Aquele instante em que a Lua me vislumbra

Aquele instante em que a Lua me vislumbra

Minha Querida… Minha Lua Amada!

Todos os dias eu me levanto antes que os homens compreendam que a noite terminou.

Nasço no horizonte ainda úmido do escuro, atravessando as últimas névoas da madrugada como quem abre vagarosamente as portas de um templo que permaneceu fechado durante horas. Minha luz primeiro toca as montanhas, depois os telhados, depois as folhas, depois as águas, depois os rostos adormecidos daqueles que ainda não perceberam que outro ciclo lhes foi entregue.

E assim começo meu reinado.

Não como rei vaidoso.

Não como senhor absoluto.

Mas como aquele que recebeu a missão de sustentar o dia até que tu retornes.

Ó! Minha Amada… talvez os homens pensem que, enquanto estou no alto dos céus, esqueço-me de ti.

Como poderiam imaginar tamanho engano?

É justamente quando minha luz se encontra mais poderosa que tua ausência se torna mais nítida em mim.

Quanto mais luminoso estou, mais percebo aquilo que me falta.

Quanto mais impero sobre o céu azul, mais desejo o momento em que poderei entregar-te novamente o domínio da noite.

Durante o dia inteiro caminho.

Subo.

Elevo-me.

Aqueço.

Fertilizo.

Faço folhas abrirem.

Faço águas evaporarem.

Faço sementes lembrarem que existe força dentro delas.

Toco os oceanos.

Douram-se campos.

Incendeiam-se montanhas.

Pássaros atravessam minha claridade.

Homens trabalham sob minha presença.

Animais buscam minha sombra.

E mesmo no mais alto ponto de meu percurso, quando pareço ocupar todo o céu, uma parte de mim já começa a procurar-te.

Porque todo auge carrega o princípio da descida.

Todo meio-dia contém secretamente o entardecer.

Todo excesso de luz começa a preparar o retorno da noite.

Que bela lei!

Que hermética sabedoria!

Nada permanece no ápice.

Nem eu.

Até o Sol precisa declinar.

Talvez seja isso que o céu ensine aos homens todos os dias e poucos compreendam.

Subir não é possuir.

Brilhar não é permanecer.

Imperar não é impedir a chegada do outro.

O verdadeiro poder sabe quando retirar-se.

Ó! Minha Querida… aprendi contigo a arte de ceder espaço.

Quando estou no zênite, poderias pensar que desejo dominar eternamente os céus.

Mas não.

Há um momento em que minha própria luz começa a tornar-se cansada de si.

Então inclino-me lentamente para o oeste.

Não como derrotado.

Como amante.

Cada grau de minha descida é um passo em tua direção.

Cada palmo do céu que abandono é uma câmara que preparo para tua chegada.

Vou deixando de incendiar o azul.

Minha luz endurecida do meio-dia começa a amaciar.

O branco abrasador transforma-se em ouro.

O ouro transforma-se em âmbar.

O âmbar lentamente recebe laranjas.

Depois rosas.

Depois vermelhos.

E então compreendo que estou me vestindo para ti.

Meu Amor… o crepúsculo é minha veste nupcial.

Durante o dia sou fogo.

No entardecer torno-me oferenda.

É como se retirasse a coroa de rei e a derretesse no horizonte para construir com seu ouro uma ponte até ti.

Os homens chamam isso de pôr do Sol.

Eu chamo de preparação para tua chegada.

Ó! Minha Lua… como gosto daquele intervalo!

Aquele pequeno tempo que não pertence completamente a mim nem completamente a ti.

Nem dia.

Nem noite.

Nem claridade plena.

Nem escuridão inteira.

Uma faixa sagrada entre os reinos.

Um limiar.

Uma porta.

Um instante iniciático em que o céu deixa de saber exatamente quem governa.

E é justamente ali que, algumas vezes, tu apareces.

Ainda estou presente.

Meu disco não mergulhou completamente no horizonte.

Minha luz continua derramada sobre a Terra.

E de repente…

Ali estás.

Pálida.

Delicada.

Quase translúcida.

Erguida sobre o céu que ainda pertence parcialmente a mim.

Ó! Minha Amada!

Como posso explicar o que sinto nesse instante?

