Saí pra correr na praça
essa noite
e vendo um tesão
de descida vazia
dei um tiro espetacular.
Só não vi um velho
e seu cachorro sentados por ali.
O cão
sem razão nenhuma
rosnou e me perseguiu
e tive de correr feito mais-que-cão
enquanto o dono morria de rir.
Fugi, indignado.
Na outra volta, bufei ao ver
aquela inútil rolha de poço
e seu bicho sarnento.
Disparei
aquilo disparou comigo
latindo feito cão
o velho rindo, meu corpo queimando.
Escapei
e com as pernas bambas
emputeci.
No mesmo canto, de novo
eu não corria nem trotava
a coisa só rosnou e o cara riu.
Parei e disse
"Põe uma coleira nessa porra, babaca".
Ele levantou, agora calado.
Seu cachorro deitou, quieto também
ainda que tais silêncios
em nada parecessem.
Eu era maior, então fiquei suave.
"Vai fazer o quê, saco de merda?"
Disse, dois passos mais próximo
já sentindo seu cheiro de cachaça.
O guarda virou pra nós, sem nem se importar.
"Nem esse monte de pulgas me alcança"
Outro passo a frente
"Vais fazer o quê, saco de merda?"
Há tempos não brigava assim.
Ele puxou uma arma da cintura
"E isso, te alcança?"
"A bala, com certeza" pensei
recuando só os passos dados.
Ele me olhava impassível enquanto
meu perseguidor lambia as patas
Olhei o velho
depois seu revólver
que sequer devolveu um olhar
E, com apito na cintura
até o guarda olhou também
mas pro outro lado.
Vencido
saí dali
correndo
sem tiro algum.

