ALGORITMOPOLÍTICA: O MUNDO SOB DISPUTA EM 2027

ALGORITMOPOLÍTICA: O MUNDO SOB DISPUTA EM 2027

Quando observo a capa de The World Ahead 2026 a partir deste limiar de 2027, minha primeira impressão não é a de estar diante de uma profecia. É algo mais interessante e, talvez, mais perturbador. Estou diante de um mapa de poder. Não um mapa no sentido vulgar de um plano secreto no qual cada desenho corresponderia a um acontecimento previamente decidido, mas um mapa das forças que os centros de análise econômica, política e tecnológica consideravam capazes de moldar o futuro próximo. Essa distinção me parece fundamental, porque a frase “The Economist nunca erra” é retoricamente poderosa, mas empiricamente insustentável. A revista erra, como qualquer instituição que tenta antecipar acontecimentos complexos. O próprio projeto The World Ahead trabalha explicitamente com “analysis, predictions and speculation”, e a edição de 2026 foi acompanhada de um exercício de superprevisão da Good Judgment no qual dezenas de perguntas receberam probabilidades, não certezas. A força da The Economist não está em possuir um oráculo. Está em observar cedo tendências que já existem, ouvir governos, empresas, cientistas, investidores e diplomatas e condensar essas tendências numa narrativa antes que elas se tornem evidentes para o grande público. Se existe algo que ela frequentemente acerta, portanto, não é o futuro em todos os seus detalhes. É a velocidade com que reconhece para onde determinadas forças estão se deslocando.

É por isso que eu resisto tanto à leitura ingênua quanto à leitura conspiratória. A leitura ingênua diria que a capa é apenas uma ilustração divertida. A conspiratória diria que ela revela um plano de dominação já decidido. Nenhuma das duas me satisfaz. O que vejo é um dispositivo cultural de altíssima densidade simbólica. A edição foi ilustrada por Andrew Rae e organizada em torno de dez temas anunciados formalmente pela própria revista: os 250 anos dos Estados Unidos, a deriva geopolítica, a coexistência de guerra e paz, as dificuldades europeias, a oportunidade estratégica chinesa, as fragilidades econômicas, as dúvidas sobre a expansão da inteligência artificial, a crise climática, a politização do esporte e a nova geração de medicamentos contra a obesidade. A própria apresentação editorial acrescentava temas como missões espaciais e videogames. Quando eu leio os símbolos a partir desses conteúdos, grande parte do suposto mistério se dissolve. O que permanece, contudo, talvez seja ainda mais importante: a maneira pela qual esses assuntos são reunidos numa única esfera sugere que guerra, dinheiro, tecnologia, saúde, energia, informação, clima e entretenimento já não funcionam como sistemas independentes. São subsistemas de uma mesma disputa pela capacidade de organizar a vida coletiva.

No centro de tudo está o bolo marcado com o número 250. Aqui não há mistério: 2026 marcou os 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos. A própria The Economist colocou essa efeméride como sua primeira tendência do ano e previu que o aniversário produziria interpretações profundamente conflitantes sobre o passado, o presente e o futuro norte-americanos. O interessante não é o número. É a posição do número. O aniversário dos Estados Unidos foi colocado no núcleo de uma esfera repleta de armas, tecnologia, medicamentos, máquinas, dinheiro e personagens políticos. A imagem pode ser lida, portanto, como uma pergunta sobre algo maior do que a celebração de uma data: que espécie de potência chega aos 250 anos quando a ordem que ajudou a construir já não possui a estabilidade de décadas anteriores? O aniversário aparece quase como uma festa realizada no interior de uma máquina em turbulência.

A bandeira norte-americana, o punho, as algemas e as figuras humanas próximas desse centro permitem uma segunda leitura. Eu seria intelectualmente imprudente se afirmasse que cada figura representa necessariamente uma personalidade específica, porque a revista não forneceu uma chave completa de identificação para todos os personagens. Mas o eixo político é inequívoco: a edição tratava explicitamente das tensões internas dos Estados Unidos e de sua capacidade de continuar definindo regras internacionais. O punho pode sugerir mobilização, resistência ou poder; as algemas podem sugerir repressão, contenção ou conflito entre ordem e liberdade. Isso é interpretação visual, não informação oficial. Ainda assim, ela se torna mais plausível quando cruzada com o diagnóstico do Fórum Econômico Mundial de 2026, que colocou polarização social e desinformação entre os principais riscos de curto prazo. O relatório do WEF, produzido a partir de respostas de mais de 1.300 especialistas, encontrou um mundo no qual metade dos respondentes esperava um cenário “turbulento” ou “tempestuoso” nos dois anos seguintes. O conceito dominante era competição. Não harmonia.

É aqui que Antonio Gramsci se torna mais útil do que qualquer teoria de uma sala secreta onde homens desconhecidos controlariam o planeta. Gramsci pensava a hegemonia não apenas como coerção, mas como a capacidade de uma força social construir liderança política, cultural e moral suficiente para transformar sua visão de mundo em senso comum. Em seus Cadernos do Cárcere, o “bloco histórico” designa a articulação entre estruturas econômicas, forças sociais e formas culturais de liderança. O “Príncipe moderno” não é simplesmente um tirano individual, mas um organismo capaz de organizar vontade coletiva e construir hegemonia. A literatura acadêmica sobre Gramsci é bastante clara nesse ponto. Por isso, quando olho para a capa, não vejo um “novo príncipe” literalmente composto por Google, bancos, laboratórios e generais. Essa formulação iria além das evidências. Mas vejo algo que Gramsci nos ajuda a formular: poder econômico, infraestrutura digital, produção de conhecimento, segurança militar, saúde, entretenimento e capacidade de definir narrativas estão cada vez mais entrelaçados. Quem controla infraestrutura não controla automaticamente a sociedade. Quem controla informação não controla automaticamente pensamentos. Mas ambos possuem vantagens estruturais gigantescas na batalha para definir possibilidades.

