Entrou acelerado, gritando em alto e bom tom:
- Todos com mão para cima!!!
Se sentiu como nos filmes hollywoodianos. Lembrou dos tempos que passava horas no sofá navegando entre um filme e outro. Pipoca, brigadeiro e até vinho sustentavam seu vício frenético. Gostava de histórias dramáticas, que lhe propunham um bom choro. Gostava de um romance bobo e final, se possível, com mais choro.
O atendente logo levantou as mãos sem titubear. Sua colega, em uma inexplicável atitude, impensada levantou, lentamente, como se nada estivesse acontecendo, devagar saiu. Estava com semblante pálido, todos acompanharam a cena atônitos, mas ninguém falou nada.
Foi tudo diferente, ninguém sabia o que exatamente estava acontecendo. Muitos esconderam celulares e carteiras, outros apenas ficaram deitados esperando que tudo acabasse. Foram instantes que passaram como horas de um dia de trabalho chato. Os corajosos levantavam os olhos para tentar perceber o moço, mas logo desviavam. Somos assim, morremos de medo da morte. Morte essa, que nos bate à porta todos os dias, mas ninguém dá muita bola.
Carl estava tranquilo, como se sempre fizesse isso. Nunca fez. Nem pensou se realmente valeria a pena. Não quis voltar atrás. Não sentiu, sequer, medo. Alguma recordação de sua mãe veio em sua memória falando algo, mas ele manteve-se focado. Os batimentos eram como uma dança clássica, minuciosamente ensaiada, simétrica. Poderia sair dali andando e falar tranquilamente com a polícia.
O sol daquela manhã era especialmente ameno. Trazia um calor gostoso, convidativo. Carl gostava de sol. Suas melhores recordações foram acompanhadas pelo astro rei. Lembrou dos jogos de futebol no campo de terra batida. Um sorriso o invadiu, quem estivesse perto poderia ter visto, não conteve, deixou aparecer os dentes.
Um dos corajosos, em uma tentativa juvenil, arremessou-se repentinamente contra Carl, que, sem vacilo, atirou. O falecido, deixa mulher e filha. Gritos vazios açoitaram os orgulhosos machos de prontidão. O sangue espalhado na parede deu ar de obra de arte ao vazio amarelado.
A polícia não demorou a chegar. Logo a imprensa, sem demora, já estava com acampamento montado. Um fulano de tal disse qualquer coisa gritando. Carl nem sequer ouviu. Um novato da polícia, de primeira ocorrência, acabara de lustrar seu fino coturno. Escolheu a polícia porque era sonho de seu pai. O pai nem sequer estava em sua formatura, estava bêbado em um bar. Mesmo assim, o rapaz orgulhoso, agora vestia, com entusiasmo, a farda engomada. Sua pistola, calibre 9mm, reluzia em dia claro. Dias como esse. Como sinal de sua inteira devoção ao sonho do pai e a corporação, foi logo sacando a pistola assim que chegou na ocorrência. Sabia quase nada do que, realmente, estava acontecendo. Estava em êxtase com todo o alvoroço. Sabia que o meliante estava com uma camisa vermelha.
Carl nunca fez qualquer coisa parecida, há um momento que a imperícia é a autora de cenas fascinantes. O rapaz fardado deixou a arma em punho pronto para atirar. Carl, como se estivesse no controle, inclusive do tempo, mostrou a cara, assim como naquelas cabines de fotos, como se estivesse se apresentando ao público. Para imprensa um prato cheio. O tiro saiu, Carl caiu. O rapaz assustado com o próprio disparo, apontou a arma para o pé, sem querer descarregou, desmaiou.
Longe dali, uma menina, sete anos, assistia seu desenho infantil. Era o que lhe fazia esquecer a dor que sentia. Padecia de uma doença rara, um nome científico difícil. De repente o desenho é interrompido pela emissora. Uma mulher muito bem ajeitada, batom vermelho, pele clara, está ao vivo na rua. A menina reconhece o pai caído, em prantos desliga a TV. Carl havia se comprometido com a filha em conseguir o remédio tão caro. No postinho não tinha, o SUS não distribuía.
