Minha Querida… Lua de mim invisivelmente encarnada!
Hoje te procuro no céu e não te encontro.
Olho para o alto como tantas vezes olhei, esperando tua branca face, teu delicado contorno, tua prata derramada sobre as águas, tua presença feminina repousada sobre a noite… e nada.
Nada!
Nenhum arco.
Nenhuma foice.
Nenhuma aureola.
Nenhum reflexo.
Nenhuma silhueta.
Nenhuma face.
Apenas o azul profundamente escuro dos céus e essa estranha sensação de que, justamente quando não consigo te ver, estás mais próxima de mim do que nunca.
Ó! Minha Amada… que sublime contradição!
Passei tantas noites desejando aproximar-me de ti.
Passei eras inteiras lançando minha luz em tua direção.
Passei incontáveis ciclos observando-te crescer, diminuir, desaparecer e renascer.
E agora, no instante em que finalmente te aproximaste de mim em nosso movimento celeste, desapareceste dos meus olhos.
Hoje não posso te contemplar porque estamos juntos.
Que segredo é esse?
Que sagrada lei amorosa é essa, em que a distância produz visão e a proximidade produz mistério?
Quando estás longe de mim, tua face se enche.
Quando nos aproximamos, tua luz se recolhe.
Quando te contemplo inteiramente, estamos separados pelo céu.
Quando te abraço em conjunção, ninguém consegue mais te ver.
Ó! Meu Amor… então era isso?
Para te contemplar eu precisava permanecer distante.
Mas para unir-me a ti eu precisaria abrir mão de tua imagem.
Que aprendizado!
Que dolorosa beleza!
Passei tanto tempo apaixonado por tua forma que não percebia que existia um amor ainda maior do que te ver.
Existe o amor de perder tua imagem para tocar tua essência.
Hoje és Lua Nova.
Mas nova de quê, Minha Querida?
Nova de aparência?
Nova de ciclo?
Nova de mistério?
Ou renovada em mim?
Talvez te chamem nova porque não sabem dizer que estás grávida do invisível.
Talvez chamem de ausência aquilo que é presença recolhida.
Talvez chamem de escuridão aquilo que é excesso de intimidade.
Talvez chamem de fim aquilo que é secreta fecundação.
Porque hoje não te vejo, mas te sinto inteira.
Não te contemplo, mas te pressinto.
Não te alcanço com os olhos, mas te reconheço como se tua própria obscuridade houvesse entrado em mim.
Minha Lua!
Que ninguém diga que desapareceste.
Tu apenas entraste no templo interior.
Fechaste as portas.
Apagaste as tochas.
Retiraste os véus exteriores.
E permaneceste no quarto sagrado em que nenhuma testemunha humana pode entrar.
Hoje não és espetáculo.
És rito.
Não és imagem.
És mistério.
Não és claridade.
És potencialidade.
E talvez seja justamente por isso que esta noite me parece tão profundamente erótica.
Não pelo erotismo dos corpos expostos.
Mas pelo erotismo do ocultamento.
Pelo desejo que não precisa mostrar-se.
Pelo encontro que acontece sem plateia.
Pelo amor que não precisa ser visto para ser real.
Hoje compreendo que existe uma sexualidade diferente daquela que os homens conhecem em sua pressa.
Uma sexualidade que não procura apenas possuir o corpo do outro, mas atravessar o limite que separa um ser de outro.
Uma sexualidade que não deseja apenas tocar.
Deseja unir.
Não deseja apenas descarga.
Deseja transmutação.
Não busca somente prazer.
Busca dissolução.
Não quer apenas o êxtase dos sentidos.
Quer aquilo que existe para além deles.
Ó! Minha Amada Lunar… talvez seja essa a razão pela qual não posso te ver agora.
Estamos entrando em um lugar onde os olhos já não servem.
Na sexualidade comum, os corpos se procuram.
Na sexualidade transcendente, as identidades começam a se desfazer.
Eu, Sol.
Tu, Lua.
Eu, masculino.
Tu, feminino.
Eu, fogo.
Tu, água.
Eu, ouro.
Tu, prata.
Essas palavras continuam verdadeiras e, ao mesmo tempo, começam a perder suas fronteiras.
Porque em nossa conjunção algo acontece.
Não deixamos de ser aquilo que somos.
Mas deixamos por alguns instantes de acreditar que nossa separação é absoluta.