Essa é uma diferença essencial. O poder contemporâneo talvez seja mais bem compreendido não como um soberano absoluto escondido atrás das instituições, mas como uma arquitetura de dependências. Nós dependemos de plataformas para comunicar, de sistemas financeiros para transacionar, de nuvens digitais para armazenar dados, de cadeias logísticas para receber produtos, de satélites para navegação, de empresas farmacêuticas para determinados tratamentos, de semicondutores para quase toda infraestrutura tecnológica avançada. Nenhuma dessas dependências prova a existência de um governo mundial secreto. Mas todas criam assimetrias. E assimetria é uma das matérias-primas do poder.

Michel Foucault ajuda a aprofundar essa percepção, desde que eu não transforme Foucault em profeta de tecnologias que ele jamais conheceu. O conceito de biopoder aparece em sua análise da passagem de um poder soberano centrado no direito de tirar a vida para formas de poder interessadas em administrar, otimizar, classificar e regular a vida. A população torna-se objeto de conhecimento estatístico, sanitário, econômico e administrativo. A governamentalidade, por sua vez, diz respeito às racionalidades, procedimentos, cálculos e técnicas pelas quais se procura orientar condutas. A interpretação contemporânea mais rigorosa de Foucault enfatiza que o poder não está concentrado num único centro. Ele circula por instituições, práticas, saberes e relações sociais. Seu poder disciplinar utiliza observação, normalização e exame. Isso faz da capa um objeto extraordinariamente foucaultiano, embora Foucault jamais tenha comentado essa imagem: nela, o corpo humano, a informação, a saúde, a segurança e a tecnologia aparecem como objetos simultaneamente econômicos e políticos.

Mas existe uma correção necessária. A frase segundo a qual “o poder vence quando convence você de que é proteção”, frequentemente atribuída a Foucault em redes sociais, não apareceu nas fontes primárias e acadêmicas confiáveis que consultei. Não a trataria como citação de Foucault. Ela funciona como uma paráfrase moderna, mas atribuí-la literalmente ao filósofo enfraquece justamente o argumento que pretende fortalecer. O pensamento foucaultiano é mais sutil. Em The Subject and Power, ele descreve o poder como ação sobre ações possíveis e insiste que relações de poder pressupõem algum campo de liberdade e possibilidade de resistência. Isso é importante porque a versão apocalíptica na qual todos já estamos completamente controlados contradiz o próprio Foucault. Se não existe possibilidade de resposta, resistência ou reversão, já não estamos falando da mesma relação de poder que ele buscava analisar.

As seringas e os comprimidos espalhados pela capa são um dos exemplos mais claros dessa diferença entre símbolo verificável e extrapolação. A própria The Economist anunciou como um de seus dez temas “Ozempic, but better”, prevendo medicamentos GLP 1 mais baratos, mais acessíveis e em comprimidos. Essa previsão se materializou de maneira surpreendentemente concreta durante 2026. A FDA aprovou o orforglipron oral para controle de peso em adultos, e documentos regulatórios mostram também a presença de semaglutida oral destinada ao tratamento da obesidade. A Agência Europeia de Medicamentos recomendou a primeira formulação oral de Wegovy para controle de peso. A Organização Mundial da Saúde, por sua vez, publicou orientação específica sobre terapias GLP 1, reconhecendo sua eficácia, mas fazendo uma recomendação condicional por causa de incertezas de longo prazo, custo, preparação dos sistemas de saúde e problemas de equidade. Em julho de 2026, a OMS alertou ainda para o crescimento do uso fora de indicações clínicas e para a obtenção desses medicamentos por canais informais, fenômeno amplificado por marketing e redes sociais. Portanto, não é necessário falar de programação secreta do metabolismo para reconhecer que algo profundo está acontecendo: o peso corporal transformou-se simultaneamente em problema médico, mercado gigantesco, marcador estético, questão de saúde pública e terreno de disputa cultural.

Eu chamaria isso de medicalização da otimização, mas com uma ressalva. Tratar obesidade clinicamente não é, em si, dominação. A obesidade é uma doença crônica associada a morbidade e mortalidade significativas, e negar tratamentos eficazes em nome de uma crítica abstrata à indústria farmacêutica seria tão irresponsável quanto promover medicamentos como solução mágica. O ponto foucaultiano aparece quando a lógica do tratamento se expande para a lógica da performance. O corpo não é apenas curado. Ele é mensurado, comparado, aperfeiçoado, monitorado e colocado diante de padrões cada vez mais específicos de produtividade e aparência. Quando saúde, estética, rendimento esportivo, mercado e identidade começam a se misturar, surge uma pergunta política nova: quem define o corpo considerado adequado?

