A ultima fotografia

A ultima fotografia

Não me lembro da última vez que você me abraçou como quem tinha certeza de que queria ficar.

 

Lembro-me, porém, da última discussão.

 

Lembro-me do seu rosto cansado, dos olhos marejados e daquela pergunta que você fez com uma serenidade muito mais assustadora do que qualquer grito:

 

— Você ainda me ama ou simplesmente se acostumou comigo?

 

Eu poderia ter respondido de mil maneiras.

 

Poderia ter me aproximado, segurado suas mãos, reconhecido o medo que havia por trás daquela pergunta. Poderia ter dito que sim, que amava você, mas que precisava aprender a demonstrar esse amor antes que fosse tarde demais.

 

Em vez disso, deixei meu orgulho falar.

 

Disse que você estava complicando tudo.

 

Você abaixou os olhos.

 

Por alguns segundos, achei que fosse chorar. Mas você apenas respirou fundo, como alguém que finalmente compreende uma verdade da qual passou tempo demais tentando fugir.

 

— Eu não quero precisar implorar para ser amado — você sussurrou.

 

Foi a última coisa que me disse naquela noite.

 

Depois, foi embora.

 

Não houve música triste, chuva repentina ou qualquer sinal de que o universo estivesse testemunhando o fim da nossa história. Houve apenas uma porta se fechando e o barulho dos meus próprios passos enquanto eu caminhava para longe dela, convencido de que você voltaria quando a raiva passasse.

 

Você sempre voltava.

 

Dessa vez, não voltou.

 

Nos primeiros dias, senti falta dos seus hábitos. Depois, das suas mensagens. Mais tarde, comecei a sentir falta de coisas que nem sequer sabia que guardava: o jeito como você pronunciava meu nome, a maneira como procurava minha mão no escuro, a sua mania de me contar histórias que já havia contado outras vezes.

 

Até que a saudade deixou de ser uma visita ocasional e se tornou uma moradora permanente.

 

Foi então que comecei a procurar você nas fotografias.

 

Havia centenas delas no meu celular. Nós dois sorrindo, você fazendo caretas, nossos rostos encostados, o mar ao fundo, sua mão segurando a minha.

 

Eu passava os dedos pela tela como se pudesse atravessá-la.

 

Em cada imagem, encontrava uma versão de nós que ainda não sabia que acabaria.

 

E isso me destruía.

 

Porque as fotografias não mostravam as discussões, as palavras impensadas ou as noites em que você esperou por mim enquanto eu escolhia qualquer outra coisa.

 

Elas mostravam apenas o que havíamos sido capazes de amar.

 

E eu precisava conviver com o fato de ter sido incapaz de proteger aquilo.