Lia uma revista
quando acabei o café
E
A fim de ler
meu futuro borrado
voltei-me à xícara
numa ansiedade sem açúcar.
Havia, entretanto
recusando a sina de borra
uma gota esnobe
na porcelana barata.
Ela nem era tanto
mas aquele pingo de audácia
inundava ml's tantos
que, sem mais palavra,
me revoltaram.
Quando indignado revirei
a vítima xícara goela abaixo
minha inimiga fez descaso
e feito lesma
escalou seu encalço
como anunciasse para nunca
meu gole planejado.
Ora
sem paciência pra
escorrê-la beirada afora
girei seu mundo ao redor de si
obstinado em reduzi-la a pórra
rodeando-a à sua própria volta.
Durante uma eternidade absurda
não deu sinal algum de cansaço
e ao rastejar uma volta inteira
pronta ainda pra mais
desisti na mesa
minha xícara tonteada.
A gota escorregou
E se fez
nada.
Instantes se foram
em que fui vitorioso
mas a gota deixou
no entorno
seu rastro vicioso.
Cansado desse retorno
todo sem fim
dei por ilegível
meu futuro conquistado
E
retornei à revista
amargo.