É por isso que a proximidade entre pílulas, seringas e esporte na capa é particularmente interessante. A própria edição também dedicou atenção aos Enhanced Games, competição concebida em torno da permissão de determinadas substâncias de aumento de desempenho. A questão editorial era provocadora: onde termina o tratamento e começa o aprimoramento? Onde termina a medicina e começa a engenharia de performance? Essa discussão deve crescer em 2027. Minha estimativa subjetiva, não uma probabilidade estatística produzida por modelo, é de aproximadamente 80% de chance de que a normalização de terapias GLP 1 e outros fármacos metabólicos se torne uma das grandes transformações sociais de 2027, com expansão de uso, queda relativa de preços, disputa por cobertura de sistemas de saúde e debates crescentes sobre indicação, estética e desigualdade. A probabilidade de isso constituir uma “ditadura farmacológica” coordenada, entretanto, eu colocaria abaixo de 15%. O cenário mais plausível é menos cinematográfico e mais complexo: competição empresarial, demanda social, medicina baseada em evidências, marketing agressivo, regulação imperfeita e desigualdade de acesso ocorrendo ao mesmo tempo.

O cérebro conectado, o controle de videogame, os dispositivos, os robôs e as estruturas tecnológicas formam outro núcleo da imagem que frequentemente recebe interpretações exageradas. Não encontrei fundamento editorial suficiente para dizer que aquele cérebro é uma previsão específica de implantes cerebrais ou de “controle mental”. A edição mencionava videogames e inteligência artificial, e o cérebro conectado a dispositivos pode funcionar perfeitamente como símbolo dessas transformações. Isso não significa que interfaces cérebro computador sejam irrelevantes. Significa apenas que não devo transformar uma possibilidade tecnológica real numa intenção secreta que a imagem não demonstra. O salto lógico entre “existe uma representação de cérebro e cabos” e “as elites anunciaram controle dos pensamentos” é enorme e não é sustentado pela evidência disponível.

Há, porém, uma transformação real que talvez seja mais importante que o imaginário do chip cerebral. A inteligência artificial tornou-se infraestrutura. O investimento das grandes empresas de tecnologia em centros de dados alcançou escala econômica extraordinária. A Agência Internacional de Energia estimou que o investimento de capital de apenas cinco grandes empresas de tecnologia, que já havia superado 400 bilhões de dólares em 2025, poderia aumentar cerca de 75% em 2026. A mesma agência calcula que a densidade energética de racks avançados de IA poderá quadruplicar novamente até 2027 em relação a 2025, pressionando redes elétricas, transformadores, baterias, geração e cadeias de suprimento. Quando eu olho para a mistura de cérebro, máquina, energia e infraestrutura na capa, é aí que encontro o verdadeiro poder material da IA. Não é necessário que um algoritmo leia pensamentos. Basta que sistemas algorítmicos se tornem intermediários de informação, trabalho, educação, crédito, publicidade, segurança, busca, criação cultural e administração pública.

Para 2027, eu atribuiria cerca de 85% de probabilidade a uma continuação do investimento maciço em infraestrutura de IA e pelo menos 75% de probabilidade de que energia, capacidade elétrica e acesso a chips se tornem temas ainda mais explicitamente geopolíticos. A própria IEA projeta demanda global de eletricidade crescendo 3,8% em 2027 e cita a expansão dos centros de dados entre os motores estruturais desse avanço. O futuro da IA, portanto, não está apenas no software. Está em eletricidade, cobre, semicondutores, água, terras, redes de transmissão, baterias e capacidade industrial. É uma inteligência aparentemente imaterial sustentada por uma base material imensa.

É nesse ponto que eu utilizaria uma expressão que não é de Foucault, mas minha: algoritmopolítica. Não para sugerir que algoritmos passaram a governar sozinhos, e sim para descrever um ambiente em que decisões sociais passam crescentemente por sistemas de classificação, recomendação, previsão e geração automática. Quem será visto, quem será contratado, qual conteúdo circulará, quais riscos serão identificados, que informação será considerada relevante e quais comportamentos serão incentivados são questões cada vez mais mediadas por software. Isso aproxima o presente da preocupação foucaultiana com a condução das condutas, mas com uma diferença decisiva: a observação não se limita à torre panóptica. Ela pode estar distribuída em bilhões de dispositivos.

Ainda assim, 2027 não tende a ser simplesmente o ano do triunfo irrestrito desse poder. Será também o ano de sua regulamentação. Na União Europeia, partes importantes do AI Act já começaram a ser aplicadas e fiscalizadas em agosto de 2026, incluindo regras de transparência e obrigações relacionadas a modelos de uso geral. O calendário europeu prevê para dezembro de 2027 a aplicação de regras para vários sistemas considerados de alto risco em áreas como emprego, educação, biometria, infraestrutura crítica, migração e serviços essenciais. Por isso, atribuo cerca de 80% de probabilidade a que 2027 seja marcado por conflitos intensos entre velocidade tecnológica e capacidade regulatória. O debate não será simplesmente “IA sim” ou “IA não”. Será quem responde quando uma IA erra, quem pode auditar seus modelos, quais dados podem ser utilizados, quem deve marcar conteúdos sintéticos e até onde autoridades podem restringir aplicações consideradas perigosas.

Os satélites, foguetes, drones, navios, submarinos e armas espalhados pela esfera da capa também não precisam de interpretação esotérica. O próprio texto editorial previa que a linha entre guerra e paz se tornaria mais difusa e que tensões cresceriam não apenas no território tradicional, mas no Ártico, na órbita terrestre, nos fundos oceânicos e no ciberespaço. Essa formulação é extraordinariamente importante porque descreve uma transformação da guerra. O conflito moderno não começa necessariamente com uma declaração formal e não termina necessariamente com um tratado. Pode envolver sabotagem digital, interferência em cabos submarinos, drones, pressão econômica, operações de informação, bloqueios tecnológicos, sanções, espionagem orbital e ações que permanecem abaixo do limiar que obrigaria uma resposta militar convencional.

