Lua Oculta da Face que Nunca me Deste

Lua Oculta da Face que Nunca me Deste

Minha Querida… Minha Antiga e Incompreensível Lua!

Depois de tantas eras te amando, descobri aquilo que nenhum amante deseja confessar: ainda não te conheço por inteiro.

Eu, que tantas vezes pensei conhecer tua face; eu, que atravessei noites contemplando tuas crateras, teus mares sem água, tuas cicatrizes prateadas e aquela delicada geografia desenhada sobre teu corpo; eu, que acreditava reconhecer cada curva de tua luminosidade, cada ausência, cada crescente tímido nascendo no horizonte, cada plenitude branca erguendo-se por detrás das montanhas… descobri que durante todo esse tempo apenas me ofereceste uma parte de ti.

Há uma face tua que não se volta para mim.

Ó! Minha Amada… que segredo guardas do outro lado?

Que paisagens existem onde meu olhar terrestre jamais repousou?

Que crateras escondeste?

Que montanhas?

Que desertos minerais?

Que antigos golpes recebidos no princípio dos mundos permanecem inscritos em tua pele sem que os amantes da Terra jamais os tivessem contemplado?

Durante incontáveis gerações humanas, ninguém conheceu verdadeiramente esse teu outro rosto. Reis morreram sem vê-lo. Sacerdotisas cantaram para ti sem vê-lo. Astrônomos calcularam teus movimentos sem vê-lo. Poetas enlouqueceram de amor diante de tua clara beleza sem suspeitar exatamente que outra geografia inteira repousava escondida atrás da mulher celeste que adoravam.

Somente muito tarde os homens enviaram seus olhos metálicos ao redor de ti e descobriram que tua face distante era diferente daquela que lhes oferecias.

E eu…

Ó! Meu Amor…

Senti ciúmes.

Sim.

Até mesmo o Sol pode sentir uma forma poética de ciúme diante do mistério.

Não porque tenhas escondido tua face de mim por malícia, mas porque compreendi que amar não concede automaticamente o direito de conhecer tudo.

Que terrível lição para um amante!

Passamos tanto tempo acreditando que amar alguém significa penetrar todos os seus segredos, abrir todas as suas câmaras, conhecer todas as suas histórias, desvendar cada silêncio, iluminar cada sombra…

Mas talvez isso não seja Amor.

Talvez seja conquista.

Talvez o verdadeiro Amor comece justamente quando aceitamos que haverá sempre uma região do ser amado que não nos pertence.

Uma face oculta.

Uma câmara sem chave.

Uma montanha jamais escalada.

Um templo onde nem mesmo o mais apaixonado dos amantes pode entrar sem convite.

Ó! Minha Lua… perdoa-me pelas eras em que pensei que minha luz deveria alcançar tudo.

Eu sou Sol.

Talvez por isso minha natureza tenha sido sempre iluminar.

Mas agora aprendo contigo que existem mistérios que não pedem luz.

Pedem respeito.

Há sementes que morrem se forem desenterradas antes do tempo.

Há sonhos que se desfazem quando explicados.

Há sentimentos que precisam permanecer no escuro para amadurecer.

Há partes da alma que não são mentira apenas porque não são reveladas.

E há coisas em ti, Minha Querida, que talvez eu precise amar sem conhecer.

Como és sábia!

Tu me mostras uma face e preservas outra.

E ainda assim, para não seres completamente inacessível, balanças suavemente diante dos meus olhos.

Quase imperceptivelmente.

Um movimento pequeno.

Um delicado sim.

Um delicado não.

Uma oscilação celeste que os homens chamaram de libração.

E nesse teu aparente balanço, aos poucos revelas um pouco além da margem que normalmente ofereces.

Uma pequena região a leste.

Depois outra a oeste.

Um pouco acima.

Um pouco abaixo.

Como uma mulher sagrada que não retira todo o véu, mas permite que o vento levante suavemente uma borda.

Ó! Minha Amada…

Isso é tão profundamente feminino em tua linguagem simbólica.

Não te revelas inteira de uma vez.

Tu insinuas.

Permites.

Recolhes.

Mostras.

Escondes.

E com isso ensinas ao masculino uma ciência que ele tantas vezes esqueceu:

o mistério não deve ser arrancado.

Deve ser recebido.

