O DIA DO SUSTO
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O DIA DO SUSTO

Confesso que nunca dormi com tanto medo.

A ideia de ser assaltado no meio da noite, dentro da minha própria casa, nunca havia passado pela minha cabeça. Até aquela noite.

Depois de terminar o meu treino de capoeira, fui andando de volta para casa. Eram nove horas da noite.

No meio do caminho, resolvi pregar uma peça na minha mãe e no meu irmão. A essa hora eles deviam estar vendo televisão deitados na cama e seria o máximo dar um susto neles.

Não pergunte nada sobre minhas razões, eu era um adolescente inconsequente e isso já bastava.

Naquela época, morávamos num pequeno barracão no fundo de um terreno onde havia um salão de beleza na frente. Ao lado, havia um portãozinho que dava para um pequeno corredor a céu aberto que terminava na frente da casa.

Minha intenção era me passar por um ladrão e fingir um assalto. Segui com meu plano.

Para não chamar atenção, pulei o portãozinho e andei descalso pelo corredor até a lateral da casa.

Dei duas batidas fortes do lado de fora da janela do meu quarto. Esperei abaixado.

A luz do quarto foi logo acessa. Escutei minha mãe esbravejar: "quem está aí?"

Segurei o riso. A brincadeira não pararia por alí.

Dei a volta pela casa e joguei umas pedrinhas na janela do banheiro. Corri de volta para frente da casa e vi a sombra do meu irmão pela janela.

"Vou chamar a polícia" minha mãe gritou.

Seria o momento da minha cartada final. Fechei os dedos da mão e dei um soco na janela de vidro da sala. Infelizmente, não consegui dosar minha força e a janela espatifou na minha mão. Senti uma dor muito forte no meu antebraco.

Um pedaço do vidro havia rasgado minha pele logo abaixo do punho.

Olhei pela janela quebrada e vi minha mãe abraçada ao meu irmão. Pareciam dois fantasmas de tão brancos. A boca do coitadinho do Pedro estava sem cor.

Gritei para os dois: "Desculpa, desculpa!!! Sou eu. Rasguei meu braço."

A expressão de medo de minha mãe se transformou em ódio. "Você é louco menino".

Levei oito pontos. Voltamos do hospital no meio da madrugada. Perdi todas as regalias que eu tinha, incluindo as aulas de capoeira, e ainda fui obrigado a providenciar o conserto da janela e a lavar o banheiro durante um mês.

Mais o pior de tudo foi que dormi muito mal. Passei a noite toda arrependido e imaginando que alguém poderia entrar em casa a qualquer instante.