A angústia toma conta de mim neste momento. Profunda, sufocante, dessas que fecham a garganta, apertam o peito e transformam até o simples ato de respirar em uma tarefa que exige esforço.
Crises durante a noite. Dores que não são minhas, mas que sinto como se fossem. Sofrimentos que absorvo sem saber de onde vêm e pelos quais, de alguma maneira, me sinto responsável. Como se já não bastasse carregar a minha própria existência, ainda me encarregasse de suportar aquilo que nem sequer sei resolver.
Medo, aflição, ódio, raiva, pavor.
Um verdadeiro festival de sentimentos. Faltou só a distribuição de senhas.
Como se não bastasse o fardo de viver a minha própria vida, que, convenhamos, nunca foi exatamente um comercial de margarina.
Nasci e, desde cedo, aprendi que a vida não costuma facilitar as coisas para todo mundo.
Tive um pai de merda. Um homem que não soube ser pai, que fez da minha mãe um alvo constante de desprezo e transformou o sofrimento em um membro permanente da família. Dentro de casa, o caos não precisava ser convidado. Já morava lá.
Hoje, odeio lembrar dele.
E o mais irônico é que não foi só desgraça. Ele também conseguiu dar algum amor. Pouco, torto, insuficiente, mas deu. Talvez seja justamente isso que complique tudo: a gente não sente falta apenas do que perdeu, mas também daquilo que deveria ter recebido e nunca recebeu como precisava.
Hoje, ele e o nada são praticamente a mesma coisa.
Digo praticamente porque ainda me resta algum sentimento. Uma espécie de pesar. Um sinto muito por você não ter sido o pai de que precisávamos.
Precisávamos, sim. Eu e minhas irmãs. Compartilhamos essa mesma decepção, esse mesmo desprezo por alguém que deveria ter sido referência, proteção, porto seguro.
Mas chega. Não quero falar dele.
Quero falar de mim. Do que sinto agora.
De um vazio difícil de explicar. De uma falta de sentido que aparece justamente quando olho para a minha vida e percebo que, apesar de tudo o que fiz, continuo ocupando praticamente o mesmo lugar de sempre.
Parece que esse é o meu limite.
O máximo que consigo alcançar.
Desde pequena, é assim: aos trancos, barrancos e porradas. Porradas grandes, desastrosas, infinitas. Sempre apanhando um pouco da vida para conseguir continuar vivendo.
E eu continuo.
Caio, levanto e sigo em frente, como manda o manual da pessoa forte. Aquele manual que ninguém pediu, mas que parece ser distribuído gratuitamente a quem não tem muita escolha.
O problema é que nunca sobra.
Ou falta, ou fica na conta.
E esse maldito equilíbrio entre o que entra e o que sai parece ser o máximo que consigo conquistar. Sobreviver sem grandes sobressaltos financeiros já deveria ser motivo de comemoração, eu sei. Afinal, há quem não tenha nem isso.
Mas, puta que pariu, será que é só isso?
É isso que me estraçalha. É isso que me angustia, que me deprime, que me faz questionar até onde vai a minha capacidade de continuar aceitando uma vida que, por fora, pode até parecer razoável, mas que, por dentro, me deixa tão insatisfeita.
Porque eu sou uma pessoa boa.
Quer dizer, boa é pouco. Sou EXCELENTE.
E não sou eu quem está dizendo, não. Ele sabe. Ele sabe de todas as coisas. Não há o que discutir.
Só não entendo muito bem os critérios de distribuição das oportunidades, mas imagino que o departamento responsável esteja ocupado.
Eu sei que tenho privilégios. Tenho saúde, uma família maravilhosa, embora também saiba causar seus próprios desastres, uma mulher incrível ao meu lado e um emprego que paga as minhas contas, apenas paga, porque não sobra.
Reconheço tudo isso.
Mas reconhecer o que tenho não me obriga a fingir que estou feliz.
Eu posso ser grata e estar insatisfeita. Posso reconhecer meus privilégios e ainda desejar mais. Posso entender que existem pessoas enfrentando problemas muito maiores que os meus e, mesmo assim, não achar que preciso pedir autorização para sentir a minha própria dor.