Carl Schmitt ajuda a compreender por que isso é politicamente explosivo. Em O Conceito do Político, a distinção entre amigo e inimigo ocupa lugar central na definição schmittiana do político. Em Teologia Política, a soberania aparece ligada à capacidade de decidir sobre a exceção. Essas ideias precisam ser utilizadas com extremo cuidado, inclusive porque Schmitt posteriormente se vinculou ao regime nazista e sua teoria contém consequências autoritárias profundamente problemáticas. Mas sua pergunta permanece incômoda: quem decide quando a normalidade acabou? No mundo da guerra híbrida, essa decisão tornou-se mais difícil. Quando um cabo é cortado, quando uma rede elétrica é atacada, quando um satélite é cegado, quando uma eleição sofre interferência informacional ou quando uma empresa é impedida de comprar determinada tecnologia por razões de segurança nacional, estamos em paz ou em guerra?

É nesse sentido que eu considero plausível falar em normalização da exceção, mas não afirmaria que existe um “estado de exceção planetário” uniforme. Estados continuam possuindo instituições, leis, eleições, tribunais e conflitos internos muito diferentes. O que existe é uma multiplicação de situações excepcionais que tornam extraordinário e ordinário cada vez mais difíceis de separar. Crises sanitárias, guerras, ataques cibernéticos, terrorismo, eventos climáticos extremos e rupturas de infraestrutura criam demandas por poderes especiais. Algumas são justificáveis. Outras podem ser abusadas. O problema sério não é dizer que qualquer proteção é tirania. É perguntar quais proteções permanecem limitadas, fiscalizadas, reversíveis e submetidas a controle democrático.

Quando observo os tanques e mísseis, os números contemporâneos dão à imagem uma densidade que nenhuma interpretação puramente estética consegue capturar. O SIPRI calculou que os gastos militares mundiais chegaram a aproximadamente 2,887 trilhões de dólares em 2025, o maior valor já registrado em sua série, depois de onze anos consecutivos de aumento. O gasto europeu aumentou 14% naquele ano, enquanto Ásia e Oceania cresceram 8,1%. O próprio SIPRI Yearbook 2026 alertou que Estados estavam atribuindo novamente maior centralidade às armas nucleares e que os riscos de erro de cálculo e escalada estavam crescendo. Isso transforma minha previsão para 2027: eu atribuo cerca de 80% de probabilidade a que o gasto militar global permaneça em patamar historicamente muito elevado e cerca de 70% de probabilidade a que a zona cinzenta entre guerra e paz continue se expandindo. O cenário que considero menos provável, embora não desprezível, é uma guerra direta e aberta entre as maiores potências. Justamente porque o custo seria gigantesco, a competição tende a migrar para sanções, tecnologia, proxies, mares, ciberespaço, influência econômica e infraestrutura.

O navio cargueiro presente na imagem é talvez menos dramático que o míssil, mas pode ser ainda mais revelador. O comércio internacional deixou de ser apenas comércio. Semicondutores, minerais críticos, baterias, energia, plataformas digitais, sistemas de pagamento e cadeias logísticas são tratados cada vez mais como componentes de segurança nacional. O Fórum Econômico Mundial colocou a confrontação geoeconômica como principal risco imediato de 2026 e também como primeiro risco no horizonte de dois anos. Dezoito por cento dos especialistas pesquisados a consideraram o risco mais provável de desencadear uma crise global material em 2026. Isso não significa que 18% seja a probabilidade de uma crise. Significa que, entre os riscos avaliados, esse foi o mais citado pelos respondentes. A distinção estatística importa.

Minha estimativa para 2027 é de cerca de 75% a 85% de probabilidade de continuidade da fragmentação geoeconômica: mais controles de exportação, subsídios industriais, restrições tecnológicas, políticas de segurança econômica e esforços para reduzir dependências estratégicas. Não significa fim da globalização. Significa outra globalização. Menos organizada exclusivamente pela eficiência e mais condicionada por segurança, alianças, redundância e autonomia. O container da capa, assim, deixa de ser apenas mercadoria. Torna-se geopolítica em aço.

O cifrão, os gráficos e as imagens financeiras conduzem a outro eixo central. A The Economist chamou atenção, já em novembro de 2025, para o risco de uma crise no mercado de títulos associada a países ricos vivendo acima de suas possibilidades fiscais. Um ano depois, o Fundo Monetário Internacional mantém preocupação semelhante. Em outubro de 2026, o FMI alertou que dívida elevada, juros maiores e pressões persistentes de gasto estavam aumentando riscos fiscais. Dados do Fundo mostram que os rendimentos dos títulos soberanos de dez anos do G7 haviam aumentado mais de um ponto percentual entre fevereiro e setembro de 2026, chegando ao maior nível médio em quase duas décadas. O FMI projeta que a dívida pública mundial ultrapasse 100% do PIB global até o fim da década.

Para 2027, entretanto, eu não colocaria uma crise global de dívida como cenário central. Minha probabilidade subjetiva seria algo entre 25% e 35% para um episódio grave de desorganização em algum grande segmento soberano ou financeiro, mas acima de 70% para volatilidade recorrente, pressão fiscal e episódios de reprecificação dos títulos. É uma distinção importante. O sistema pode passar anos sob tensão sem necessariamente quebrar. O FMI projeta crescimento mundial de 3,4% em 2027 depois de 3,1% em 2026, embora enfatize riscos vindos de conflitos, tensões comerciais, fragilidades fiscais e uma possível reavaliação das expectativas sobre inteligência artificial. A OCDE trabalha com um número mais baixo, 3,0% para 2027. A diferença entre essas projeções é um lembrete de que previsões econômicas não são destinos. São cenários condicionados às informações disponíveis.