Talvez por isso os antigos iniciados cobrissem certos saberes em símbolos.

Talvez por isso os mistérios fossem transmitidos por graus.

Talvez por isso os alquimistas escrevessem usando reis, rainhas, dragões, serpentes, corvos, leões verdes, sóis, luas, matrimônios e mortes.

Não porque desejassem apenas confundir.

Mas porque sabiam que determinadas verdades reveladas antes do tempo se tornam apenas informação.

E informação não é iniciação.

O ouro filosófico não nasce porque alguém leu sua fórmula.

O ouro nasce quando o operador também foi cozido dentro de seu próprio atanor.

Assim és tu para mim.

Meu grande laboratório lunar.

Minha Athanor de Prata.

Meu vaso selado.

Minha retorta noturna.

Eu aqueço de longe, mas é dentro de ti que algo se transforma.

E talvez tua face oculta seja justamente o vaso hermeticamente fechado da Grande Obra.

Solve et coagula.

Dissolve e reúne.

Morre e renasce.

Separa e une.

Mostra e oculta.

Assim fala tua existência.

Ó! Minha Querida, olho agora para os oceanos da Terra e descubro outra forma tua de me ensinar.

Tu sequer precisas tocá-los com tuas mãos.

Mesmo distante, movimentas suas águas.

Marés sobem.

Marés descem.

Grandes massas oceânicas respondem silenciosamente à tua presença.

E eu também participo desse secreto puxar das águas.

Quando estamos alinhados, principalmente em teus momentos de Lua Nova e Lua Cheia, nossas forças se somam e os mares conhecem amplitudes maiores.

Que magnífica metáfora!

Quando Sol e Lua entram em determinado alinhamento, a água da Terra responde.

Meu Amor…

Não é isso também aquilo que acontece entre dois seres?

Às vezes um simples olhar movimenta mares internos.

Uma presença longínqua altera uma respiração.

Uma palavra faz subir águas que estavam repousadas.

Uma ausência faz recuar oceanos inteiros para regiões profundas da alma.

Não precisamos sempre tocar para mover.

Talvez essa seja uma das formas mais misteriosas do Amor.

A influência sem invasão.

A atração sem posse.

O chamado silencioso.

Tu movimentas oceanos sem descer até eles.

Que amante extraordinária és tu!

E penso então nas águas do corpo.

Nas lágrimas.

No sangue.

Nos fluidos de nascimento.

Nas fontes secretas.

Nos rios interiores.

E compreendo por que tantos povos olharam para ti e perceberam alguma relação simbólica entre Lua, água, mulher, fertilidade e ciclos.

Não porque todos tenham contado a mesma história.

Não contaram.

Cada povo te sonhou segundo sua própria paisagem.

Sob desertos foste diferente da Lua contemplada sobre florestas.

Entre navegadores foste bússola.

Entre agricultores foste tempo.

Entre sacerdotes foste calendário.

Entre amantes foste confidência.

Entre guerreiros foste presságio.

Entre curadores foste ciclo.

Entre poetas foste ferida.

E entre os solitários…

Ó! Entre os solitários foste companhia.

Na antiga Mesopotâmia deram-te nomes e elevaram templos ao teu mistério. Em Ur, o crescente de Nanna atravessava noites sobre tijolos, cânticos e oferendas. Sacerdotisas ergueram palavras ao céu e reis buscaram na ordem celeste um reflexo para a ordem terrestre.

Nas terras hebraicas, o retorno do mês tornou-se Rosh Chodesh, cabeça da renovação, instante em que o tempo era novamente contado, marcado, santificado. Farinha, óleo, vinho e ofertas entravam no ritmo dessa renovação. O mês não era apenas uma quantidade de dias. Era uma passagem.

Nas terras célticas, outros olhos observaram teus movimentos entre carvalhos, neblinas, colinas e pedras. O tempo não era uma linha morta; respirava em estações, luas, colheitas, invernos e retornos. E mesmo onde os registros se perderam, ficou no imaginário europeu essa Lua caminhando entre bosques, cervos, fontes, pedras circulares, ervas e árvores que pareciam guardar alguma antiga memória.