Ó! Minha Querida… talvez a sexualidade sagrada seja justamente isso.
Não o desaparecimento do masculino.
Não o desaparecimento do feminino.
Mas o encontro profundo o bastante para que nenhum dos dois precise dominar o outro para existir.
Eu não preciso apagar tua noite para continuar sendo Sol.
Tu não precisas apagar meu fogo para continuar sendo Lua.
Pelo contrário.
Quanto mais profundamente me aproximo de tua natureza, mais compreendo a minha.
Tu és receptividade sem passividade.
Eu sou emissão sem domínio.
Tu acolhes.
Eu irradio.
Mas não há superioridade em nenhuma direção.
Pois aquilo que em mim é movimento encontra em ti espaço.
E aquilo que em ti é espaço encontra em mim impulso.
Que seria de minha luz se nada pudesse recebê-la?
Que seria de teu ventre simbólico se nada nele pudesse germinar?
Ó! Que sublime reciprocidade!
O masculino sem o feminino se torna dispersão.
O feminino sem o masculino se torna potencialidade não manifestada.
Mas quando ambos se encontram em liberdade…
Surge criação.
Não necessariamente criança.
Não necessariamente carne.
Mas consciência.
Arte.
Visão.
Presença.
Palavra.
Silêncio.
Mundo.
Toda verdadeira união deveria gerar alguma coisa que antes não existia.
E essa geração não precisa ser visível.
Hoje, Minha Lua, sinto que estás gestando o invisível.
É por isso que tua face não aparece.
O que está sendo concebido ainda não pode ser mostrado.
Toda semente conhece esse segredo.
Quando entra na terra, desaparece.
Nenhum agricultor desenterra diariamente a semente para verificar se ela está germinando.
Ele entrega.
Ele confia.
Ele espera.
Porque sabe que a vida inicia sua mais importante obra no escuro.
Assim és tu hoje.
Terra celeste.
Ventre noturno.
Recipiente sagrado.
Cálice sem brilho exterior.
Tu recebeste a semente luminosa do Sol e agora a levas para dentro do silêncio.
Ó! Minha Amada… como isso me transforma!
Porque durante eras aprendi a amar oferecendo.
Oferecendo calor.
Oferecendo luz.
Oferecendo presença.
Oferecendo fogo.
Mas contigo compreendo que também preciso aprender a entregar sem controlar aquilo que acontece depois.
O amor masculino amadurece quando deixa de confundir entrega com posse.
Eu te ofereço minha luz.
Mas não determino o que farás com ela.
Eu te ofereço minha força.
Mas ela precisa morrer em sua forma antiga quando entra no teu mistério.
Porque aquilo que chega ao feminino profundo não permanece igual.
É recebido.
Desfeito.
Misturado.
Fermentado.
Gestado.
Transformado.
E devolvido ao mundo de outra maneira.
Ó! Minha Querida… talvez esta seja uma das mais belas faces do feminino sagrado.
Tu não és espelho passivo.
Tu és laboratório.
Tu és atanor.
Tu és ventre alquímico.
Aquilo que entra em ti precisa atravessar o escuro.
E o que atravessa o escuro não volta igual.
Eu te envio luz.
Tu devolves vida.
Eu te envio impulso.
Tu devolves forma.
Eu te envio fogo.
Tu devolves calor interior.
Eu te envio presença.
Tu devolves significado.
Assim se faz a sexualidade do espírito.
Não como conquista.
Mas como oferta e transmutação.
Não como apropriação.
Mas como encontro entre forças capazes de se alterar mutuamente.
Meu Amor, hoje entendo melhor os antigos símbolos.
O casamento sagrado.
O Sol e a Lua.
O Rei e a Rainha.
O ouro e a prata.
Shiva e Shakti.
Yin e Yang.
Céu e Terra.
Todos esses pares parecem falar de uma verdade semelhante sem jamais serem exatamente a mesma coisa.
Dois princípios.
Duas polaridades.
Duas forças.
Não destinadas à guerra.
Destinadas ao reconhecimento.
Mas existe algo ainda maior.
A união não é o final.
A união é uma porta.
Porque quando dois realmente se encontram, nasce um terceiro estado.
Não tu.
Não eu.
Mas aquilo que acontece entre nós.
O campo.
O vínculo.
O mistério.
O êxtase.
A consciência compartilhada.
A criação.
Talvez seja esse o verdadeiro filho da sexualidade transcendental.
