Carta aos que não morrerão
De um homem do século XXI aos herdeiros da eternidade.
Aos que vierem depois de nós,
Eu os odeio um pouco.
Não por aquilo que fizeram, mas por aquilo que lhes foi concedido. E há algo de profundamente ridículo em dirigir tamanho ressentimento a pessoas que sequer nasceram. Mais ridículo ainda é saber que, se esta carta chegar a vocês, talvez não consigam compreender inteiramente a razão desse ressentimento.
Como explicar o frio a quem nunca conheceu o inverno?
Talvez vocês encontrem alguma resposta em nossos poemas, nas sinfonias que compusemos, nos romances que escrevemos para suportar a consciência de nossa própria extinção. Talvez sintam aquele peso solene de uma marcha fúnebre. Talvez escutem o Réquiem de Mozart e se comovam. Talvez leiam os versos de Fernando Pessoa e reconheçam neles alguma beleza. Talvez contemplem as figuras de Michelangelo na Capela Sistina e nos olhem com condescendência paternal, quem sabe até se reconhecendo do outro lado daquele toque: não mais como Adão, mas como a mão que lhe concede a vida.
Mas suspeito que, por mais que se comovam com aquilo que criamos, alguma coisa lhes escapará.
Não por insuficiência intelectual. Muito pelo contrário. Vocês talvez sejam capazes de compreender cada mecanismo de nossos cérebros, cada reação química de nossa angústia, cada impulso elétrico que nos fez tremer diante do inevitável.
Ainda assim, conhecer a anatomia de uma ferida não é o mesmo que sentir sua dor.
E essa diferença me atormenta.
Nós inventamos religiões, erguemos templos, escrevemos tratados filosóficos, concebemos paraísos e reencarnações. Construímos sistemas de crenças, valores e significados que ajudaram a organizar nossas sociedades, orientar nossas condutas e tornar possível a cooperação entre pessoas que, de outra forma, pouco teriam em comum. Em algum momento, também aprendemos a habitá-los em busca de respostas para a perda do que amávamos.
Não sei se inventamos a eternidade para suportar a morte ou se aprendemos a suportar a morte porque já havíamos inventado a eternidade.
Talvez as duas coisas.
Talvez tenhamos sido tão extraordinários na arte de consolar os condenados que, por vezes, nos esquecemos de questionar a sentença. Chamamos de maturidade aquilo que talvez fosse apenas impotência.
É quase cômico.
Uma espécie inteira, dotada de uma inteligência extraordinária, obrigada a desenvolver mecanismos para suportar uma condição que não conseguia modificar. E, quando esses mecanismos finalmente se tornaram sofisticados o suficiente, passamos a confundi-los com respostas.
Dizíamos que a morte dava sentido à vida.
Que a beleza de uma flor estava em sua brevidade.
Que a urgência tornava preciosos os nossos encontros.
Que uma existência infinita seria insuportavelmente tediosa.
Que consolo engenhoso.
Pergunto-me quantos daqueles que defenderam essas ideias teriam recusado, diante de uma possibilidade concreta, mais cem anos. Mais mil. Mais tempo para compreender uma equação, aprender uma língua, ouvir uma música ainda não composta, conhecer os descendentes de seus descendentes, testemunhar o nascimento de novos mundos.
Eu não teria recusado.
E talvez seja essa a minha maior diferença em relação aos sábios que me precederam: não consigo transformar minha sentença em privilégio.
Não há, para mim, uma reconciliação definitiva com o fim.
Há apenas um ruído.
Baixo, persistente, quase imperceptível durante os afazeres cotidianos. Ele acompanha o café da manhã, as conversas banais, o prazer de uma descoberta, o silêncio de uma madrugada.
Às vezes desaparece sob o peso das distrações. Outras vezes cresce de repente, ensurdecedor, quando percebo que jamais lerei todos os livros que gostaria, que não verei o desfecho das perguntas que hoje mobilizam nossas melhores mentes, que não conhecerei as civilizações que nascerão das ruínas da minha.
Cada descoberta humana amplia o território do desconhecido e, simultaneamente, diminui o tempo que me resta para explorá-lo.
Que ironia monstruosa.
A consciência nos permitiu contemplar o infinito, mas não nos concedeu tempo para percorrer sequer uma fração dele.
E vocês?
Vocês atravessarão séculos como atravessamos estações.
Poderão abandonar uma vocação e retomá-la trezentos anos depois. Acompanharão a transformação de continentes, a evolução de espécies, o nascimento e a morte de estrelas. O conhecimento deixará de ser uma corrida desesperada contra a deterioração do corpo e se tornará aquilo que sempre deveria ter sido: uma exploração sem a ameaça constante de interrupção.