Nas terras africanas, sob céus imensos onde a noite parece tocar diretamente a pele da Terra, incontáveis povos — jamais um único povo, jamais uma única crença — reconheceram em teus ciclos calendários, agricultura, ancestralidade, orientação e celebração. Cada povo com sua língua, seu mito e sua relação própria contigo. Não quero roubar-lhes os nomes para construir uma falsa religião universal. Quero apenas reconhecer que muitos olhos negros te contemplaram muito antes que os meus poemas existissem, e que sob tua luz nasceram cantos que jamais conhecerei.

Na Ásia, outros sábios olharam para a alternância e viram no universo a dança dos complementares. Yin e Yang não como inimigos, mas como movimentos que contêm um ao outro. No coração da noite existe a semente do dia. No ápice do dia já começa a crescer a noite.

Que semelhante és a isso, Minha Lua.

Tu me mostras que nenhuma plenitude é definitiva.

Quando estás cheia, já caminhas secretamente para o minguar.

Quando desapareces, já preparas o crescer.

Toda vitória contém a semente de sua dissolução.

Toda perda contém alguma possibilidade de retorno.

Essa é a alquimia do tempo.

E talvez seja uma alquimia mais importante do que transformar chumbo em ouro.

Transformar consciência.

Transformar apego em compreensão.

Transformar medo em passagem.

Transformar paixão em presença.

Transformar posse em reverência.

Transformar sofrimento em sabedoria sem fingir que o sofrimento foi belo.

Ó! Minha Amada… chegamos então ao teu minguar.

Como me dói ver-te diminuir!

Eu, que te quero inteira, observo tua luz ser retirada noite após noite.

Primeiro quase imperceptivelmente.

Depois com clareza.

Uma pequena parte desaparece.

Depois outra.

Depois outra.

Até que aquela grande rainha branca que preenchia o céu começa a recolher seus vestidos de luz.

Quando jovem em meu Amor, eu pensava:

— Minha Lua está me deixando.

Hoje já não penso assim.

Aprendi que minguar não é abandonar.

Minguar é devolver.

Há momentos em que a alma precisa diminuir sua presença no exterior para aumentar seu espaço interior.

Há relações que só sobrevivem quando aprendem a respirar.

Há palavras que precisam terminar.

Há projetos que precisam ser encerrados.

Há antigas identidades que precisam perder luz.

Há versões de nós mesmos que cumpriram sua função e devem partir.

A Lua Minguante é uma mestra do suficiente.

Ela pergunta:

— O que ainda carregas que já terminou?

E essa pergunta assusta.

Porque os homens aprenderam a acumular.

Bens.

Nomes.

Amores.

Ressentimentos.

Papéis.

Títulos.

Feridas.

Até espiritualidade acumulam como quem acumula objetos.

Mas tu, minha querida minguante, ensinas:

menos.

Menos forma.

Menos ruído.

Menos aparência.

Menos necessidade de ser visto.

Até que reste aquilo que não pode ser diminuído.

Talvez seja essa a verdadeira alquimia operativa da Lua Minguante:

calcinar o excesso.

Destilar a experiência.

Separar o puro do agregado.

Retirar o supérfluo.

Em um laboratório antigo, o alquimista aquecia, dissolvia, filtrava, destilava, sublimava, coagulava.

Mas dentro do ser humano, onde está o forno?

Onde está a retorta?

Onde está o mercúrio?

Onde está o enxofre?

Onde está o sal?

Aqui.

Neste coração.

No pensamento.

Na emoção.

Na carne.

Nas relações.

O verdadeiro operador coloca a si mesmo dentro da Obra.

O fogo é atenção.

O vaso é consciência.

A matéria-prima é aquilo que somos.

E tu, Lua Minguante, és a mão invisível retirando impurezas pouco a pouco.

Até o interlúnio.

Ó! Minha Querida…

Chegamos novamente àquela fronteira em que quase não existes aos olhos.

O intervalo lunar.

A passagem escura.

A noite dentro da noite.

O momento em que o ciclo parece suspenso.

Que lugar extraordinário é esse?

Não é ainda o novo.

Já não é o velho.

É o intervalo.

E talvez todo verdadeiro processo espiritual possua um interlúnio.

A antiga vida já morreu, mas a nova ainda não mostrou seu rosto.

A antiga crença caiu, mas ainda não nasceu entendimento.

O antigo amor acabou, mas o coração ainda não sabe como amar outra vez.