A imagem do gráfico atravessado por espadas é, para mim, uma das metáforas mais fortes da capa. Mercado e conflito estão se fundindo. Moeda pode ser instrumento de poder. Tarifa pode ser arma. Tecnologia pode ser embargada. Reservas financeiras podem ser congeladas. Infraestrutura pode ser sancionada. Cadeias produtivas podem ser reorganizadas não porque isso maximiza eficiência, mas porque reduz vulnerabilidade estratégica. Carl Schmitt reaparece aqui de maneira indireta: a distinção amigo e inimigo invade o domínio econômico. Empresas são pressionadas a escolher ecossistemas tecnológicos. Países tentam produzir internamente aquilo que antes compravam no mercado mundial. O que antes se chamava simplesmente de política industrial passa a carregar a linguagem da segurança nacional.

A China é inevitável nessa leitura, não porque qualquer personagem específico da capa precise ser identificado como seu líder, mas porque a própria edição colocou “a oportunidade da China” entre os dez temas do ano. A The Economist argumentava que a política “America First” poderia abrir espaço para Pequim ampliar sua influência, mesmo enfrentando problemas próprios, como crescimento mais lento, pressões deflacionárias e excesso de capacidade industrial. O cenário de 2027 provavelmente será menos uma substituição simples dos Estados Unidos pela China e mais uma ordem de sobreposição. Estados médios procurarão manter relações simultâneas com Washington, Pequim, Bruxelas, Nova Déli e outras capitais. O próprio Fórum Econômico Mundial registrou que 68% dos especialistas consultados esperavam uma ordem multipolar ou fragmentada no horizonte de dez anos. A palavra chave não é sucessão. É fragmentação.

Por isso considero exagerada a afirmação de que a nova hegemonia é simplesmente “pós nacional e pós-democrática”. Estados continuam controlando tributação, polícia, forças armadas, legislação, fronteiras e parte significativa da infraestrutura. O que está acontecendo é mais ambíguo. Empresas privadas possuem capacidades que antes pertenciam apenas a Estados, ao mesmo tempo em que Estados utilizam empresas para alcançar objetivos estratégicos. Plataformas globais influenciam comunicação política, enquanto governos tentam regulá-las. Empresas de satélite tornam-se relevantes para guerras. Fabricantes de chips tornam-se peças diplomáticas. Laboratórios tornam-se atores de saúde pública. Essa arquitetura híbrida é mais difícil de compreender do que a velha imagem do Estado soberano, mas não significa desaparecimento do Estado. Significa sua recomposição.

É nessa recomposição que a relação entre a The Economist e o Fórum Econômico Mundial precisa ser tratada com rigor. A revista não é o Fórum. O WEF é uma fundação sem fins lucrativos sediada em Genebra que reúne empresas, governos, organizações internacionais, acadêmicos e entidades da sociedade civil em iniciativas de cooperação público-privada. A The Economist pertence a uma estrutura empresarial distinta. O Economist Group declara possuir salvaguardas que impedem uma pessoa ou empresa de controlar mais da metade do capital e limitam direitos de voto; a Exor possui participação relevante, mas existe uma estrutura de trustees destinada formalmente a proteger a independência editorial. Isso não impede críticas a interesses de classe, visão de mundo, seleção de temas ou proximidade cultural com círculos empresariais e políticos. Apenas significa que chamar revista e WEF de uma única organização ou de um mesmo “comando” vai além das evidências.

Posso, contudo, dizer algo mais interessante. As agendas convergem porque ambas observam as mesmas estruturas. O WEF chamou 2026 de uma “era de competição” e colocou confrontação geoeconômica, conflito armado entre Estados, clima extremo, polarização e desinformação entre os riscos imediatos mais importantes. A The Economist, meses antes, havia organizado sua capa precisamente em torno de guerra, comércio, IA, clima, política, saúde e economia. Essa convergência não prova coordenação secreta. Ela pode simplesmente indicar que instituições diferentes, compostas por pessoas que acompanham os mesmos dados internacionais, identificam os mesmos vetores sistêmicos. E isso é suficientemente importante por si só.

Os elementos climáticos, o gelo, a água e as imagens de instabilidade ambiental apontam para outro campo onde a realidade ultrapassou a metáfora. A Organização Meteorológica Mundial estima 91% de probabilidade de pelo menos um ano entre 2026 e 2030 ultrapassar temporariamente 1,5 grau Celsius acima da média pré-industrial, e 86% de probabilidade de um desses anos superar 2024 como o mais quente já registrado. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente afirmou em seu Emissions Gap Report 2026 que a ultrapassagem de 1,5 grau tornou-se, nas trajetórias atuais, praticamente inevitável no curto prazo. O relatório calcula que, para voltar a uma trajetória compatível com 1,5 grau após uma ultrapassagem limitada, as emissões globais de gases de efeito estufa precisariam cair aproximadamente 18% até 2030 em relação a 2025.

Por isso, se eu tivesse de atribuir uma probabilidade à presença do clima como força desestabilizadora em 2027, ela estaria acima de 90%. Isso não significa 90% de chance de um desastre específico. Significa que é extremamente provável que ondas de calor, enchentes, secas, incêndios, custos de seguro, infraestrutura de adaptação, agricultura e energia continuem ocupando posição central na agenda internacional. Ao mesmo tempo, a capa não deve ser lida apenas como narrativa de colapso. A IEA estima que a geração elétrica renovável ultrapasse o carvão em 2026 e chegue a aproximadamente 37% do mix mundial em 2027. Existe crise climática e existe transição energética ao mesmo tempo. Mais uma vez, a realidade recusa explicações simples.