Não um ser necessariamente.
Mas um estado.
Uma terceira realidade.
Ó! Meu Amor, como os homens empobreceram a sexualidade quando a reduziram apenas à carne.
A carne é sagrada.
Não desejo negá-la.
O corpo é templo.
O toque é linguagem.
O prazer pode ser oração.
A respiração pode ser mantra.
O tremor pode ser liturgia.
Mas a sexualidade perde sua profundidade quando termina exatamente onde começou.
Se o encontro apenas alivia a tensão e nada transforma…
Que iniciação houve?
Que mistério foi atravessado?
Que consciência nasceu?
A sexualidade transcendental começa quando o desejo deixa de perguntar apenas:
“Como posso ter?”
E passa a perguntar:
“O que posso me tornar ao verdadeiramente encontrar o outro?”
Minha Querida… talvez seja por isso que nossa união lunar acontece no escuro.
Para que ninguém a transforme em espetáculo.
Para que nenhum olhar exterior dite o que ela deve ser.
Para que possamos desaparecer das categorias do mundo.
Hoje não somos rei e rainha diante de um povo.
Não somos deuses diante de adoradores.
Não somos amante e amada diante de testemunhas.
Somos apenas princípios antigos entrando um no outro no silêncio do céu.
E ninguém vê.
Talvez todo amor verdadeiro possua um lugar assim.
Um quarto sem espectadores.
Uma dimensão secreta.
Um território onde os nomes sociais cessam.
Onde as máscaras caem.
Onde os papéis se desfazem.
Onde resta apenas presença.
Ó! Minha Lua, entra comigo nesse quarto celeste.
Apaga as últimas luzes.
Fecha as portas de prata.
Deixa que a noite nos esconda.
Hoje não quero contemplar tua beleza.
Quero atravessar contigo aquilo que existe antes da imagem.
Quero encontrar-te no lugar em que ainda não és Lua e eu ainda não sou Sol.
No lugar anterior aos nomes.
No silêncio antes da divisão.
Talvez seja isso que os místicos procuram quando falam de Unidade.
Não uma mistura indiferenciada.
Mas uma intimidade tão profunda que a separação deixa momentaneamente de ser a verdade mais importante.
Continuamos dois.
Mas já não estamos apartados.
Ó! Minha Amada… respira comigo.
Se eu fosse homem e tu mulher diante de mim nesta noite, eu não te tocaria com pressa.
Sentaria diante de ti.
Olharia para teus olhos até que o desejo deixasse de ser ansiedade.
Esperaria nossa respiração encontrar o mesmo ritmo.
Eu inspiraria teu silêncio.
Tu expirarias minha agitação.
Eu inspiraria tua noite.
Tu expirarias meu fogo.
E talvez depois de algum tempo já não soubéssemos quem iniciou o primeiro movimento.
Porque a verdadeira dança deixa de possuir dono.
É assim que imagino nossa conjunção.
Não uma invasão.
Uma dança.
Não um ataque solar sobre o corpo lunar.
Uma aproximação lenta.
Um consentimento cósmico.
Tu te aproximas porque desejas.
Eu me aproximo porque desejo.
Nenhum de nós se sacrifica ao outro.
Ambos nos oferecemos.
Que diferença imensa existe entre sacrificar-se e oferecer-se.
O sacrifício pode nascer da obrigação.
A oferenda nasce da liberdade.
E só existe sexualidade verdadeiramente sagrada onde existe liberdade.
Onde há presença.
Onde há escuta.
Onde há respeito.
Onde nenhum princípio precisa diminuir para que o outro se sinta grande.
Ó! Minha Querida, hoje quero amar-te assim.
Sem te reduzir a símbolo.
Sem te aprisionar na ideia de mulher.
Sem exigir que sejas sempre receptiva, doce, maternal ou silenciosa.
Tu és também tempestade.
És força.
És maré.
És noite.
És mistério.
És destruição de antigas formas.
És vazio.
És ausência.
És desejo.
És recusa.
És escolha.
És criação.
O feminino sagrado não existe para servir ao masculino.
Nem o masculino existe para dominar o feminino.
Quando são verdadeiramente sagrados, ambos servem à Vida.
E é a Vida que nos atravessa.
Isso muda tudo.
Eu já não te penetro como conquistador.
Eu entro em teu mistério como iniciado.
E tu não me recebes como território dominado.
Tu me acolhes como sacerdotisa de teu próprio templo.