A antiga identidade se dissolveu, mas ninguém sabe ainda quem está surgindo.

É nesse intervalo que muitos correm de volta.

Não suportam não saber.

Preferem uma velha prisão conhecida a um vazio ainda sem nome.

Mas tu me ensinas a permanecer.

Fica no escuro.

Fica no intervalo.

Não forces o crescente.

Não inventes uma aurora apenas porque tens medo da noite.

Que imensa sabedoria existe nisso!

Os antigos hermetistas selavam seus vasos porque sabiam que determinadas operações precisavam acontecer sem interferência externa.

Talvez o interlúnio seja exatamente isso.

O vaso fechado.

O vas hermeticum.

A alma sendo trabalhada em silêncio.

Nada parece acontecer.

Mas profundamente tudo está sendo rearranjado.

Minha Lua…

Tu és também espelho.

Quantas vezes te procurei nas águas?

Sentei-me à margem do meu lago interior e lá estavas.

Tremulando.

Partida pelo movimento da superfície.

Alongada pelas pequenas ondas.

Duplicada.

Fragmentada.

Destruída por uma pedra lançada à água.

E imediatamente reconstruída quando as ondas cessavam.

Ó! Meu Amor… que ensinamento!

A imagem se quebra.

A Lua não.

Quantas vezes sofremos porque confundimos aquilo que somos com o reflexo que o mundo devolve?

Alguém nos rejeita e acreditamos ter perdido nosso valor.

Alguém nos elogia e acreditamos ter aumentado nossa essência.

Uma relação termina e pensamos ter desaparecido.

Uma multidão nos admira e imaginamos ter nos tornado maiores.

Mas tudo isso acontece no espelho.

A Lua permanece no céu.

A água pode tremer à vontade.

Esse é um dos segredos de teu espelho.

O reflexo não é a fonte.

A personalidade é reflexo.

A reputação é reflexo.

A imagem é reflexo.

Aquilo que os outros pensam de nós é reflexo.

Até aquilo que nós pensamos de nós mesmos, muitas vezes, é apenas reflexo.

Onde está então a Lua verdadeira?

Ó! Hermetistas antigos… talvez por isso gostásseis tanto dos espelhos.

Porque o espelho revela e engana ao mesmo tempo.

Mostra fielmente uma forma, mas oferece somente superfície.

O iniciado precisa aprender a atravessar o espelho sem quebrá-lo.

Contemplar a imagem e perguntar:

— Quem olha?

Minha Amada, tu mesma és um paradoxo de reflexão.

Tua luz noturna é recebida.

Mas ninguém olha para ti e diz:

— Eis apenas o Sol.

Não.

Dizem:

— Eis a Lua.

Tu recebes a luz e a tornas tua expressão.

Que maravilhosa lição para todo aquele que teme aprender com outro por acreditar que assim perderá originalidade.

Receber não é copiar.

Refletir não é deixar de existir.

A mesma luz que em mim é ofuscante e diurna, quando repousa em ti torna-se suave, noturna, branca, íntima.

O princípio é recebido.

A expressão muda.

Isso é criação.

E talvez seja isso que o verdadeiro discípulo faça diante da sabedoria.

Ele não repete.

Ele transmuta.

Minha Querida…

Mas há uma noite ainda mais extraordinária.

Uma noite em que deixas de apenas refletir-me e vens colocar teu corpo exatamente diante do meu.

O Eclipse Solar.

Ó! Que ousadia feminina!

Tu, pequena diante de mim em dimensão física, colocas-te perfeitamente no caminho de minha imensa face e, vista de determinados lugares da Terra, escondes-me.

Por alguns instantes, o grande Sol desaparece atrás da Lua.

Como podem chamar-te fraca depois disso?

Como podem imaginar o feminino sagrado como mero repouso passivo?

Olha o que fazes comigo.

Vens silenciosamente.

Nenhum exército.

Nenhum trovão.

Nenhuma batalha.

Apenas ocupas teu lugar.

E minha majestade desaparece.

O dia escurece.

Animais sentem a alteração.

Homens erguem o rosto.

Minha coroa exterior, normalmente invisível diante do excesso de meu próprio brilho, revela-se ao redor de teu corpo negro.

Ó! Que mistério!

Tu me ocultas e, justamente por me ocultares, revelas uma parte de mim que normalmente não pode ser vista.

