Oi
Eu lembro de sempre começar minhas cartas para você com um apelido fofo, do tipo “Morena” ou com alguma coisa bem formal, como a gente costumava brincar...
Eu queria muito poder te escrever algumas palavras, pra te pedir desculpas; na real, essa carta tá presa dentro de mim tem um tempo já.
Bom, pra começar: me desculpe.
Por favor, me desculpe.
Eu errei.
No começo de tudo, quando ainda flertávamos (hipoteticamente), eu não fazia ideia do que iríamos viver. Eu nem sonhava com as viagens que faria, com os museus que visitaria, ou com a sensação de liberdade que teria estando ao teu lado. Eu simplesmente me deixei levar pelas nossas conversas.
Eu conheci você, olhei dentro da tua alma. E você, dentro da minha. Eu contei pra você meus segredos. As minhas fantasias mais idiotas. Os meus desejos mais absurdos.
Eu deixei você ver meu corpo, ainda não visto por ninguém. E deixei você tocá-lo. E teu toque... Ah... Eu tenho tanta saudade do teu toque...
Lembra aquele dia frio, aqui na cidade, que a gente se deitou na minha cama e – de tão cansados – dormimos, juntos? Eu ainda lembro de como o peso do teu corpo afagou minhas incertezas. Pra mim aquilo foi eterno. Se o mundo tivesse acabado ali eu certamente já seria feliz.
(eu realmente pareço um adolescente quando escrevo pra você)
Eu gostaria que você entendesse a minha dor. Eu queria de verdade que você soubesse que eu sofri.
Eu matei você, dentro de mim. E uma parte de mim também morreu ali.
Sabe o que me sufocava sobre nós? O porquê eu agi dessa maneira? O fato de não ter você quando eu queria. Ou de não poder sair do trabalho e aparecer na tua casa, aleatório, com duas cervejas na mão e um sorriso no rosto.
Cara, eu vivia sonhando com essa espontaneidade. Eu vivia sonhando com o dia em que eu pudesse te buscar na tua casa e te levar pra qualquer lugar pra fazer um monte de coisas estúpidas.
Imagina a gente se encontrar e sair pra rua e andar e entrar em lojas de produtos chineses desnecessários e depois ir pras praças e tomar um chope num copo de plástico de um boteco qualquer e terminar o dia vendo o pôr do sol num terreno baldio aleatório ou dançando na calçada em frente a um desses bares de sertanejo ou forró.
O meu sonho era esse e chega a ser extremamente estúpido...
É estúpido porque eu tinha você ao meu lado.
Sempre que eu estava com você sentia que podia fazer qualquer coisa, sabe? Você meio que foi o meu parto para a vida adulta (sim, é uma metáfora bizarra, desculpa). Mas eu me entendi como homem adulto vivendo a loucura que foi 2017 com você.
Eu nem sei como está sua vida agora; não conheço mais as tuas roupas; joguei fora o vidro daquele teu perfume que você deixou aqui em casa; não sei como é a sensação do toque desse teu novo cabelo; não sei mais os motivos pelos quais você chora e nem sei se você viu todas as temporadas de Outlander...
Talvez eu te envie essa carta, um dia, quem sabe. Tenho medo de atrapalhar tua vida, agora que parece que as coisas estão indo bem pra você. Tenho medo de ser só mais um estorvo, um peso morto de um passado enterrado e lacrado pelas mágoas.
Eu queria tanto não ter te magoado... Você nunca mereceu isso. Eu sei que as mágoas são tuas, sim, mas você nunca mereceu essas feridas que eu te causei.
Me desculpe.
Para o João pós-pandêmico tudo está tão incerto. Muitas coisas acontecendo por aqui (sinto falta de falar delas com você, como fazíamos, conversando até de madrugada). Sinto muita falta de ter alguém ao meu lado...
Talvez seja só essa minha carência mesmo, que insiste em sempre dizer “oi, tô aqui. De novo.”
Ainda quero poder te encontrar e pedir desculpas pessoalmente.
João