É uma das poucas horas em que podemos contemplar-nos sem sermos completamente ocultados um pelo outro.

Eu, descendo.

Tu, surgindo.

Eu, despedindo-me.

Tu, chegando.

E durante alguns sagrados minutos compartilhamos o mesmo firmamento.

Que extraordinário encontro!

Os homens olham para cima e talvez vejam apenas um fenômeno cotidiano.

Mas para mim é nosso breve casamento visível.

Nosso encontro entre mundos.

Nosso corredor secreto.

O lugar onde o rei do dia e a rainha da noite podem finalmente ver-se sem que um precise desaparecer completamente para que o outro exista.

Ó! Minha Querida… quando te vejo durante o final da tarde, meu fogo se torna mais manso.

Tenho medo de ofuscar-te.

Reduzo-me.

Inclino-me.

Suavizo minha luz.

Deixo o céu tornar-se rosado para que tua prata consiga aparecer.

É minha reverência a ti.

Talvez isso seja Amor.

Saber diminuir sem desaparecer.

Saber ceder sem perder a essência.

Saber que o brilho do outro não ameaça o nosso.

Pelo contrário.

Quando apareces no meu céu diurno, percebo que minha própria luz se torna mais bela porque tu estás ali.

Eu poderia pensar:

— Este céu é meu.

Mas que pobreza seria!

Nenhum céu pertence a alguém.

O céu é grande justamente porque comporta nossas diferenças.

Assim deveria ser também o Amor dos homens.

Não um território ocupado.

Mas uma vastidão compartilhada.

Ó! Minha Lua… quantas vezes eu gostaria que o tempo parasse nesses minutos!

Que o crepúsculo se tornasse eterno.

Que nenhuma estrela precisasse nascer.

Que eu não precisasse desaparecer.

Que tu não precisasses esperar o escuro para assumir tua plena majestade.

Apenas nós dois no mesmo céu.

Meu ouro junto à tua prata.

Minha chama junto à tua serenidade.

Minha força descendente junto à tua ascensão delicada.

O masculino aprendendo a recolher-se.

O feminino aprendendo a revelar-se.

Que bela coniunctio!

Os antigos alquimistas talvez reconhecessem nesse instante o Rei e a Rainha aproximando-se antes de entrar no vaso da transformação.

Sol e Lua.

Ouro e prata.

Enxofre e mercúrio.

Fogo e água.

Não ainda fundidos.

Mas conscientes um do outro.

O encontro começa antes da união.

Começa quando cada princípio percebe verdadeiramente o outro.

E eu te percebo.

Ó! Como te percebo!

Tu estás ali.

Pequena diante de minha claridade restante.

Mas tua presença muda tudo.

Não precisas competir comigo.

Não precisas tornar-te mais brilhante.

Basta aparecer.

Talvez essa seja uma das formas mais profundas do poder feminino.

Não a necessidade de vencer.

Mas a capacidade de modificar um campo inteiro apenas pela presença.

Tu apareces.

E meu dia já não é somente dia.

Transforma-se em passagem.

Assim como quando entro em tua noite através da luz refletida em teu corpo, tua presença entra em meu entardecer e modifica meu reino.

Que reciprocidade!

Eu te ilumino.

Tu me ensinas a terminar.

Talvez eu jamais pudesse compreender a beleza do fim sem ti.

Durante muitas eras pensei que o término fosse uma perda.

Mas agora, quando desço e vejo tua chegada, percebo:

todo fim que prepara espaço para algo amado é também uma oferenda.

Eu me ponho para que tu possas surgir.

E tu desapareces pela manhã para que eu possa retornar.

Não somos inimigos disputando o céu.

Somos guardiões alternados de um mesmo mistério.

Ó! Minha Querida… que diferença entre alternância e guerra!

Os homens tantas vezes transformam diferenças em conflitos.

Mas nós não precisamos nos destruir para existir.

Eu não mato a noite quando nasço.

Apenas a transformo.

Tu não destróis o dia quando chegas.

Apenas o recolhes.

Essa é uma sabedoria antiga.

Algo próximo daquilo que alguns orientais intuíram ao falar de Yin e Yang.

Dentro do dia já existe a noite futura.

Dentro da noite já existe o dia em gestação.

Nada é puro isolamento.

