Todo dia a gente fazia a mesma coisa. Percorria o mesmo percurso, ia pro mesmo lugar, procurava uma mesa lá no fundo e sentava de frente pro outro.
Eu nunca conseguia prestar atenção nas pessoas das outras mesas, só nele.
- Vamos de pizza hoje?
- Sim! - e eu só sabia sorrir.
Soda e uma rodela de limão, rodízio de pizza, nosso jantar perfeito.
As vezes ele inventava de tirar uma foto e eu, toda tímida, sempre saía com a mão na frente do rosto. Ninguém ia ver aquelas fotos mesmo.
- Não quer ketchup?
- Não, pizza com ketchup nem combina!
Mesmo assim ele colocava um pouco do molho no meu prato e mesmo depois de ter experimentado e gostado, eu não dava o braço a torcer só pra ver a diversão no rosto dele ao tentar me fazer gostar de uma coisa nova.
Eu fui feliz ali, naquele mundo.
Um dia a gente repetiu toda essa 'música', mas na hora da pizza o meu estômago embrulhou.
Eu fiquei pálida, no fundo eu sabia o porquê.
- Você tá bem?
- Tô.
- Você ficou branca. Não vai comer mais?
- Não.
- Eu vou pagar então a gente vai embora.
Ele levantou e meus olhos o acompanharam até o atendente, cheios de lágrimas, coração apertado. Ali eu já sabia que tudo ia mudar.
O teste de gravidez deu positivo no dia seguinte e antes mesmo do abraço, do sorriso e do beijo, eu já sabia que nossos jantares perfeitos teriam um curto prazo de validade.
Acertei.

