na casa de Patrícia voltou a normalidade. Uma nova diarista tinha sido contratada, desta vez mais jovem e saudável. O jantar seguida animado, a família fazia planos de viagens para o pós quarentena, decidiram que fariam uma celebração em algum lugar distante, talvez em Miami, ou nas montanhas de Bariloche.

 

Certa vez, um conhecido compositor disse que o Brasil não foi feito para amadores, fatídico ou não, faz todo sentido, principalmente quando percebemos que a nossa realidade se assemelha e muito a um roteiro de ficção. São coisas do Brasil, inclusive, a Roda Viva imortalizada por Chico Buarque continua girando, ela segue movendo a todo vapor a engrenagem nefasta que historicamente produz desigualdades e extermina sem pudor algum: Dona Meire, João Pedro, Marielles e Amarildos.

 

@luis.henriquecabral