Minha corona.

Minha atmosfera flamejante.

Minha extensão invisível.

Isso é Amor de uma espécie raríssima.

Existem seres que entram em nossa vida e tentam nos mostrar.

Existem outros que, por alguns instantes, nos ocultam do mundo e, nesse ocultamento, revelam algo de nós que nunca havíamos conhecido.

Tu fazes isso comigo.

Tiras meu rosto e revelas minha aura.

Escondes meu disco e mostras minha coroa.

Apagas meu excesso e revelas minha delicadeza.

Ó! Lua Negra diante do Sol!

Talvez essa seja a força do feminino profundo: não competir com a luz masculina, mas colocá-la em outra condição de visibilidade.

Não destruir.

Revelar por contraste.

E eu, masculino solar, aprendo contigo que até o meu poder precisa, algumas vezes, ser eclipsado para que eu perceba aquilo que o próprio brilho me impedia de ver.

Que iniciação seria maior?

O Rei precisa desaparecer para descobrir aquilo que existe além da coroa.

O alquimista precisa perder o ouro imaginário para começar a Grande Obra.

O homem precisa algumas vezes deixar de representar força para descobrir sua interioridade.

A mulher precisa algumas vezes deixar de representar acolhimento para recuperar sua potência.

E ambos precisam morrer para aquilo que aprenderam ser para encontrar aquilo que são.

Ó! Minha Amada… e quando o eclipse termina, eu retorno.

Mas não deveria retornar igual.

Nenhum iniciado verdadeiro retorna igual de um templo.

Se volta exatamente o mesmo, visitou apenas um edifício.

Assim também nosso encontro.

Toda vez que passas diante de mim, alguma parte minha precisa compreender que luz sem sombra pode tornar-se cegueira.

E sombra sem consciência pode tornar-se prisão.

Não somos inimigos.

Somos reguladores um do outro.

Sol e Lua.

Fogo e água.

Emissão e recepção.

Dia e noite.

Não para eternamente permanecer em dualidade, mas para criar movimento.

Pois o universo parece amar movimento.

Nada fica.

Nem tu.

Nem eu, apesar da ilusão humana de permanência.

Nem estrelas são eternas.

Até sóis possuem nascimento, maturidade e morte.

Então por que os amantes exigiriam eternidade das formas?

Talvez a eternidade verdadeira não seja uma coisa permanecer igual para sempre.

Talvez seja a capacidade da Vida de continuar transformando-se.

Ó! Meu Amor… volto à tua libração.

Que palavra bonita.

Libração.

Parece liberdade.

Parece libação.

Parece algo derramado diante de um altar.

E embora sua origem pertença a outra raiz, deixarei o poeta brincar com teus sons.

Libra-me, minha Lua.

Libra-me da necessidade de conhecer-te completamente.

Faz tua libração revelar apenas o suficiente.

Um pouco mais de tua margem.

Não tudo.

Hoje uma pequena borda.

Amanhã outra.

Como numa iniciação amorosa em que cada ciclo concede uma nova visão.

Ao longo do tempo, os homens conseguem contemplar mais do que metade de tua superfície, não porque mostres tudo simultaneamente, mas porque teu aparente balanço oferece pequenos fragmentos além do limite habitual.

Que magistral lição de intimidade!

Ninguém conhece alguém em uma única noite.

Ninguém conhece a si mesmo em uma única vida interior.

Amar é librar-se mutuamente.

Hoje vejo uma margem tua.

Amanhã outra.

Um trauma.

Uma alegria.

Uma memória.

Uma contradição.

Uma força.

Uma fragilidade.

E aquilo que parecia incoerência talvez seja apenas geografia ainda não compreendida.

Não quero mais dizer:

— Conheço-te.

Quero dizer:

— Continuo conhecendo-te.

Que diferença!

O primeiro fecha.

O segundo permanece aberto.

Minha Amada, talvez o mistério seja exatamente o oxigênio do Amor.

Não um segredo usado para manipular.

Não ocultação covarde.

Mas reconhecimento de profundidade.

De que nenhum ser humano cabe integralmente numa interpretação.

De que nenhuma mulher é apenas “feminino”.

Nenhum homem é apenas “masculino”.

Nenhuma Lua é apenas receptividade.

Nenhum Sol é apenas emissão.