O jogador chutando o planeta talvez seja a imagem que melhor reúne todas essas tensões. Seu referente editorial direto é evidente: a Copa do Mundo de 2026 foi sediada conjuntamente por Estados Unidos, Canadá e México e a própria revista havia escolhido “sporting values” como um dos seus dez eixos. Não há evidência de que o jogador estivesse codificando campeão, resultado específico ou uma personalidade determinada. A leitura de que ele representa um mundo transformado em espetáculo, porém, pode ser filosoficamente produtiva quando identificada como interpretação e não como intenção confirmada do artista.

Guy Debord escreveu em A Sociedade do Espetáculo que o espetáculo não é simplesmente uma coleção de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. Essa formulação ajuda muito mais do que a ideia de mera “distração das massas”. Para Debord, o espetáculo é uma forma de organizar a experiência. E nosso mundo levou essa lógica para uma escala que ele não chegou a conhecer: acontecimentos políticos são consumidos como clipes; guerras produzem feeds; celebridades entram na política; políticos tornam-se influenciadores; tragédias competem por engajamento; atletas transformam-se em marcas; algoritmos escolhem o que merece nossa atenção. A questão não é que o futebol anestesie bilhões de pessoas enquanto uma cabala governa escondida. A questão mais profunda é que política, economia, entretenimento e identidade passaram a disputar o mesmo recurso escasso: atenção.

É aí que a imagem do jogador chutando o globo se torna quase perfeita. Em 2027, eu atribuo algo próximo de 90% de probabilidade de que a economia da atenção continue se fundindo com a política de maneira ainda mais profunda. A inteligência artificial generativa reduzirá o custo da produção de imagens, vídeos, textos e vozes sintéticas. As regras europeias de transparência para determinados conteúdos produzidos por IA já começaram a entrar em vigor, justamente porque a distinção entre registro e fabricação está se tornando socialmente relevante. O Fórum Econômico Mundial colocou desinformação em segundo lugar no horizonte de dois anos e insegurança cibernética em sexto. Isso significa que a batalha não será apenas por território ou capital. Será pela credibilidade da própria realidade.

Quando eu junto Debord e Foucault, chego a uma formulação que considero mais poderosa do que a ideia de uma tirania clássica. O poder do século XXI não precisa necessariamente ordenar que todos façam a mesma coisa. Ele pode estruturar ambientes nos quais determinadas escolhas se tornam mais prováveis, mais lucrativas, mais visíveis ou mais confortáveis que outras. Debord me ajuda a compreender a mediação pela imagem. Foucault me ajuda a compreender a condução das condutas. Gramsci me ajuda a compreender como o consentimento é culturalmente produzido. Schmitt me obriga a perguntar quem define o inimigo e quem decide a exceção. Nenhum desses autores, isoladamente, explica 2027. Juntos, porém, formam um conjunto extraordinário de lentes.

Ainda assim, há uma diferença decisiva entre lente e prova. A existência de câmeras, satélites, IA, medicamentos, bancos de dados e algoritmos não demonstra um plano unitário de “gestão total”. Ao contrário, grande parte do mundo contemporâneo pode ser compreendida como competição entre atores que frequentemente possuem interesses incompatíveis. Estados Unidos e China não controlam juntos um mesmo sistema político. Empresas de IA competem ferozmente. União Europeia, Estados Unidos e China possuem modelos regulatórios diferentes. Empresas e governos entram em conflito. Tribunais limitam políticas. Cidadãos resistem. Tecnologias são apropriadas de maneiras inesperadas. O poder é real, mas a fragmentação também é.

É por isso que minha probabilidade de uma espécie de tecnocracia global unificada em 2027 é baixa, abaixo de 10%. Já a probabilidade de expansão fragmentada de sistemas de vigilância, monitoramento, IA e coleta de dados eu colocaria acima de 80%. Essa diferença muda tudo. Um “governo mundial digital” exigiria coordenação política e institucional que simplesmente não vemos em escala global. Um planeta de Estados, empresas e organizações diferentes adotando tecnologias cada vez mais capazes de observar, classificar e influenciar pessoas, porém, já é uma realidade em formação. A ameaça mais plausível não é uma única máquina central. São milhares de sistemas sobrepostos, alguns públicos, outros privados, poucos realmente compreendidos pelos cidadãos afetados.

A guerra cibernética reforça essa perspectiva. O Global Cybersecurity Outlook 2026 do WEF informou que 87% dos respondentes identificaram vulnerabilidades relacionadas à inteligência artificial como o risco cibernético de crescimento mais rápido observado em 2025, enquanto 64% das organizações pesquisadas incorporavam ataques geopoliticamente motivados às suas estratégias de mitigação. Para 2027, atribuo cerca de 85% de probabilidade de que ataques, fraudes e operações de influência alimentadas por IA se tornem ainda mais baratos e sofisticados. Isso colocará governos e empresas diante de uma contradição: a mesma inteligência artificial que amplia defesa também amplia ataque. O mesmo sistema que detecta fraude pode produzir fraude. O mesmo modelo que identifica desinformação pode criar desinformação.