Penso nisso e sinto algo que se aproxima da reverência.
Não a reverência religiosa que nossos antepassados dirigiam aos deuses, mas aquela que um prisioneiro poderia sentir diante de alguém que nasceu do outro lado dos muros.
Porque é assim que os imagino.
Não como seres superiores em essência, mas como herdeiros de uma liberdade que nós não tivemos.
E há algo ainda mais cruel nessa herança: provavelmente vocês se acostumarão a ela.
Aquilo que para mim representa a mais extraordinária conquista concebível poderá ser, para vocês, apenas a condição ordinária da existência.
A eternidade transformada em cotidiano.
Imagino um de vocês reclamando de uma tarde entediante, desperdiçando décadas com frivolidades, adiando por mais um século uma viagem ou um projeto. Imagino a naturalidade com que poderão dizer "algum dia", sem que essas duas palavras escondam a possibilidade terrível de nunca.
E não sei se quero rir ou protestar contra o universo.
Talvez vocês também sofram. Certamente encontrarão novas formas de sofrimento. Não sou ingênuo a ponto de acreditar que a continuidade da vida resolverá todas as contradições da consciência.
Mas uma delas, a mais antiga e inegociável, terá deixado de governar cada uma de suas escolhas.
Se tiverem conseguido também construir uma sociedade em que a razão, a cooperação e os vínculos humanos sejam mais poderosos que nossos impulsos ancestrais de dominação, medo e violência, então talvez tenham realizado aquilo que durante milênios chamamos de paraíso.
Não aquele prometido depois da morte.
Um paraíso sem a necessidade de morrer para alcançá-lo.
E, nesse caso, o que seriam vocês, senão os deuses que nossos ancestrais tentaram imaginar?
Não deuses por terem criado o universo, mas por não precisarem mais negociar com ele a duração de sua própria existência.
Talvez encontrem esta comparação exagerada. Afinal, o extraordinário deixa de parecer extraordinário quando se torna universal.
Mas há coisas que só podem ser vistas de baixo.
Só quem não usa a coroa da amortalidade consegue enxergar, sobre a cabeça dos reis que a carregam, o esplendor de seu privilégio.
E eu estou aqui, justamente aqui, no ponto mais cruel da história.
Tarde demais para acreditar sem reservas nas promessas de imortalidade feitas pelos sacerdotes. Cedo demais para usufruir das possibilidades que a ciência talvez consiga tornar realidade.
Pois a matéria que aprendeu a pensar também pode aprender a preservar indefinidamente as condições de seu próprio pensamento.
Não há uma sentença divina inscrita em nossas células, apenas mecanismos que ainda não dominamos.
E talvez seja essa a maior crueldade de nossa época: saber que a porta pode ser aberta, compreender que não há uma lei fundamental exigindo que permaneça fechada e, ainda assim, nascer cedo demais para atravessá-la.
Não parece haver necessidade de uma alma sobrenatural para que eu exista. Meus pensamentos emergem de processos físicos, minha memória depende de estruturas vulneráveis, e a personalidade que chamo de eu é sustentada por um organismo sujeito à degradação.
Ao que me parece, essas estruturas também não são, em princípio, sagradas ou intocáveis.
Podem ser estudadas. Compreendidas. Talvez preservadas.
É isso que torna minha época tão particularmente amarga.
Não estamos mais inteiramente mergulhados na ignorância, mas ainda não conquistamos os meios para escapar de suas consequências.
Podemos vislumbrar a porta.
Podemos descrever suas dobradiças, compreender parte de seu mecanismo, imaginar as ferramentas necessárias para abri-la.
Mas talvez não vivamos o suficiente para atravessá-la.
Penso em todo o conhecimento que acumulei. Nas experiências que me transformaram, nas conclusões a que cheguei depois de tantos erros, nas ideias que ainda não consegui formular, nas mudanças que ocorreram silenciosamente dentro de mim.
Tudo isso custou tempo.
Décadas de observação, de aprendizado, de construção de uma consciência singular.
E então, quando essa consciência finalmente começa a compreender alguma coisa sobre o mundo e sobre si mesma, o organismo que a sustenta entra em declínio.
O universo investe bilhões de anos na produção de matéria capaz de contemplar a própria existência, permite que essa matéria desenvolva uma história interior e, pouco depois, desfaz a organização que tornou tudo possível.
Que desperdício colossal.
Uma biblioteca incendiada não porque seus livros tenham perdido o valor, mas porque o edifício que os abriga envelheceu.
É verdade que transmitimos parte de nós. Ensinamos, escrevemos, construímos. Nossa cultura é uma tentativa coletiva de impedir que cada geração precise começar do zero.
Mas uma ideia transmitida não é uma consciência preservada.