Afinal, eu não tenho nada a ver com a porra dos problemas do mundo inteiro.
Já tenho os meus.
E tenho o direito de não estar satisfeita. De querer crescer. De querer viver melhor. De querer que a vida seja mais do que pagar boletos e agradecer por ter conseguido pagá-los.
Só que existe o medo.
O medo de reclamar e perder até o pouco que tenho. Como se a vida estivesse esperando uma oportunidade para me dar uma lição de humildade.
Ah, está achando pouco? Então toma aqui mais um problema para aprender a valorizar.
E, olha, isso acontece. Acontece tanto que, às vezes, tenho a impressão de que passei mais tempo no fundo do poço ou tentando sair dele do que vivendo fora dele.
É uma espécie de assinatura vitalícia. Sem direito a cancelamento e, aparentemente, sem atendimento ao consumidor.
E chegamos ao meu emprego.
Ah, o meu maravilhoso emprego.
Aquele lugar para onde vou de segunda a sexta-feira, das sete da manhã às cinco da tarde, para experimentar, diariamente, uma das formas mais sofisticadas de tortura moderna: ter capacidade para fazer muito e não ter o que fazer.
Sim, você leu certo.
Não fazer nada.
E, antes que alguém pense que estou reclamando de barriga cheia, quero esclarecer: não é a falta de esforço que me incomoda. É a falta de sentido.
Eu gosto de trabalhar. Gosto de organizar, analisar, negociar, encontrar soluções, melhorar processos, reduzir custos, fazer as coisas funcionarem. Sei o que faço e sei o que ainda posso fazer.
Mas estou aqui, sentada, vendo as horas passarem, enquanto a minha cabeça poderia estar estruturando um setor inteiro.
Tenho um chefe que, na minha avaliação, entende muito pouco. Pessoas ao redor que não acrescentam absolutamente nada ao meu desenvolvimento e que, em alguns casos, parecem ter feito um curso intensivo de falta de educação.
Tem gente que bate de frente com você no corredor e não consegue pronunciar um simples bom dia.
Hoje, mentalmente, distribuo respostas que a minha educação me impede de verbalizar.
Vão se foder.
Vão à merda.
É quase um exercício de meditação. Inspira, expira e manda todo mundo tomar no cu apenas em pensamento.
E o melhor: faço tudo isso dentro de uma empresa que me contratou para trabalhar.
Pelo menos, foi o que me disseram.
Até agora, não consegui entender exatamente para quê.
Eu poderia ter estruturado processos, aprimorado controles, automatizado rotinas e reduzido os custos do setor em mais de 30%, considerando as oportunidades que identifiquei. Poderia ter colocado de pé melhorias que fariam diferença de verdade.
Mas, para isso, seria necessário que alguém quisesse enxergar além do próprio nariz.
O mundo está mudando. A tecnologia avança, a inteligência artificial já transforma a maneira como trabalhamos, a automação deixa de ser tendência para se tornar necessidade.
E tem gente imprimindo documento em folha A4 como se estivéssemos prestes a inaugurar a invenção da roda.
Puta que pariu.
Eu fiz relatórios excelentes. Análises consistentes. Apresentei propostas para melhorar o setor. Usei inteligência artificial para estruturar uma apresentação, sob a minha supervisão, com as informações e análises que eu mesma desenvolvi.
Ficou FODA.
E meu chefe?
Disse que precisava seguir o padrão da empresa.
Claro.
O padrão da empresa.
Porque nada diz mais sobre inovação do que uma boa ideia sendo gentilmente encaminhada para o cemitério dos arquivos padronizados.
O padrão deve ser respeitado. A criatividade, aparentemente, precisa preencher formulário, passar por três aprovações e aguardar retorno em até cinco dias úteis.
O mais curioso é que ele ficou impressionado com meus relatórios, minhas análises e minhas propostas.
Impressionado.
Mas, depois da impressão, nada aconteceu.
Absolutamente nada.
Talvez eu esteja esperando demais de um lugar que não tem a mesma ambição que eu. Talvez eu esteja tentando correr em um ambiente no qual andar devagar é considerado competência.