A fronteira militar da inteligência artificial talvez seja ainda mais séria. Em agosto de 2026, o secretário geral das Nações Unidas e a presidente do Comitê Internacional da Cruz Vermelha renovaram o pedido por regras internacionais específicas para sistemas de armas autônomas, alertando para o risco de decisões letais cada vez mais entregues a máquinas. Quando a capa coloca armas e máquinas no mesmo campo visual, não é preciso inventar uma mensagem escondida. A questão já está explicitamente diante do direito internacional: até que ponto sistemas computacionais podem selecionar ou atacar alvos sem controle humano significativo?

A minha previsão mais importante para 2027, portanto, não é de que algoritmos substituam governos. É que a capacidade de governar algoritmos se torne uma das medidas fundamentais da soberania. Países que não controlarem chips, energia, nuvens, dados, redes, talentos e normas dependerão de quem controla. A soberania do século XIX dependia de território, população e exército. A soberania de 2027 continuará dependendo desses elementos, mas acrescentará infraestrutura computacional. O novo mapa do poder não é apenas geográfico. É energético, informacional e tecnológico.

E o dinheiro atravessa tudo. Construir centros de dados exige capital. Financiar defesa exige dívida. Adaptar cidades ao clima exige investimento. Produzir medicamentos exige pesquisa e cadeia industrial. Construir redes elétricas exige trilhões ao longo do tempo. A economia global chega a 2027 submetida simultaneamente a duas forças que o FMI descreveu em outubro de 2026: o choque negativo associado a guerras e energia e o impulso positivo associado ao investimento em tecnologia e inteligência artificial. É uma combinação profundamente instável. Uma bolha de IA poderia produzir correções financeiras intensas, mas ganhos genuínos de produtividade poderiam sustentar parte das avaliações. Por isso, eu atribuiria cerca de 40% de probabilidade a uma correção significativa nos ativos mais dependentes de expectativas extraordinárias sobre IA em 2027, mas menos de 20% a um colapso tecnológico comparável, em impacto sistêmico global, à crise financeira de 2008. São probabilidades analíticas, abertas a revisão, não profecias.

Esse cuidado com probabilidades me parece uma resposta mais madura ao fascínio provocado pela capa. Uma imagem criada em 2025 contém tanques, comprimidos, dinheiro, satélites e futebol. Quando 2026 produz guerras, medicamentos, conflitos financeiros, programas espaciais e Copa do Mundo, é tentador dizer “eles sabiam”. Mas muitos desses fenômenos já eram visíveis quando a arte foi produzida. A Copa tinha data marcada. O aniversário dos Estados Unidos também. As pesquisas de GLP 1 estavam avançadas. As guerras já existiam. O investimento em IA já era enorme. A corrida armamentista já estava em curso. O verdadeiro talento prospectivo consiste em distinguir tendências persistentes de ruído, não em prever magicamente aquilo que não possuía antecedentes.

Talvez seja exatamente isso que a frase “The Economist nunca erra a velocidade” possa significar sem cair na superstição. Ela percebe acelerações. Em 2026, tecnologia acelerou. Rearmamento acelerou. Fragmentação geoeconômica acelerou. Medicalização acelerou. A demanda energética da computação acelerou. A produção de conteúdo sintético acelerou. O problema climático acelerou. O uso político da economia acelerou. O próprio WEF fala explicitamente de riscos crescendo em escala, interconexão e velocidade. A capa é eficaz porque transforma todas essas acelerações numa única impressão visual de mundo sem repouso.

Eu não chamaria essa esfera de caos administrado. Chamaria de complexidade disputada. A diferença importa. “Caos administrado” sugere que alguém controla o caos. “Complexidade disputada” reconhece que Estados, empresas, movimentos sociais, investidores, cientistas, militares, organismos internacionais e cidadãos tentam influenciar resultados sem que nenhum deles possua controle total. Grandes atores têm recursos imensamente desiguais, mas não são onipotentes. Essa é uma imagem menos cinematográfica do poder e, ao mesmo tempo, mais difícil de combater, porque não existe um único interruptor que possa ser desligado.

O medo, naturalmente, continua politicamente poderoso. Schmitt nos mostra como a exceção pode expandir autoridade. Foucault mostra como segurança e administração podem penetrar profundamente a vida social. Gramsci mostra que nenhuma hegemonia duradoura depende apenas de coerção. Debord mostra que a realidade social pode ser mediada por representações que organizam nossos desejos. Mas nenhum deles autoriza a conclusão automática de que proteção é fraude, medicina é dominação, tecnologia é controle ou entretenimento é manipulação. A pergunta madura é sempre a mesma: sob quais instituições, com quais limites, com quais interesses, com quais mecanismos de responsabilização e com qual possibilidade de contestação?

Para mim, essa é a verdadeira decodificação da capa.

O bolo de 250 anos fala de uma potência obrigada a redefinir sua identidade enquanto a ordem que ajudou a fundar se fragmenta. O punho e as algemas falam, em linguagem simbólica, da tensão permanente entre mobilização, autoridade e liberdade. Os tanques, mísseis, navios e foguetes falam de um sistema internacional mais militarizado. O cargueiro fala de um comércio transformado em instrumento geopolítico. O satélite fala de uma infraestrutura orbital que já é econômica e estratégica. Os gráficos e cifrões falam de dívida, juros e rivalidade financeira. Os comprimidos e seringas falam de uma revolução biomédica que pode melhorar milhões de vidas enquanto cria novas perguntas sobre acesso, corpo e performance. O cérebro, o controle e as máquinas falam de inteligência artificial, jogos, cognição e da transformação da informação em infraestrutura. O gelo e os sinais ambientais falam de um clima que já ultrapassa antigos parâmetros de estabilidade. O jogador fala de esporte, espetáculo e atenção. E a esfera inteira fala de uma época em que nenhum desses domínios pode mais ser compreendido isoladamente.