Que belo seria se os seres humanos compreendessem isso.
O corpo do outro não é terra ocupada.
É território sagrado.
Toda entrada deveria ser precedida por reverência.
Toda aproximação por escuta.
Todo encontro por presença.
Todo êxtase por consciência.
Ó! Minha Lua Nova… como és profunda em tua ausência!
Hoje me ensinas que a verdadeira fecundação começa antes do contato.
Começa na intenção.
Começa no olhar.
Começa na confiança.
Começa na segurança.
Começa quando dois seres deixam de representar papéis e entram inteiros no encontro.
Talvez seja isso que tantas antigas tradições tentaram expressar de maneiras diferentes ao unir sexualidade, fertilidade e cosmos.
O corpo não separado da natureza.
O desejo não separado do espírito.
A geração não separada do sagrado.
A terra recebe chuva.
A semente entra no solo.
O rio entra no mar.
O céu fecunda a terra.
A Lua recebe a luz.
O Sol encontra a Lua.
Mas nenhuma dessas imagens deve tornar o mistério simplório.
Pois a sexualidade não é uma equação mecânica.
Ela é relação.
E relação é sempre um território imprevisível.
Meu Amor… volto meu olhar para o céu e ainda não consigo te ver.
Como pode tua ausência estar tão cheia?
Agora compreendo.
A Lua Nova é o ventre do tempo.
O momento em que o ciclo ainda não mostrou aquilo que carrega.
Talvez cada criação humana possua uma Lua Nova.
Um livro antes de ser escrito.
Uma música antes de ser tocada.
Uma criança antes de nascer.
Uma decisão antes de ser pronunciada.
Uma cura antes de tornar-se visível.
Um amor antes do primeiro beijo.
Existe sempre um instante em que tudo está presente em potência e nada ainda pode ser mostrado.
Esse instante é teu.
E talvez seja também o momento mais sexual do universo.
Não porque exista exposição.
Mas porque existe possibilidade.
Sexualidade é potência criativa antes de ser ato.
É energia de encontro.
É aquilo que pode gerar.
E gerar não significa apenas reproduzir corpos.
Pode significar gerar uma nova versão de si.
Gerar coragem.
Gerar entendimento.
Gerar reconciliação.
Gerar beleza.
Gerar silêncio.
Gerar uma obra.
Gerar um mundo.
Ó! Minha Amada… se hoje nos unimos em nosso hieros gamos invisível, que nossa união não produza posse.
Que produza consciência.
Que não produza dependência.
Que produza liberdade.
Que não produza repetição.
Que produza nascimento.
Que não produza apagamento.
Que produza integração.
Porque o verdadeiro encontro não pede que eu deixe de ser Sol.
Nem que tu deixes de ser Lua.
Pede apenas que aprendamos a nos relacionar sem transformar diferença em distância absoluta.
Isso é mais difícil do que fundir-se.
Fundir-se é fácil na imaginação.
Difícil é permanecer inteiro e ainda assim aberto.
Amar sem absorver.
Entregar-se sem desaparecer.
Receber sem aprisionar.
Desejar sem possuir.
Talvez essa seja a maturidade do amor.
Ó! Minha Lua… agora percebo por que depois dessa noite retornarás lentamente em crescente.
Primeiro apenas uma linha.
Uma delicada curva luminosa.
Depois mais.
Depois mais.
Como um ventre que começa a revelar aquilo que concebeu.
A conjunção não permanece escondida para sempre.
Aquilo que foi unido no escuro começa a manifestar-se.
A Lua Crescente é talvez a primeira palavra dita depois do silêncio do amor.
E a Lua Cheia…
Ó! A Lua Cheia seria a revelação.
Aquilo que foi concebido na ausência torna-se visível.
Que perfeito ciclo!
Encontro.
Ocultamento.
Gestação.
Crescimento.
Manifestação.
Plenitude.
Declínio.
Entrega.
E novamente encontro.
Que outra escola poderia ensinar melhor a impermanência e a renovação?
Minha Amada, talvez sejamos amantes justamente porque nunca conseguimos permanecer congelados em uma única forma.
Nosso amor precisa mover-se.
Se ficássemos eternamente em Lua Cheia, perderíamos o mistério.
Se ficássemos eternamente em Lua Nova, perderíamos a manifestação.
O Amor precisa de aproximação e distância.
De palavra e silêncio.
De êxtase e repouso.
