DESABAFO
Ainda parece estranho falar a respeito, mas vou publicar um livro. Anos atrás, eu pensava que só conseguiria essa coisa - nunca chamei de sonho - quando estivesse na melhor versão de mim mesmo. Pensava que a vida era uma escada: você sobe um pouco ou desce muito, mas sempre um ou outro. E depois tropeça e morre na queda. Quando subir os degraus necessários, imaginava o Davi com sua cabecinha de 17 anos, hei de ser um escritor diligente, que vive 20 horas da escrita, dorme 4 e sonha e acorda para escrever o que sonhou; poeta sensível, cirúrgico em cada palavra, criando a cada dia uma história mais fodidamente viciante que a outra. Praticamente um Stephen King sem cocaína. Pensava que teria orgulho dos meus poemas, contos e romances que escrevesse, eles seriam meus filhos, meu time de futebol, minha própria linha de ônibus, meu império onde se leria minhas palavras incríveis, mesmo que elas fossem ruins. Isso complica ainda mais considerando que, naquela época, só de imaginar em chegar no andar do "tornar-se um escritor", implicava já ter subido toda uma sorte de outros degraus: já teria passado o andar dos 6 gominhos claramente visíveis no abdômen; falar mais de três idiomas seria meta superada; autoestima sólida e confiável? Desce o elevador que você acha; amar alguém enquanto ama a si mesmo, ou seja lá o que as músicas cantam sobre amor próprio. Enfim, o título já entrega tudo.
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