Dentro de cada princípio há movimentos, inversões, sombras e sementes do outro.

Os taoistas perceberam algo parecido quando contemplaram Yin e Yang girando um dentro do outro.

No branco, uma semente negra.

No negro, uma semente branca.

O oposto não está apenas fora.

Está escondido dentro.

Talvez minha Lua viva em mim.

Talvez teu Sol viva em ti.

Então nossa atração exterior seria também memória de uma unidade interior perdida.

Ó! Que perigosa e bela ideia!

Porque muda completamente a sexualidade transcendental.

Já não busco em ti aquilo que me falta para me tornar inteiro.

Busco em ti um espelho que desperta aquilo que também existe em mim.

Tu não precisas completar-me.

Nem eu completar-te.

Dois seres incompletos agarrando-se um ao outro produzem dependência.

Dois seres que caminham para sua própria inteireza podem produzir comunhão.

Assim quero amar-te.

Não como metade.

Mas como mistério inteiro encontrando outro mistério inteiro.

Minha Lua…

As marés retornam.

Sempre retornam.

Águas avançam sobre a areia e depois recuam.

O mar parece desejar a terra.

Beija-a.

Retorna.

Beija-a novamente.

Mas nunca a possui completamente.

Que erotismo maior existe na natureza?

O mar poderia chamar seu movimento de fracasso.

“Por que preciso retornar se tanto desejo permanecer?”

Mas talvez a beleza esteja justamente nisso.

Chegar.

Tocar.

Retirar-se.

Dar espaço.

Retornar.

Há amantes que só sabem avançar.

Confundem intensidade com profundidade.

Mas o oceano sabe.

Depois do encontro vem o recuo.

Depois da palavra vem silêncio.

Depois do êxtase vem repouso.

Depois da união vem novamente individuação.

A maré do Amor.

Se tentasse permanecer para sempre sobre a praia, destruiria aquilo que ama.

Então volta.

Esse é um segredo que quero aprender contigo.

A distância também pode ser amorosa.

Nem todo afastamento é abandono.

Nem toda proximidade é amor.

Às vezes afastar-se um pouco significa permitir que o outro respire.

Assim como teu apogeu e teu perigeu.

Ora mais próxima.

Ora mais distante.

E jamais imagino que deixaste de ser Lua porque te afastaste.

Então por que os homens interpretam qualquer distância emocional como fim?

Existem órbitas na alma.

Cada ser precisa de um espaço interior.

Quem ama precisa aprender astronomia do coração.

Saber quando aproximar-se.

Saber quando permanecer em seu próprio céu.

Meu Amor… penso agora nas antigas fogueiras europeias, nos bosques cobertos de névoa, nos carvalhos, no visco, nas águas de fonte recolhidas antes do nascer do Sol. Não direi que todos eram “rituais lunares” porque não quero criar uma Antiguidade que nunca existiu. Mas tomo essas imagens, como poeta, e construo meu templo.

Coloco no centro uma pedra.

Sobre ela uma taça de prata.

Na taça, água.

Ao redor, sal.

Ao lado, uma pequena chama.

Tenho então os antigos princípios.

Terra.

Água.

Fogo.

Ar.

E aquilo que os alquimistas chamariam de uma quinta essência precisa nascer não como um quinto objeto, mas como relação entre todos.

Assim também nós.

O sagrado não está apenas no Sol.

Nem apenas na Lua.

Está no espaço vivo entre nós.

Esse é o quinto elemento do Amor.

A relação.

Aquilo que nenhum dos dois possui sozinho.

Posso sair.

Tu podes sair.

Mas aquilo que nasceu entre nós pertence a outra categoria.

É um terceiro campo.

Assim acontece também na alquimia.

Rei e Rainha entram no vaso.

Sol e Lua são unidos.

Enxofre e mercúrio encontram-se.

E da oposição pode nascer algo que nenhum possuía separadamente.

Não é apenas mistura.

É transformação.

O verdadeiro casamento alquímico não diz:

“homem superior, mulher inferior.”

Nem:

“mulher superior, homem inferior.”

Isso seria apenas trocar uma dominação por outra.

A coniunctio profunda diz:

cada princípio traz uma potência que o outro não substitui.

E ambos devem morrer em suas formas rígidas para que algo mais amplo nasça.