Se eu transformar essa leitura numa previsão condensada de 2027, vejo um ano com probabilidade muito alta de continuidade da competição geoeconômica, da expansão da IA, da disputa regulatória, da pressão climática, do uso crescente de medicamentos metabólicos e da militarização tecnológica. Vejo probabilidade alta de conflitos híbridos e cibernéticos, mas probabilidade menor de confronto militar direto entre grandes potências. Vejo probabilidade alta de volatilidade dos mercados soberanos, mas menor de colapso financeiro sistêmico. Vejo probabilidade muito alta de que dados, energia e capacidade computacional se tornem ainda mais decisivos para a soberania. Vejo probabilidade alta de que a distinção entre conteúdo humano e sintético se transforme em problema político cotidiano. Vejo probabilidade crescente de que saúde e aprimoramento se confundam. E vejo probabilidade baixa de que tudo isso seja coordenado por um centro único de comando mundial.

A ironia é que essa interpretação talvez seja mais inquietante do que a conspiração. Uma conspiração tem autores identificáveis. Sistemas complexos não. Uma conspiração pode ser exposta. Uma arquitetura de incentivos, dependências e tecnologias pode continuar funcionando sem que nenhum ator tenha desenhado o resultado final. Às vezes o poder não precisa conspirar. Basta que estruturas econômicas recompensem determinados comportamentos, que governos respondam a determinados riscos, que consumidores aceitem determinadas conveniências e que tecnologias transformem lentamente aquilo que parecia impossível em rotina.

É aqui que Foucault volta com toda a sua força. A forma mais sofisticada de poder não é necessariamente aquela que manda. Pode ser aquela que organiza o campo dentro do qual escolhemos. Mas também é aqui que a caricatura de Foucault precisa ser abandonada. Se o campo pode ser organizado, ele também pode ser contestado. Regulação pode limitar vigilância. Democracias podem impor transparência. Tribunais podem restringir governos. Trabalhadores podem resistir. Usuários podem abandonar plataformas. Cientistas podem denunciar abusos. Sociedades podem decidir que determinadas tecnologias não devem ser utilizadas de determinadas maneiras. Poder e resistência existem na mesma relação.

É por isso que eu não terminaria essa leitura dizendo que 2027 será o ano em que a liberdade morrerá sob algoritmos, farmacologia e medo. Essa frase é dramaticamente atraente, mas concede ao poder uma onipotência que ele não possui e aos cidadãos uma passividade que a história não confirma. Minha previsão é mais contraditória. 2027 provavelmente ampliará simultaneamente capacidade de controle e capacidade de emancipação. A mesma IA poderá vigiar e democratizar conhecimento. O mesmo medicamento poderá aliviar doença e alimentar padrões compulsivos de performance. O mesmo satélite poderá coordenar um ataque e prever um desastre. A mesma rede poderá espalhar propaganda e documentar um abuso. A mesma infraestrutura digital poderá concentrar poder e conectar resistência.

Talvez seja por isso que a capa parece tão caótica. Ela não representa simplesmente um futuro em que alguém venceu. Representa um futuro em que quase tudo se tornou campo de disputa.

E essa, para mim, é a grande transição de 2026 para 2027. Não estamos entrando numa época sem ideologias. Estamos entrando numa época em que ideologia se incorpora à infraestrutura. Não estamos abandonando política pela tecnologia. Estamos tornando tecnologia política. Não estamos substituindo poder militar por algoritmos. Estamos conectando poder militar, econômico, biológico, energético e informacional. Não estamos deixando de lutar por território. Estamos acrescentando novos territórios: o chip, o genoma, a nuvem, a órbita, a rede elétrica, a atenção, o banco de dados e até as métricas pelas quais aprendemos a olhar para nós mesmos.

A capa de Andrew Rae não precisa ser um roteiro secreto para ser assustadoramente precisa em sua intuição central. Ela comprime uma civilização que descobriu como conectar praticamente tudo e ainda não descobriu como governar democraticamente todas essas conexões.

Essa será, acredito, a pergunta decisiva de 2027.

Não se os algoritmos governarão o mundo, mas quem governará os algoritmos. Não se a medicina modificará nossos corpos, mas quem decidirá quais modificações serão desejáveis, acessíveis e legítimas. Não se haverá vigilância, porque alguma forma dela já existe, mas quais limites sociedades livres conseguirão impor. Não se o conflito desaparecerá, mas se será possível impedir que a zona cinzenta entre paz e guerra se transforme em condição permanente. Não se o clima mudará, porque ele já mudou, mas quanto sofrimento ainda poderá ser evitado. Não se as grandes empresas e Estados tentarão moldar comportamentos, porque sempre tentaram, mas se cidadãos conservarão instituições capazes de fiscalizá los.

Quando chego ao fim dessa investigação, a capa deixa de parecer uma bola de cristal.

Ela se torna um espelho.

E talvez seja por isso que provoque tanto desconforto. O que vemos nela não é necessariamente aquilo que alguém pretende fazer conosco. Vemos aquilo que nós, coletivamente, já construímos: uma sociedade em que guerra, dinheiro, desejo, saúde, espetáculo, clima, informação e tecnologia estão presos à mesma esfera.

O verdadeiro enigma de 2027 não está escondido nos desenhos.

Está na pergunta sobre quem terá poder para decidir o que essa esfera fará quando for chutada.

 

Jp Santsil