Vocês poderão ler minhas palavras. Talvez consigam reconstruir com precisão o contexto em que foram escritas. Talvez até reproduzam artificialmente os padrões de pensamento de alguém como eu.
Ainda assim, não sei se isso significaria que eu cheguei até vocês.
E essa dúvida, para alguém que deseja continuar existindo, não é pequena.
Não peço que sintam culpa. Seria absurdo exigir que carregassem o sofrimento de todos os que nasceram antes da conquista de sua liberdade. Tampouco desejo que renunciem ao que possuem em nome de nossa memória. Não há nobreza alguma em perpetuar uma tragédia apenas para homenagear suas vítimas.
Quero que vivam.
Que vivam tanto que os séculos deixem de ser uma medida impressionante.
Que se tornem melhores do que nós, não por terem sido feitos de outra matéria, mas por disporem de tempo suficiente para reconhecer e corrigir suas próprias contradições.
Que nenhum conhecimento precise desaparecer com seu portador.
Que ninguém seja obrigado a abandonar uma pergunta porque seu corpo não consegue esperar pela resposta.
Que o amor pelo mundo não venha acompanhado da certeza de que seremos expulsos dele.
E, sobretudo, que jamais confundam a familiaridade com a insignificância.
Pois aquilo que lhes parecerá banal foi, para incontáveis gerações, o objeto de uma esperança tão intensa que inventamos universos inteiros para acomodá-la.
Dante precisou atravessar o Inferno, o Purgatório e o Paraíso para imaginar a continuidade de uma alma.
Gilgamesh atravessou terras desconhecidas em busca de uma vida que não terminasse.
Nós, que herdamos essas histórias, continuamos fazendo a mesma pergunta, agora diante de microscópios, aceleradores de partículas e sequenciadores genéticos.
Mudaram os instrumentos.
Não mudou a recusa íntima de desaparecer.
E é com essa recusa, inteiramente humana, que lhes escrevo.
Admiro vocês.
Invejo vocês.
Há momentos em que a simples possibilidade de sua existência me parece uma afronta pessoal. Em outros, ela me consola, porque significa que talvez nossa espécie tenha finalmente conseguido vencer uma de suas mais antigas limitações.
Não sei qual dessas emoções é mais verdadeira.
Provavelmente ambas.
Talvez seja esse o sentimento que vocês jamais conhecerão por inteiro: contemplar uma possibilidade magnífica, compreender que ela pode ser real, desejá-la com todas as forças e suspeitar que a história a entregará precisamente àqueles que vierem depois de você.
Não é apenas medo de morrer.
É o sofrimento de saber que a sinfonia continuará, que novos movimentos serão compostos, que instrumentos inimagináveis se juntarão à orquestra, e que teremos de nos retirar do salão quando mal começávamos a compreender a primeira nota da melodia.
Se algum dia encontrarem esta carta, peço apenas uma coisa.
Não digam que tivemos sorte por viver vidas breves e, por isso, supostamente mais intensas.
Não transformem nossa privação em poesia para torná-la mais confortável aos seus olhos.
Nós já fizemos isso por tempo demais.
Reconheçam que queríamos ficar.
Que amávamos o conhecimento, a experiência, a possibilidade de nos transformarmos.
Que muitos de nós não desejávamos descanso eterno, transcendência ou qualquer recompensa por termos suportado o inevitável.
Queríamos apenas continuar.
E agora, quando finalmente me despeço, percebo a última ironia desta carta.
Quando vocês a lerem, os átomos que um dia sustentaram meus pensamentos provavelmente já terão atravessado incontáveis outras formas de existência. Talvez estejam nas árvores sob as quais descansam, na água que bebem, no ar que respiram. Talvez alguma pequena fração da matéria que me constituiu participe, silenciosamente, da própria estrutura de seus corpos.
Nesse sentido estritamente material, alguma coisa de mim terá chegado ao futuro.
Mas não confundam isso com uma vitória.
Os átomos não se lembrarão de ter sido eu.
Não saberão que um dia desejaram tanto conhecer vocês.
Eis, portanto, minha despedida, escrita de um lado da história para o qual não existe passagem de volta.
Recebam a saudação de alguém que os contempla com a devoção reservada aos deuses e com o ressentimento reservado aos herdeiros de uma fortuna injustamente distribuída.
De alguém que não deseja seu infortúnio, mas que daria quase tudo para compartilhar sua condição.
De alguém que ajudou, ainda que minimamente, a construir o mundo em que vocês poderão permanecer.
Um abraço dos que chegaram cedo demais.
De um homem que amou a existência com tamanha intensidade que uma eternidade inteira lhe pareceria pouco para contemplá-la.
Século XXI.