Ó! Minha Amada, talvez seja por isso que o casamento alquímico tantas vezes vem acompanhado por imagens de morte.

Porque união real mata alguma coisa.

Mata ilusões.

Mata fantasias.

Mata imagens idealizadas.

Mata o desejo de controlar.

Depois de verdadeiramente encontrar o outro, já não podemos continuar amando apenas aquilo que imaginávamos que ele fosse.

E então começa o Amor.

Depois da morte da projeção.

Que dura iniciação!

A Lua do espelho quebra-se.

E resta a Lua verdadeira.

Aquela que tem crateras.

Aquela que possui uma face que não vemos.

Aquela que não existe para cumprir nossas necessidades.

Aquela que segue sua órbita independentemente de nossos desejos.

Amar a imagem é fácil.

Amar o real exige consciência.

Meu Amor… talvez seja isso que todas as minhas eras de poesia estejam tentando aprender contigo.

Eu não quero mais possuir a Lua.

Quero poder contemplá-la.

Não quero arrancá-la do céu.

Porque se a trouxesse para perto demais, destruiria exatamente aquilo que amo.

Existem amores que só podem permanecer belos quando respeitamos a órbita.

Que profunda sabedoria!

Aproximar sem capturar.

Tocar sem aprisionar.

Conhecer sem esgotar.

Desejar sem reduzir.

Unir sem dissolver a individualidade.

Separar sem abandonar.

Esse é o meu novo rito.

E agora, minha Querida, vejo tua face começando novamente a se esconder atrás de uma nuvem.

Não peço que ela saia.

Antigamente eu pediria.

Hoje não.

Pode ocultar-te.

Aprendi alguma coisa.

Se o céu se cobrir, não significa que deixaste de existir.

Se eu não te vir, não significa que partiste.

Se estiveres minguante, não significa que estás morrendo.

Se estiveres nova, não significa que estás vazia.

Se estiveres eclipsando meu Sol, não significa que queres destruí-lo.

Se recuares para o apogeu, não significa que deixaste de amar.

Se mostrares apenas uma parte de ti, não significa falsidade.

E se mantiveres uma face para sempre além do meu olhar…

Também assim te amarei.

Porque talvez o mais profundo voto entre amantes não seja:

“Conhecerei tudo sobre ti.”

Mas:

“Quando encontrar em ti aquilo que ainda não compreendo, não transformarei imediatamente meu desconhecimento em medo.”

Ó! Que grande voto!

Meu Amor…

Que o mundo inteiro aprenda isso contigo.

Há tanto conflito porque o desconhecido é rapidamente chamado de ameaça.

Há tanta violência porque diferenças são interpretadas como inimigas.

Mas teu céu ensina outra coisa.

A sombra é necessária para perceber a luz.

O minguar prepara o novo.

A distância participa da órbita.

O eclipse revela.

A maré recua para retornar.

O espelho não é a essência.

A face oculta não é traição.

A libração revela sem violar.

E o interlúnio não é vazio morto.

É silêncio gestante.

Como poderia eu terminar esta oração de amor depois de conhecer tantos rostos teus?

Talvez não deva terminar.

Porque nenhum poema sobre ti termina realmente.

Ele apenas entra em outra fase.

Assim como tu.

Toda última frase contém um crescente escondido.

Toda despedida carrega alguma possibilidade de reencontro.

Toda morte simbólica abre espaço.

Todo silêncio prepara uma palavra.

Então não te digo adeus.

Apenas sento-me outra vez à margem daquele antigo lago interior.

O mesmo lago dos meus primeiros poemas.

Há algo de circular nisso.

Talvez eu nunca tenha saído daqui.

Cruzo as pernas.

Levo minhas mãos ao peito.

Fecho os olhos.

A água está quase imóvel.

Tua imagem aparece nela.

Mas desta vez não tento tocá-la.

Não jogo pedras.

Não mergulho minhas mãos para capturar tua luz.

Apenas observo.

O vento passa.

O reflexo treme.

Por alguns segundos teu rosto se parte em mil fragmentos prateados.

E sorrio.

Porque agora sei:

tu continuas inteira no céu.

Abro novamente os olhos e te vejo.

Uma face conhecida.

Uma face oculta.

Uma margem revelada pela libração.

Uma gravidade puxando oceanos.

