a dor da lida
se não sente a dor da lida,
talvez não tenha vivido ainda;
pois viver dói
e é só nessa dor que a vida
se constrói.
teias
um sistema de ideias
não é nada além de teias
construídas
para que o homem possa,
quando amanhecer,
captar a bossa
do mundo
sem precisar ser
tão profundo.
natureza morta
tudo que não está vivo,
morto está; mas nalgum lugar
ainda vive, como arte
e memória.
as frutas sobre a mesa,
aquela coisa ali, sob a luz difusa
acesa, ainda assim,
seduzem.
o flerte com a porta
entreaberta, revelando alguma
parte do vaso sobre a cabeceira
da cama
é natureza, embora morta,
viva na tinta do artista ou na pena
que a exorta
à vida.
a caixa
uma caixa
com palavras,
vazia.
fragmentos
que não se encaixam,
ainda assim são
poesia.
apesar de confinado
um pequeno céu dentro de mim;
um espaço apesar de confinado,
imenso.
nele mergulho cotidianamente,
mas ela, a mente, permanece ali,
guardando.
o que ela guarda? o voo do eu
naquela imensidão inconsciente
do não-eu.
o agora
queria saber do passado,
para quem sabe, entender
o futuro;
enquanto isso, vivia apagado,
sem compreender
por que o presente é tão
obscuro.
quando a verdade acaricia
o prazer estava ali,
quietinho,
na flor jasmim,
acariciada pela brisa fria
do inverno
que soprava no jardim.
mas ele, tão jovem,
não entendia
a mensagem que ali
havia.
era só parar
e, vazio, observar,
apenas vagar,
sem julgar.
fluir na pena
se estás inquieto,
fique quieto;
entregue-se ao nada,
busque no silêncio sua
p o u s a d a;
deixe fluir na pena
sua liberdade
p l e n a.
enquanto ouço Nando Reis
ouço Nando Reis em uma playlist qualquer,
dessas sugeridas pelo algoritmo.
gosto da sonoridade homeopática
das letras acalentadoras de sua música,
da sua voz que toca com simplicidade
meus ouvidos.
enquanto ouço, viajo uma viagem
cósmica sem sair do jardim das minhas
experiências.
ouço Nando Reis em sua metafísica singular
e, ouvindo, sinto que sua música, seu ritmo
faz um bem aos meus ouvidos,
mas também ao meu espírito ávido
por boa melodia, alguma harmonia
e muita poesia.
enquanto ouço, me preencho de sua música
despojada, sem necessidade de cultivar outras
experiências.
ao ouvir Nando Reis
me edito.
na sua companhia, Zé…
a Zé Ramalho
basta a sonoridade
da sua música que me invade,
Zé!
da mensagem explícita,
na melodia
ou da força implícita
na harmonia
é o que basta aos meus
ouvidos.
só isso - isso tudo!-
já é uma bela poesia,
Zé!
quando mais jovem,
suas músicas nebulosas,
cheias de metáforas
doíam,
mas por horas
eu ouvia.
na sua companhia
aprendi muito sobre poesia
Zé.
hoje, poeta, te ouço
e, mesmo bem mais maduro,
confesso que tudo
nesse sagrado calabouço
onde me escudo
ainda é bem
escuro.
escola
não rola
cabular aula,
pois escola
não é jaula,
é mola.
taciturno
a música, que no fim
da tarde chega, silencia-se
em mim.
primeira comunhão
uma angústia no ar,
um sentimento no olhar...
o menino cantarola
suas melodias esperando
sua boa hora.
não é remorso, é nervoso.
o pai adverte:
não existe isso de pecado;
quem não tem medo, se diverte;
basta ser quem você é,
ter fé!
performações
a Aline Bei
escrever não é tão difícil quanto parece.
mas, difícil mesmo é sobreviver nesse mundo
que perece.
escrever exige técnica, mas também ética,
uma ética do contexto que vai ao mundo
e volta como estética.
assim o poeta vai se formando no verso
que aos poucos ganha vida e constitui-se
em universo.