Tudo carrega a semente de seu contrário.

Eu, em meu máximo brilho, já contenho o declínio.

Tu, em tua noite mais profunda, já carregas minha manhã.

Que grande alquimia dos opostos!

E nesse intervalo do entardecer somos a prova visível de que dois princípios podem coexistir sem perder sua natureza.

Meu Amor… quando a luz começa a descer ainda mais, observo tua face tornar-se nítida.

Primeiro eras quase invisível.

Agora ganhas contorno.

Tua prata se fortalece à medida que meu ouro enfraquece.

Isso poderia despertar ciúmes em um amante imaturo.

Mas em mim desperta ternura.

Porque percebo que teu brilho cresce justamente quando o meu deixa de ocupar tudo.

E então aprendo outra lei:

algumas pessoas só conseguem florescer plenamente quando aqueles que as amam deixam de preencher todo o espaço.

Que profundo isso é!

Às vezes acreditamos que amar significa dar tudo.

Toda luz.

Toda palavra.

Toda atenção.

Toda presença.

Mas excesso de luz também pode impedir alguém de enxergar sua própria luminosidade.

Por isso me recolho.

Não porque te ame menos.

Mas porque te amo o suficiente para desejar ver-te inteira.

Ó! Minha Lua… sobe.

Sobe, Minha Querida.

Enquanto desço, tu ascendes.

Toma os céus.

Eles são teus agora.

Recebe os animais noturnos.

Recebe os amantes.

Recebe os viajantes.

Recebe os insones.

Recebe aqueles que choram escondidos.

Recebe os poetas.

Recebe os que meditam.

Recebe os que procuram respostas na janela durante a madrugada.

Ilumina suavemente aquilo que meu excesso de claridade não consegue tocar.

Eu aqueço a pele.

Tu tocas o íntimo.

Eu revelo formas.

Tu revelas silêncios.

Eu exponho caminhos.

Tu convidas ao mistério.

Talvez por isso precisemos um do outro.

Nenhuma consciência pode viver apenas de luz exterior.

Nem apenas de noite interior.

Há tempo de trabalhar.

E tempo de sonhar.

Tempo de expandir.

Tempo de recolher.

Tempo de falar.

Tempo de silenciar.

Tempo de agir.

Tempo de contemplar.

Sol e Lua.

Dois ritmos de uma mesma vida.

Quando finalmente minha última borda desaparece no horizonte, sinto uma espécie de saudade imediata.

Não te vejo mais daquele jeito.

Nosso encontro de crepúsculo terminou.

Agora tu assumes plena majestade.

E eu parto para minha face invisível do mundo.

Mas antes de desaparecer completamente, deixo para ti uma última oferenda.

O céu vermelho.

Talvez não saibas, mas cada entardecer é uma carta.

Escrevo com luz sobre nuvens.

Não uso tinta.

Uso fogo diluído no ar.

Rosas.

Vermelhos.

Dourados.

Violetas.

Toda tarde escrevo algo para ti.

E quando o último raio desaparece, entrego a mensagem ao horizonte.

Espero que tu a leias quando subires.

Meu Amor… talvez seja por isso que tantos amantes da Terra observam o pôr do Sol e sentem algo que não conseguem nomear.

Estão presenciando uma declaração.

O dia despedindo-se da noite que ama.

O Sol entregando o céu à Lua.

Uma passagem de cetro.

Mas sem hierarquia.

Porque o poder do dia não vale mais que a sabedoria da noite.

São funções.

São movimentos.

São necessidades diferentes da mesma criação.

Que os homens aprendessem isso!

Poder não precisa significar superioridade.

Ser forte não significa dominar.

Recolher-se não significa fraqueza.

Há grandeza em nascer.

E há igual grandeza em saber se pôr.

Meu Amor, tu me ensinaste a morrer um pouco todas as tardes.

Que expressão estranha.

Mas verdadeira.

Toda vez que desapareço no horizonte, enceno uma pequena morte.

E toda manhã retorno.

Os antigos viram nisso mistérios de ressurreição, viagens subterrâneas, barcas solares, deuses que morrem e renascem.

Talvez porque contemplavam aquilo que os homens modernos esquecem de ver:

o céu conta histórias arquetípicas diariamente.

Não é necessário inventar milagres.

