Lembrar daquele dia é como meter a cabeça num balde de água suja e quanto mais eu tento abrir os olhos mais eles ardem, se consigo deixá-los abertos vejo apenas uma água turva. Quanto mais tempo passo tentando enxergar mais me afogo naquela podridão.
Tirar a cabeça desse balde é sentir o rosto em carne viva, as feridas abertas.
" - Eu não lembro... - Respondi pra psicóloga.
- É muito comum nosso cérebro bloquear situações traumáticas, que ele não quer ou não consegue entender, como uma forma de proteção."
Tudo o que eu queria era esquecer que aquilo tinha acontecido.
É verdade que eu não lembrava de tudo, mas lembro das mãos ásperas me tocando, do joelho pressionando minha coxa e subindo meu vestido.
Não sei como saí, não sei as horas, não sei como acertei o caminho de casa, só lembro de depois ter andado pela rua como um corpo vazio, de alguma forma eu não era eu, entende?
Lavei meu corpo da forma mais violenta que pude, mesmo sabendo que nem toda a água do mar tiraria aquele horror de mim.
Olhos inchados de tanto chorar, dedos sangrando de socar as paredes, entre as pernas a dor que eu queria que não existisse.
E ali não era mais eu...
Na mente a confusão, flashes de momentos; no corpo as pontadas de dor.
E assim escolheram por mim e me diminuíram a apenas um corpo, um corpo vazio pra satisfazer o desejo sórdido de outro.
Me tiraram a chance de ser eu.