nesse mergulho, a escrita vai se moldando
ao que o poeta vai, com sua voz estética,
performando.
escrever para existir
às vezes, no entardecer,
consigo vislumbrar que a travessia
da noite,
acreditem, será de muito açoite
e nenhuma poesia;
ainda assim, escrevo para existir
quando o dia surgir.
por pura paixão
do livro lido
um livro na estante
é como um corpo deitado
no chão,
morto,
esperando ser ressuscitado
no dia de uma paixão
qualquer.
do livre registro
quando escrevo,
faço com total desapego,
tentando ser,
ali, apenas pena
a registrar o que minha alma
apaixonada julga valer
a pena.
fragmentos pela fresta
a escrita fragmentária que me
atravessa
nada mais é que uma luz lutando
para passar
pela pequena fresta
que há na minha percepção
do mundo;
se por inquietação ou alienação,
confesso não saber.
não obstante,
ponho-me simplesmente
a escrever.
apenas silhueta
um poema,
por mais nítido pareça ser,
não passa de sombra,
de silhueta deformada,
da realidade absoluta
que é a poesia
que se projeta
no papel em branco por meio
da imaginação do poeta
que a encarna.
buscar em vão
o que há de verdadeiro
nesse vasto cativeiro?
só aquilo que é Eterno
é verdadeiro;
todo resto mão passe de rumo
ao derradeiro.
um dia, sentado à beira
de mim,
percebi que tudo era só
esteira,
impermanente,
uma viagem rumo
ao fim.
minha atitude
diante da finitude
era uma busca por prumo,
mas por descuido,
por falta de atenção,
foi só um buscar
em vão.
o alto custo da felicidade
a felicidade não é um estado absoluto, mas um equilibrar-se entre estados de mais ou menos satisfação enquanto a vida acontece, enquanto o ser humano caminha rumo ao seu devir. o custo desta felicidade como meta de vida é, portanto o de uma sociedade com pessoas absurdamente infelizes.
habitar poeticamente o mundo
um poeta é alguém que se organiza no tempo e no espaço a partir de uma lógica peculiar, alguém que transita entre a mente e o corpo tentando conciliar suas percepções sobre a realidade. pouco importa ao poeta a verdade do mundo, mas a sua percepção geopoética e biopoética do mundo que ele mesmo constrói, habita e, consequentemente, pensa.
managers
durante anos estudei
sobre gestão,
suas técnicas e sua filosofia;
mas, em nenhuma ocasião
nada fez tanto sentido quando a ideia
de que gestão é uma doença
social,
uma medonha teia
onde, por tola crença,
depositamos nosso ideal
nessa tecnologia.
metaleitura
quando leio –
não só o livro, mas o mundo –
ganho possibilidades, esteios;
passo a poder construir realidades,
estabelecer possibilidades,
situar-me enquanto fundamento,
enquanto devir.
quando leio –
não só o mundo, mas o Profundo –
passo a enxergar a realidade
para além das vãs possibilidades
do mero existir,
para além do espaço e do tempo,
mas enquanto Ser.
gosto de ler
gosto de ler
aqueles textos em desuso,
por mero abuso
das ideias ali contidas;
fazê-las renascer
em outras formas,
travestidas.
dessas leituras,
vou criando estruturas
mentais,
estabelecendo suturas
intelectuais
capazes de estabelecer
modelos ideais
para enfrentar desafios
reais.
tão sós na realidade
o existencialista olha o mundo,
seja ele limpo ou imundo,
sem tentar buscar uma ciência
metafísica,
apenas existência
precedendo a essência,
apenas facticidade;
talvez por isso, nós,
existencialistas,
nos afogamos tão sós
na realidade
que não entendemos.
o absurdo
se o sentido da vida
está em Deus
ou nos devaneios teus,
não sei;
apenas penso,
ser absurdo
esse viver tenso
entre o que desejo
e o que esse tal Deus
espera ser ensejo
para ao céu erguer
meu viver
nesse mundo
de Sísifo.
raízes
ouvindo Almir Sater
a música caipira,
de raiz,
quando bem executada,
inspira.