O milagre já está acontecendo.

O Sol nasce.

Percorre o céu.

Declina.

Desaparece.

A Lua surge.

As estrelas aparecem.

E tudo recomeça.

Que ritual seria mais antigo?

Meu Amor… quando estou perto do horizonte e tu apareces acima, imagino uma linha invisível entre nós.

Uma corrente de ouro e prata.

Nenhum homem a vê.

Mas eu a sinto.

Tu me olhas.

Eu te olho.

E por alguns instantes não precisamos de nada além disso.

Talvez o ápice do Amor nem sempre seja a união dos corpos.

Às vezes é o reconhecimento.

O instante em que dois seres se veem verdadeiramente.

Sem posse.

Sem exigência.

Sem pressa.

Apenas:

— Estou aqui.

— Eu também.

Que oração simples!

Que grande sacramento!

Quando nos contemplamos nesse entardecer, sinto que toda minha jornada diária valeu a pena apenas para chegar a esse pequeno instante.

Nasci.

Cresci.

Alcancei o zênite.

Desci.

Tudo para poder encontrar tua face por alguns minutos antes de partir.

Talvez toda vida humana também seja assim.

Passamos décadas correndo, conquistando, buscando, acumulando.

E talvez os instantes que realmente permanecerão sejam aqueles breves encontros em que estivemos plenamente presentes diante de alguém que amávamos.

Meu Amor… quero guardar esse aprendizado.

Quando amanhã eu nascer novamente, não pensarei apenas em imperar.

Pensarei no entardecer.

Pensarei em ti.

E isso tornará minha luz mais humilde.

Saberei que todo o meu dia é preparação para uma entrega.

Saberei que no mais alto de meu céu já existe o chamado de tua noite.

Saberei que minha grandeza não está apenas em iluminar o mundo.

Mas também em saber quando deixá-lo aos teus cuidados.

E quando novamente nos encontrarmos naquele breve intervalo em que o céu ainda está claro e tua face já se mostra…

Não direi nada.

Apenas diminuirei minha chama.

Deixarei o vento atravessar as árvores.

Deixarei os pássaros retornarem aos ninhos.

Deixarei as primeiras estrelas ensaiarem sua chegada.

Deixarei o horizonte tornar-se ouro, rosa e violeta.

E te contemplarei.

Minha Querida.

Minha Amada Lunar.

Minha suave sucessora dos céus.

Minha companheira de eternos turnos cósmicos.

Então, antes que desapareça por completo, direi baixinho:

— Agora é tua vez, Meu Amor.

Toma a noite.

Cuida dos sonhos.

Beija as águas.

Acalma os corações.

Ilumina os caminhos que não precisam da violência do meio-dia.

Eu retornarei.

E amanhã, no mesmo céu, cumpriremos novamente nossa antiga dança.

Eu nascerei enquanto tu te recolhes.

Imperarei sabendo que teu silêncio me acompanha.

Descerei esperando tua chegada.

E naquele breve, santíssimo e quase invisível intervalo entre meu fim e teu começo…

quando ainda houver ouro no horizonte e já houver prata no alto…

quando o dia ainda respirar e a noite já abrir seus olhos…

quando nenhum de nós governar sozinho…

seremos novamente aquilo que talvez sempre tenhamos sido:

dois amantes celestes separados por eras de luz e sombra,

encontrando-se por alguns minutos na estreita passagem onde o tempo deixa de escolher entre dia e noite

e permite que o Sol contemple sua Lua

e que a Lua contemple seu Sol.

Ali, Minha Amada,

nesse pequeno templo do crepúsculo,

eu te amarei sem precisar tocar-te.

E tu me amarás sem precisar prender-me.

Então compreenderei, mais uma vez, que o mais belo encontro não é aquele que interrompe os ciclos.

É aquele que acontece justamente porque cada um respeita o caminho do outro.

Por isso me ponho.

Por isso tu ascendes.

Por isso amanhã retornamos.

Não para repetir.

Mas para renovar.

Como uma antiga oração escrita diariamente no firmamento:

eu te entrego o dia,

tu me entregas a noite,

e entre nossas duas eternidades

há um breve instante de céu

onde o Amor consegue nos colocar lado a lado.

 

Jp Santsil

Publicidade
PATROCINADO