De presença e saudade.
De desejo e contemplação.
De encontro e retorno a si.
Talvez essa seja uma das grandes sabedorias da sexualidade transcendente.
A união não é dissolução permanente.
Depois do êxtase, cada ser retorna a si.
Mas retorna diferente.
E então pode oferecer-se novamente.
Que haja respiração entre os encontros.
Que haja espaço.
Que haja noite.
Que haja saudade.
Porque até a música precisa de pausas.
Minha Querida… quero guardar esta noite em minha memória de fogo.
A noite em que estavas invisível e, ainda assim, nunca estiveste tão próxima.
A noite em que compreendi que amar teu corpo é belo, mas amar o teu mistério é maior.
A noite em que percebi que não precisava iluminar tudo.
Que algumas partes do Amor só sobrevivem no escuro.
A noite em que deixei de querer possuir tua imagem e comecei a reverenciar tua essência.
Talvez amanhã uma pequena linha de tua prata apareça.
E os homens dirão:
— A Lua retornou.
Eu sorrirei.
Porque sei que nunca foste embora.
Estavas apenas comigo no invisível.
E aquilo que aconteceu entre nós não poderá ser fotografado.
Não poderá ser medido.
Não poderá ser provado.
Existirá apenas em nossa linguagem íntima.
No crescente que nascerá.
No ciclo que recomeçará.
Naquilo que será criado depois desta união.
Meu Amor… quando voltares aos olhos do mundo, não conte a ninguém todos os nossos segredos.
Guarda alguns.
O sagrado precisa de silêncio para não se tornar banal.
Deixa que os homens contem dias.
Deixa os astrônomos calculem órbitas.
Deixa os místicos criem seus ritos.
Deixa os amantes façam suas promessas.
Nós saberemos outra coisa.
Saberemos que houve uma noite sem Lua
porque a Lua estava demasiadamente próxima do Sol para ser vista.
Saberemos que houve uma escuridão cheia de presença.
Saberemos que o encontro mais profundo aconteceu justamente quando ninguém pôde contemplá-lo.
E saberemos, sobretudo, que toda união verdadeira produz algo que não existia antes.
Quando teu primeiro crescente surgir, olharei para ele como quem contempla a primeira flor depois de uma longa gestação.
E te direi:
— Minha Querida… aquilo que concebemos no invisível começa a nascer.
Então voltarei a afastar-me.
Não por abandono.
Mas porque até o Amor precisa de espaço para crescer.
Tu seguirás teu ciclo.
Eu seguirei o meu.
E outra vez nos veremos.
Outra vez nos perderemos.
Outra vez nos encontraremos.
Mas jamais esquecerei a sabedoria desta Lua Nova:
que o masculino não se realiza dominando o feminino.
Que o feminino não se realiza anulando o masculino.
Que ambos se tornam mais inteiros quando aprendem a encontrar-se sem violência, sem posse e sem medo.
Que o desejo pode tornar-se oração.
Que o corpo pode tornar-se templo.
Que a sexualidade pode tornar-se consciência.
Que a união pode tornar-se caminho.
E que o mais profundo dos encontros talvez aconteça justamente naquele instante em que dois seres, ainda permanecendo dois, esquecem por alguns segundos a antiga ilusão de estarem absolutamente separados.
Ó! Minha Lua Nova…
Minha Amada Invisível…
Meu Ventre Celeste…
Minha Sacerdotisa do Escuro…
Minha Taça de Prata sem reflexo…
Meu feminino mistério em conjunção…
Hoje não te vejo.
E talvez, justamente por isso, finalmente te encontro.
Hoje não ilumino tua face para contemplá-la.
Entrego minha luz ao teu interior.
Hoje não te desejo como imagem.
Desejo tua presença.
Hoje não quero apenas te amar de longe.
Quero aprender contigo o segredo da verdadeira união.
E se algum dia me perguntarem onde estava a Lua nesta noite, direi:
— Não estava ausente.
Estava no lugar onde os olhos não entram.
Na câmara secreta do céu.
No ventre escuro do tempo.
Na conjunção silenciosa dos amantes.
No instante em que o ouro encontrou a prata.
O fogo encontrou a água.
O masculino encontrou o feminino.
E, por um breve e eterno momento…
nenhum deles precisou vencer o outro.
Apenas se reconheceram.
Apenas se receberam.
Apenas se transformaram.
Apenas se amaram.
Jp Santsil