a viola, quando bem tocada,
consola o coração do peão
que rasga nosso país
com sua poesia.
o som do berrante,
ao fundo, exuberante,
arrepia.
garrafas ao mar
estou a lançar garrafas ao mar
com minha poesia.
talvez, assim, algum dia,
quando eu faltar,
lembrem dessa minha
travessia.
conviver com a bipolaridade
é um paradoxo reconhecer-se como quem navega noite e dia
entre manias e melancolias.
ora sinto alívio por conhecer o mal,
ora uma imensa angústia, pois viverei com ele até o final.
é como caminhar em uma imensa neblina,
caminhando com um fósforo aceso sobre gasolina.
é viver administrando o caos de uma vida onde cada dia
pode trazer doses de mania ou melancolia,
que podem apenas tornar o caminhar
mais lento ou podem te paralisar.
você sorri, mas dentro de você uma dúvida imensa corta a alma.
é como viver com um espinho atravessado no peito, mas precisar ter calma.
dói, corrói, destrói…
será possível viver com certo conforto;
ou, o mínimo de desconforto?
dizem que sim.
eu queria ser mais otimista,
mas a mim faz bem ser realista;
a mim faz bem encarar a neblina ciente de que ela sempre estará ali;
ora baixa, ora alta, mas ali, fazendo parte da minha paisagem existencial.
ao menos agora sei do que a neblina é feita de verdade
e assim posso me proteger da sua toxicidade.
vigília
ontem,
o sono teimou.
não veio a noite.
parecia dia.
o dia
não acabou.
o poema não chegou.
a noite sem poesia
insistia
em ser vazia.
o poeta,
em vigília,
não sonhou.
o poema,
inacabado,
ali ficou,
rascunhado,
vazio
de poesia.
vazios eidéticos
entre palavras e silêncios
vou escrevendo acontecimentos
poéticos,
descrevendo momentos
imagéticos
que habitam os devaneios
que brotam dos ócios
e ecoam nos meus vazios
eidéticos.
surto metafísico
chega a ser físico
esse surto metafísico,
esse zumbido
que, no pé do ouvido,
parece ser algo divino
mas é só flerte,
desatino
que subverte
o juízo.
oscilação
oscila
o bipolar.
de tanto doer,
de tanto pensar
em morrer -
uma sensação que não vai
embora
até que uma hora
ele vacila
e cai.
não há paz
dentro de mim,
guerra e destruição.
sobre tantos escombros
não há paz,
há assombros,
confusão onde jaz
depressão,
onde normalidade
não chega,
não…
pés telúricos
o mundo, mesmo confuso,
é tão rico,
basta apenas ajustar o fuso,
dosar os gritos,
não correr certos riscos
avançar evitando atritos,
com pés telúricos
e mais risos.
mera quimera
o tabuleiro de xadrez sobre a mesa
mantém minha mente acesa,
apesar de nenhuma peça ser movida,
apesar de nenhuma partida
ser travada.
o tabuleiro de xadrez é apenas um símbolo,
um elo que me liga ao ambiente frívolo
em que vivo, apesar de toda necessidade
que sinto em voltar à realidade
ora clivada.
o tabuleiro de xadrez não enseja só um jogo,
mas também a um estranho logro.
o tabuleiro de xadrez está ali, como quimera
de alguém que vive a espera
da sua ainda não iniciada
jornada.
tuíto versos
instáveis,
meus versos
tuitáveis
são lançados na rede.
poucos leem,
pois há uma parede
que impede
que versos sejam lidos
nesta sopa fria
de letras
onde todos falam,
mas em momento algum
se calam
para escutar aos poemas
que exalam poesia
desse meu
tuitar.
fazedura
apenas deixo o pensamento
pousar
sobre o papel e, ali, depositar
algum sentimento
meu.
o texto flui melhor
assim,
quando algo queima
dentro de mim.
mas, não é bem assim
quando o âmago,
em torpor, não deixa o verbo
que teima
ousar.
