sintomas em pequenas prosas

sintomas em pequenas prosas

1.

minha poesia, quem sabe um dia, tenha alguma relevância para além do meu mundo e das minhas relações. quem sabe, nesse dia, possa ser nela compreendida os traços de melancolia que tingiram minha travessia neste mundo em que agonizei dia após dia, buscando ser mais do que me cabia.

 

2.

o poeta dorme seu sono profundo. lá dentro dele, bem lá no fundo, o verbo se agita em imagens, em coisas não ditas, mas que não se calaram e, mesmo naufragadas na imensidão muda, agora inundam seu ser aguardando a vigília para acontecer. o poeta dorme, mas na profundidade do sono, ele ainda busca a poesia-verdade para sua travessia na turbulência da realidade.

 

3.

os textos e os poemas, mesmo pequenos, quando estão mergulhados em grandes contextos são imensos. é ilusão acreditar que a grandiosidade da poética está na forma ou no conteúdo. a poesia é grande em si, mesmo que seu colapso no poema dispense uma constelação de palavras. o poeta, quando sábio, faz do vazio um pavio que acende o candeeiro da poesia.

 

4.

em mim, nada é certeza, nem a possibilidade de alcançar a plena felicidade. por isso, quando estou triste, quando arrasto-me no chão da realidade, encontro a minha sanidade, que é dúvida, caminho e eterna busca. interessa-me, nesta busca, a tristeza. minha humanidade está em viver a dor para dela extrair o mais legítimo amor, aquele que asserena, mesmo não sendo pleno de alegria, ainda assim atravessado de poesia.

 

5.

os sábios entendem que o viver pleno exige equilibrar-se entre a melancolia e a alegria. é tolice esperar a felicidade plena, querer o gozo acima de qualquer pena. na vida, ser feliz compreende que se é preciso ser infeliz para que felicidade possa ganhar contornos perceptíveis no ato de viver.

 

6.

eu vivo entre o medo e o desespero, tentando não ser um áspero arremedo, ser lampejo, pois desejo ser mudança, construir sobre a esperança que ainda cultivo. os tempos andam sombrios e esse mundo, vazio de um sentido profundo, atola-se a cada dia em uma estranha melancolia que produz enormes teias e consome nossas entranhas como ideias estranhas.

 

7.

no velho papel rasgado que ele mantinha no bolso do velho casaco, um telefone anotado; sem nome, mas com uma frase quase ilegível: "ninguém que importou-se comigo em vida, mas, ainda assim, avise". os paramédicos, ali, sem saber o que dizer, sabiam o que teriam que fazer diante da sorte de mais uma família que se uniria graças a ela, a morte.

 

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Do Livro "Garrafas ao mar" (Minimalismos, 2023)