Por que nós gostamos de musica? A resposta é simples mas nem tanto, como a maior parte das coisas.
Quando estamos nos desenvolvendo no ventre, ouvimos os batimentos do coração da mãe, ouvimos até a hora de sair. Essa é a explicação banal pro nosso apego a ritmos de compassos simples, eles nos deixam mais próximos da época que as coisas eram perfeitas, mais simples e nada poderia dar errado, nunca muito quente nem muito frio. Os ritmos nos trazem de volta pro ventre, de volta para a ociosidade e o lazer de chutar as paredes mesmo sem querer sair, nos trazem de volta pra época que o amor não tinha nem genero, nem CNPJ, nem razão de ser amor.
A volta à mãe é o sonho de toda prole proletária protegida em em torno do do privilégio de estar vivo.
O amor pela melodia se vale do mesmo raciocínio, quando somos projetos de chimpanzés sem pelo, flutuando em placenta, quando somos o resultado do orgasmo do pai - daí a vontade de mata-lo, afinal de contas, ele ousou ter prazer com a mãe, e isso, só o filho pode. Divaguei, perdão. A questão é que escutamos, alem do coração e o sangue da mãe fluindo. Um barulho orgânico e contínuo, que mais parece uma cachoeira que jorra vida, metal e tudo que há de bom... e entendemos isso como a melodia da orquestra que é o corpo de uma grávida visto de dentro das tripas.
A harmonia é mais complicada (nesse momento eu espero encarecidamente que o leitor ou leitora tenha ido às aulas de música)
Harmonia é sobre o conjunto da obra, é sobre como uma vibração no ar bate na outra e não so qual é a relação delas entre si, mas também com o mundo. Aprendemos harmonia ainda dentro mãe não com nossos ouvidos primitivos e deformados de fetos-cara-de-joelho (todo bebê tem um rosto que lembra um joelho, isso é regra). A harmonização vem com uma dívida externa eterna e juros impagáveis: a obsessão pela vitalidade; acontece que quando a mãe tem uma saúde razoável e trata bem de si, todo o corpo funciona e o feto é gerado com sucesso, essa sensação de "nascer de uma gestação formidável" leva a nós, durante toda a vida, uns mais outros menos a vontade de ir atrás dessa saúde, dessa vitalidade, dessa rearmonizacao entre corpo, alma e mundo.
Todos queremos voltar pra sinfonia, pro pagode fundo de quintal ou pro baile funk que eram as barrigas das nossas mães, afinal de contas a musica veio de lá, e quem não gosta de música, nao é mesmo?
29 Out, 2020