Parca
é sobre abandono;
não sobre ser ou ter
dono.
Parca, a cadela,
ali, no passeio da rua,
olha para a lua
e a lua, olha para ela.
noite adentro,
no frio, tão sozinha,
chorando
até deixar de ser,
escurecer.
no corre que me socorre
nem sempre recorro
aos livros,
pois para as questões
realmente importantes
só consigo socorro
com amigos xucros,
daqueles que nascem
no morro;
que não são diletantes
da vida,
pois, de corre em corre,
apenas sobrevivem
nesse grande beco
sem saída.
pensando o viver
viver, mesmo uma vida dura,
é um gesto poético, um ato estético
fundamental.
o viver nos estrutura em torno de um projeto ético,
de um mergulho imagético na nossa paisagem
mental.
viver, mesmo uma vida áspera,
é um gesto de cuidado, um ato imaculado
natural.
a vida não tem cura, apenas suturas
nos acontecimentos que deformam a paisagem
original.
sábios assobios
são sábios os assobios
serenos
que no silêncio quebram
os sombrios fenômenos
que assombram
minhas noites solitárias,
mas tão necessárias
para minha mente
em ócio.
abafamento
a Carlos Arouca e Alex Barsant
lendo Christovam De Chevalier
por aqui,
nunca tem silêncio…
é sempre barulho.
por isso,
me entrego ao mergulho
onde os sons do mundo
são abafados pelos marulhos
do meu eu profundo.
desencanto
uma dívida imensa
eu tenho
com meu ativismo
político.
há quase uma década
estou desencantado;
não com a política somente,
mas com a vida.
tenho feito um esforço imenso
para me reencontrar
comigo mesmo e tentar encontrar
meu lugar nesse mundo que está
a me sangrar.
percepções
viver não
é necessariamente
sobre como as coisas são,
mas como são percebidas
na mente e sentidas
no coração.
inundação
a chuva caía,
leve.
no passeio, poças
se formaram.
foi breve,
mas o suficiente
para inundar com alegria
as bagunças
do dia.
meus jardins
não quero escrever.
ainda assim, algo em mim
está a crescer;
e, crescendo, faz florescer
um sentimento que se alastra
pelo meu jardim
de ideias.
não quero ser poeta.
ainda assim, dentro de mim
há uma borboleta
que voa e, voando, acalenta
a minha apatia
e sobrevoa meu jardim
de poesias.
alheios no frio
era um dia frio.
entre eles um largo rio,
profundo e escuro.
nas margens, violência.
no leito nenhuma resistência,
nem futuro.
às margens, eles se viam,
mas não se haviam
nem se aqueciam.
trilha
ser vítima ou culpado
não é o melhor caminho
a ser trilhado
nem faz
foi-se o tempo
do rouba, mas faz.
nos dias de hoje,
além de roubarem,
também acabaram
com nossa paz.
estranha condição
na cafeteria,
peço um café para esperar
sair o pão de queijo dos meus meninos.
enquanto isso,
leio "A Razão Africana", de Muryatan Barbosa.
em vinte minutos,
seis crianças passam e pedem um lanche.
todas elas pretas.
todos que ocupam as mesas, brancos,
estão indiferentes àquela estranha
condição.
eu, incomodado e inconformado,
busco alguma orientação
para que esse tipo de situação
deixe de ser gatilho para a minha
depressão.
frio amigo
o frio é amigo querido.
ele chega e me induz ao recuo,
me faz abraçar aqueles que esqueci
que amo,
me faz agasalhar o corpo,
forrar a barriga,
sorver um bom vinho.
o frio é um querido amigo.
quando chega, não arreda o pé
até que eu entenda as razões dele insistir
nesse afago
no pé do meu ouvindo
dizendo:
larga tudo que quero você comigo;
mesmo que para isso eu precise reconhecer
que ao redor não resta
nenhum amigo.
do que li?
pedem-me, com frequência,
para elencar os dez livros
que mais me influenciaram
na vida.
ora, penso, como assim?
ainda tenho tanta vida para ser
influenciada!