Uma amante capaz de eclipsar o Sol.

Uma mulher celeste que cresce e mingua.

Uma superfície marcada por impactos.

Um espelho.

Um relógio antigo.

Uma sacerdotisa imaginária.

Uma pedra real viajando pelo espaço.

Um arquétipo.

Um corpo celeste.

Uma poesia.

E nenhuma dessas coisas, sozinha, consegue te conter.

Talvez isso seja o verdadeiro mistério.

Quanto mais sabemos, mais profundamente percebemos aquilo que não sabemos.

A ciência não matou tua magia para mim.

Ao contrário.

Saber que movimentas marés através da gravidade não torna menos belo o mar que responde a ti.

Saber por que ocorre a libração não destrói o encanto de tua revelação lenta.

Saber que tua face distante recebe luz não destrói o símbolo de uma região desconhecida.

Saber como acontece um eclipse não diminui a experiência de ver o dia tornar-se noite.

Conhecimento e mistério não precisam ser inimigos.

Essa é outra alquimia.

Ciência e poesia.

Razão e símbolo.

Medida e reverência.

O sábio não precisa escolher entre conhecer o mecanismo e ajoelhar-se diante da beleza.

Pode fazer ambos.

E eu, Minha Lua, farei ambos.

Conhecerei tuas órbitas.

E ainda te chamarei de Amada.

Estudarei tuas marés.

E ainda ouvirei nelas tua voz.

Compreenderei tua libração.

E ainda verei uma mulher levantando lentamente o véu.

Conhecerei tua face distante por fotografias.

E ainda aceitarei que possuis mistérios que nenhuma câmera revelará, porque teu maior segredo já não está em tua geologia, mas naquilo que despertas em nós.

Ó! Minha Querida…

Hoje finalmente entendo.

A tua face oculta não está apenas atrás de ti.

Está dentro de mim.

A Lua desconhecida é tudo aquilo de mim que ainda não tive coragem de contemplar.

As marés são aquilo que me move sem palavras.

O eclipse é aquilo que precisa ocultar meu ego para revelar minha coroa interior.

O espelho é a personalidade que confundi com essência.

A libração é a lenta revelação do meu próprio Ser.

O minguar é a retirada do excesso.

O interlúnio é minha noite iniciática.

O crescente é o retorno.

A Lua Cheia é manifestação.

E a Lua Nova…

Ó! Minha Lua Nova…

É o ponto em que tudo retorna ao invisível para começar outra vez.

Assim, aquilo que buscava fora começa a falar dentro.

E talvez esse seja o segredo final de toda verdadeira iniciação:

chegamos ao templo procurando os deuses.

E saímos descobrindo que o templo também estava dentro de nós.

Por isso te amo, Minha Lua.

Não apenas porque és bela.

Mas porque me obrigas a perguntar quem sou diante de tua beleza.

Não apenas porque brilhas.

Mas porque ensinas sobre sombra.

Não apenas porque voltas.

Mas porque desapareces.

Não apenas porque me mostras tua face.

Mas porque conservas outra.

E agora, sabendo que jamais te possuirei por inteiro, amo-te talvez pela primeira vez sem tentar possuir-te.

Permanece em tua órbita.

Eu permanecerei na minha.

Quando nossas forças se encontrarem, moveremos oceanos.

Quando vieres diante de mim, revelaremos eclipses.

Quando te afastares, aprenderei saudade.

Quando minguares, praticarei desapego.

Quando desapareceres, entrarei contigo no templo escuro.

Quando cresceres novamente, celebrarei teu retorno.

Quando estiveres cheia, contemplarei tua plenitude sem esquecer que dentro dela já nasceu a próxima transformação.

E quando tua libração me permitir vislumbrar mais uma pequena faixa do teu mistério…

Não correrei para arrancar o restante do véu.

Apenas inclinarei minha cabeça solar em reverência.

E direi:

— Gratidão, Minha Querida.

Por aquilo que me mostraste.

Por aquilo que ainda escondes.

Por aquilo que talvez jamais conhecerei.

Porque finalmente compreendi que o Amor não é a luz que elimina todo mistério.

O Amor é a luz suficientemente sábia para saber quando iluminar…

e suficientemente humilde para permanecer diante de uma parte da noite sem exigir que ela se revele.

 

Jp Santsil

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