o início que vem do final

o início que vem do final

A morte não é somente o fim.

 

Às vezes, ela também é um começo.

 

Não para aqueles que se foram — para eles, talvez seja apenas o último suspiro, o silêncio depois de uma vida inteira.

 

Mas para aqueles que ficaram.

 

Para quem passou anos vivendo em alerta, aprendendo a reconhecer passos no corredor, o peso de uma voz, o som de uma porta batendo. Para quem confundiu casa com medo e amor com sobrevivência.

 

Há pessoas que, enquanto vivem, ocupam todos os espaços de uma vida.

 

Entram pelas portas, mas também entram nos pensamentos. Sentam-se à mesa, mas também permanecem dentro do peito. E, mesmo quando estão longe, continuam presentes — como uma sombra que aprendeu a morar dentro da gente.

 

Então um dia elas partem.

 

E o mundo continua.

 

O sol nasce na manhã seguinte, os pássaros cantam, o café esfria sobre a mesa.

 

E, pela primeira vez, alguém percebe que consegue respirar sem medo.

 

Talvez seja isso que ninguém conte sobre algumas despedidas: que enquanto uma vida termina, outra, que estava adormecida havia anos, começa.

 

Não é felicidade pela morte.

 

É alívio pela ausência.

 

É descobrir que o silêncio pode não ser vazio; pode ser paz.

 

É olhar para o próprio reflexo e perceber, quase com estranheza, que aquela pessoa ainda está ali.

 

Viva.

 

Depois de tudo.

 

Porque há quem passe a vida tentando sobreviver a alguém.

 

E, quando esse alguém finalmente deixa de existir, percebe que sobreviver nunca foi o destino.

 

Era apenas o começo.

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