pesa, ainda, sobre mim o fato
de que a memória não ajuda
e do muito que li,
esqueci.
há ainda,
tudo aquilo que não
li.
vejo algum caminho
Dalai Lama, o sábio tibetano,
diz ser a felicidade o propósito
da vida.
entretanto, nos tornamos seres
tecnológicos e, nesse arroubo ilógico,
nos perdemos.
sozinho,
nenhuma tecnologia,
consegue nos conduzir
à felicidade.
só na poesia
vejo algum caminho.
arrasta!
você pode até ler
para conhecer.
só não pode se esquecer
que não basta
saber,
pois só o bem viver
que arrasta
o outro
ser.
sou fiel ao menino que fui
o problema de amar a meninice,
é crescer e ainda ser um menino,
apesar de ser uma esquisitice,
eu sei.
sou fiel ao pequeno que fui,
mesmo nesse tempo que flui
rápido.
na borda do viver,
não temos mais espaço.
é preciso amadurecer,
envelhecer…
o sábio entende
o tongo fala
e, de tanto falar,
se arrepende;
o sábio apenas se cala
e, calado, escuta,
entende
e não disputa
ideias.
queda
sonhei que caia,
caia do andar alto.
no solo,
alguém sorria,
sorria desse meu solo
sem qualquer
poesia.
sonhei que caia,
e caindo, a vida passava
diante da minha mente
enquanto o corpo se perdia
nessa inconsequente
ousadia
que me faz saltar
para a euforia.
nadar…
nado, nado, nado
e, nada…
estou cansado
de nadar.
preciso parar,
boiar…
esperar… esperar…
olho o céu.
vejo a tempestade
passar,
repouso em pequeno ilhéu
até a minha dignidade
voltar….
volto a nadar, nadar, nadar;
enfim, chegar.
vida finda
sem resistências,
todos os dias,
uma inundação de expectativas
afoga minha alma cativa;
minha inconsistência
está entalada aqui na garganta;
minha vida, engasgada,
vai definhando diante de tanta
falta de coerência
entre esse ser que sou
e esse mundo que restou
dessa vida desgraçada
que findou.
arruaça
hoje, nas ruas
nenhuma independência;
apenas almas sebosas,
nuas,
sem inteligência,
esperneando suas glosas
à democracia,
enquanto ele, o mito,
vomitava suas grotescas
idiossincrasias
sobre aquele mar
de idiotias.
sussurro
estou caindo e, enquanto
caio,
sinto um sopro frio,
um ar sombrio
que, no pé do ouvido,
não faz sentido.
prece seca
não oro mais,
não oro,
mas também não choro,
pois ninguém merece
essa minha prece
seca, sem fé.
sucesso (?)
sucesso financeiro e social
não significa, necessariamente, sucesso
existencial.
com frequência, reflete
um fracasso da nossa condição
humana.
(e dane-se a rima.
o importante é ir para cima.
dessa gente desumana.)
d'eus
em deus
não creio.
mas reconheço, sei, sou,
na minha loucura,
uma estrutura
d'eus.
buscando
noite adentro,
leio um livro e penetro
no mundo das minhas ideias
tortas.
lá não sou o centro de tudo,
apenas borda:
cego, surdo e mudo.
entre taças de vinho,
sozinho,
vou construindo meus
moinhos mentais,
meus ruídos,
perdendo meus ideais.
busco nas páginas que leio,
algum esteio
para seguir resistindo
ao vazio
que está me destruindo
enquanto eu creio
estar resistindo,
mas estou mesmo
me iludindo.
relação
de tão perfeita,
era imperfeita.
de tão imperfeito,
era perfeito.
viviam assim
uma alquimia singular
que só será desfeita
quando acabar
o respeito.
confiança
Só um dia,
sentado na minha sala,
sozinho,
com uma taça de vinho
à mão
e nenhum aperto
no coração,
que entenderei
que esse percurso
não foi em vão.
#
ser imperfeito
não é defeito.
#
enfim,
em vão...
_
Do livro "Garrafas ao mar" (Minimalismos, 2023)