Ou talvez, simplesmente, eu tenha mais capacidade do que esse lugar consegue aproveitar. Olha que trabalho numa puta MULTINACIONAL.
Não sei.
O que sei é que estou cansada.
Cansada de procurar oportunidades e não encontrar nada que realmente avance. Cansada de tentar, de insistir, de acreditar que agora vai, só para descobrir que o agora resolveu ficar para depois.
Cansada de cair e levantar.
Se fosse de beber e cair, pelo menos talvez houvesse alguma diversão no processo.
Cair, levantar, beber água, pagar boleto e voltar para o trabalho.
Uma vida emocionante. Quase um pacote turístico.
E o pior é que eu não quero nenhuma extravagância absurda. Não estou pedindo uma mansão em Mônaco, um iate no Mediterrâneo ou um helicóptero para fugir do trânsito.
Quero crescer. Quero trabalhar com propósito. Quero ser bem remunerada pelo que sei fazer. Quero ter a sensação de que meus dias estão construindo alguma coisa.
Quero que sobre dinheiro no fim do mês.
Sim, SOBRAR.
Essa palavra linda, quase mitológica, que aparece nas conversas dos outros como se fosse uma realidade acessível.
Porque, por aqui, o dinheiro entra, visita a conta por alguns instantes e logo parte para cumprir seus inúmeros compromissos. Mal dá tempo de criar vínculo afetivo.
E eu fico.
Fico com as contas pagas, quando tudo dá certo, e com aquela sensação maravilhosa de que trabalhei mais um mês inteiro para continuar exatamente onde estava.
Que conquista extraordinária.
Que espetáculo de desenvolvimento pessoal.
Que vontade de aplaudir de pé.
Escrever tudo isso, pelo menos, está aliviando um pouco a ansiedade. Colocar em palavras o que sinto parece dar alguma forma a esse caos que fica rodando dentro da minha cabeça.
Talvez eu precise escrever mais vezes.
O curioso é que este é o meu primeiro post.
Logo eu, que detesto redes sociais.
Prefiro o anonimato. Não tenho a menor vontade de transformar a minha vida em uma vitrine, publicar fotografias cuidadosamente selecionadas e fingir que cada dia é uma experiência extraordinária.
Também não quero que as pessoas próximas descubram este espaço, comecem a me seguir e, por educação, eu tenha que retribuir, acompanhar suas vidas editadas e assistir a uma sequência interminável de fotografias, frases motivacionais e felicidade em alta resolução.
Tenho preguiça dessa merda toda.
A vida real já dá trabalho suficiente. Não preciso de uma segunda jornada para acompanhar a versão publicitária da existência alheia.
Hoje, eu só queria colocar para fora o que está aqui dentro.
Sem precisar parecer forte.
Sem precisar agradecer por tudo.
Sem precisar transformar sofrimento em aprendizado, fracasso em oportunidade ou exaustão em uma frase bonita sobre resiliência.
Às vezes, a gente não quer aprender nada.
Quer apenas que pare de doer.
E talvez seja isso que mais me canse: ter passado tanto tempo sendo forte que, em alguns momentos, nem sei mais como seria viver sem precisar ser.
Não sei quando as coisas vão mudar. Não sei quando uma oportunidade vai aparecer. Não sei se estou perto de uma virada ou apenas diante de mais uma curva que me levará de volta ao mesmo lugar.
Sei apenas que estou cansada de sobreviver com competência.
Queria, uma vez na vida, experimentar prosperar.
Sem precisar perder alguma coisa antes. Sem precisar atravessar mais uma tempestade para merecer um pouco de sol. Sem ter que provar, repetidamente, que sou capaz de suportar mais uma porrada.
Porque eu já provei.
A vida sabe.
E, sinceramente, já poderia ter arquivado esse processo.
Por hoje, é só.
Se a angústia voltar a me procurar — e conhecendo a insistência dessa desgraçada, provavelmente voltará —, talvez eu escreva novamente.
Pelo menos aqui posso falar o que penso sem precisar seguir o padrão da empresa.
Até.
Ou até a próxima crise existencial, o que vier primeiro.
