Aquele vestido vermelho era estonteante.
Colado ao corpo, costas nuas, algo que ela não usaria normalmente.
Era final de ano e ela só queria viver mais ainda aquela paixão.
Mas não era um bom dia. Ou será que ELA não era boa o bastante pra viver?
O corpo não tinha forças pra levantar da cama e tomar um banho ou um café. Ela esbravejou porque também não tinha forças pra pegar os remédios na bagunça do quarto, dias que não arrumava.
Tudo o que ela conseguia era chorar. As mãos doíam, a barriga doía, a cabeça doía, aquele nó na garganta doía demais.
Ele bateu na porta e entrou, a encontrou naquele estado que já vira algumas vezes e que mal sabia que ainda ia ver muitas.
Cabelo bagunçando, corpo mole, rosto molhado. Ela parecia o próprio mar de tanto sal.
E ele a convenceu, como algumas vezes antes, a entrar debaixo do chuveiro pra acordar pra vida. Mal sabia ele que ainda faria isso muitas vezes.
E ela foi não porque queria, mas porque sempre fez isso, sempre acatou aos comandos, sempre andou atrás dele como um animal adestrado. As vezes tinha vergonha, as vezes raiva, mas na maioria não sentia nada, apenas seguia.
Tomou um banho (pena que alma não se lava no chuveiro) e colocou o vestido vermelho que ele deu.
Normalmente não usaria aquilo.
Lá fora já dava pra ouvir as vozes, colocou um sorriso no rosto pra combinar com o vestido e saiu.
Tanta gente feliz, mesa posta, olhares ao vermelho do vestido ignorando o vermelho dos olhos.
Ele disse que ela estava linda, mas no fundo ela era só breu.
Mais tarde os fogos de artifício estouraram, "Feliz Ano Novo!" era só o que se ouvia, alguns no celular, alguns entre si.
Ela saiu de fininho sem se despedir de ninguém e voltou para o quarto, o breu da luz apagada se misturando a ela. Ou a luz estava acesa e ela era o escuro?
Deitou na cama sem tirar o vestido, só queria ficar quieta e conseguir controlar a respiração curta, não podia entrar em crise no meio daquelas pessoas.
Escutou alguém mexendo na porta e fechou os olhos, dessa vez ele não ia convencê-la a sair. Fingiu que dormia até ouvir a porta ser fechada e a chave solta pra dentro do quarto pela janelinha que sempre passava despercebida.
A chave tilintou no chão mas ela não tinha forças para pegá-la. E então chorou, chorou até conseguir dormir de verdade porque todo o resto era mentira, o vermelho do vestido que não usaria também era mentira, assim como a paixão que ela queria viver.

