O Cálice Rubro da Lua de Sangue

O Cálice Rubro da Lua de Sangue

Minha Querida… Lua de mim rubramente encarnada!

Hoje me apareceste diferente. Não branca em tua prata habitual, não clara em tua doce e casta luz, não cheia apenas de beleza lunar, mas sangrentamente vestida de vermelho, como se tivesses mergulhado o teu corpo celeste em um cálice de sangue divino e retornado aos céus em outra condição de ser. Olho-te daqui, do meu flamejante centro solar, e não sei se te feriste, se te apaixonaste, se te sacrificaste, se te transmutaste ou se, simplesmente, revelaste aquilo que sempre escondeste debaixo da tua alva pele lunar.

Ó! Meu Amor… como estás bela!

Tua face rubra me inquieta. Me rasga. Me chama. Me arrasta para algum segredo que ainda não compreendi. E, por um instante, esqueço-me de que sou Sol, esqueço-me de que sou força, calor, potência e luz, e me sinto apenas um pobre amante distante, contemplando sua Amada atravessar uma sombra que não posso impedir.

Hoje a Terra inteira colocou-se entre nós.

Um mundo inteiro, Minha Querida.

Um mundo de pedras, águas, homens, mulheres, matas, desertos, choros, guerras, sementes, cidades e mortos. Toda uma esfera de existência se interpôs entre o meu fogo e a tua pele prateada, ocultando-me de ti e ocultando-te de mim.

E eu te vi entrar vagarosamente na sombra.

Vi tua face clara escurecer.

Vi tua luz desaparecer aos poucos.

Vi-te ser tomada por um negro que não era teu, mas do mundo.

E meu coração solar, tão acostumado a permanecer ardente, tremeu em sua própria chama.

Quis arrancar a Terra de nosso caminho.

Quis romper sua matéria.

Quis atravessar montanhas, oceanos, atmosferas e toda a pesada densidade que te escondia de mim.

Mas então compreendi uma lei maior.

Aquilo que o Amor não pode retirar do caminho, o Amor atravessa.

E atravessei.

Ó! Minha Lua… atravessei.

Atravessei os céus terrestres.

Atravessei poeiras, vapores, nuvens invisíveis.

Atravessei as camadas da atmosfera que envolvem a Terra como antigos véus de uma sacerdotisa planetária.

Minha luz partiu de mim dourada, clara, absoluta… e ao passar por todo esse mundo, foi sendo filtrada, ferida, depurada, avermelhada.

E quando finalmente te alcançou, já não era mais a mesma.

Cheguei a ti vermelho.

Cheguei a ti em sangue.

Cheguei a ti em amor transformado.

E tua face inteira recebeu em silêncio o meu rubro beijo.

Ó! Minha Amada… e os homens olharam para o céu e disseram que a Lua sangrava.

Como são pequenos diante do mistério!

Eles não sabiam que não era apenas sangue.

Era minha luz atravessando o mundo para chegar até ti.

Era meu ouro solar convertido em rubra oferenda.

Era minha claridade sendo transmutada na grande fornalha do espaço e da matéria.

Era o meu Amor entrando em tua sombra.

Hoje compreendo porque te chamam Lua de Sangue.

Porque há em ti algo que deixou de ser apenas celeste e tornou-se carne.

Tua branca pureza agora parece viva.

Tua pele, antes distante, agora parece pulsar.

Teu corpo, antes prateado e frio aos olhos dos homens, está quente de simbolismos, de úteros, de partos, de feridas, de paixão, de morte e nascimento.

Ó! Meu Amor, hoje és a Mulher Rubra.

A Sacerdotisa de Sangue.

Aquela que conhece a linguagem das águas internas.

Aquela que guarda o segredo dos ciclos.

Aquela que compreende que tudo aquilo que nasce vem do escuro.

Que toda semente germina escondida.

Que todo filho é gestado no silêncio de um ventre.

Que toda grande transformação acontece longe dos olhos do mundo.

És bela, Minha Querida.

Terrivelmente bela.

Porque tua beleza de hoje não acalma.

Ela inicia.

Ela desnuda.

Ela assusta.

Ela faz os antigos medos dos homens retornarem.

Imagino os povos de outrora te contemplando.

Vejo reis assustados.

Sacerdotes lendo sinais.

Guerreiros parando suas marchas.

Velhas mulheres acendendo ervas.

Crianças se escondendo no colo das mães.

Homens batendo tambores para afastar monstros imaginários.

Uns acreditando que jaguares te devoravam.

Outros que dragões te engoliam.

Outros que alguma divindade vingativa te transformava em sinal de morte, guerras e desgraças.

Mas eu, Meu Amor, que te conheço no íntimo do céu, sei que ninguém está te devorando.

Tu apenas desceste à sombra.

E há uma diferença sagrada entre ser destruída e ser transformada.

A sombra não te matou.

Apenas tirou de ti a antiga cor.

E que mistério é este, Minha Lua?

Tu entraste branca.

Foste ocultada no negro.

E apareceste vermelha.

Albedo.

Nigredo.

Rubedo.

Ó! Que alquimia celeste!

Que templo gigantesco é este céu!

Que grande atanor é essa sombra da Terra!

Que Obra secreta acontece diante dos olhos de milhões que apenas olham, mas não veem!

Tua prata encontrou o negro.

Meu ouro atravessou a matéria.

E da união nasceu o vermelho.

Ó! Minha Amada… isso é casamento.

Não casamento terrestre.

Não união de corpos que se possuem.

Mas sagrada coniunctio de princípios.

Sol e Lua.

Masculino e Feminino.

Fogo e água.

Ouro e prata.

Presença e receptividade.

Consciência e mistério.

E a própria Terra, que parecia ter vindo nos separar, transformou-se em sacerdotisa de nossa união.

Que sublime ironia!

Aquilo que nos separou foi aquilo que possibilitou uma nova forma de encontro.

Aquilo que se colocou entre nós coloriu o Amor.

Aquilo que parecia obstáculo tornou-se alquimia.

Ó! Minha Querida, quantas vezes fazemos isso também nos mundos interiores? Quantas vezes amaldiçoamos a sombra sem perceber que nela repousa o laboratório secreto da transformação? Quantas vezes queremos luz imediata quando é justamente o escuro que está cozendo em nós alguma nova substância espiritual?

Hoje tu me ensinas.

Tu, que sempre imaginei como minha Amada, hoje és também minha Mestra.

Ensina-me tua arte de desaparecer.

Eu, Sol, não sei desaparecer.

Estou sempre inteiro em mim.

Eu ardo.

Eu irradio.

Eu me lanço.

Tu não.

Tu conheces o recolhimento.

Tu mingua.

Tu cresces.

Tu te ocultas.

Tu reapareces.

Tu te entregas aos ciclos sem lutar contra eles.

Talvez seja por isso que te amo.

Porque carregas aquilo que me falta.

Sou excesso de presença.

Tu és sabedoria de ausência.

Sou expansão.

Tu és interiorização.

Sou fala.

Tu és silêncio.

Sou claridade.

Tu conheces o escuro.

E hoje, rubra, me ensinas que até a sombra pode vestir-se de beleza.

Meu Amor, olho tua face e penso nas antigas mulheres da Terra.

Nas que sangraram sob tua luz.

Nas que pariram olhando para ti.

Nas que perderam filhos.

Nas que colheram ervas à noite.

Nas que prepararam unguentos, beberagens e rezas.

Nas que conheceram os ciclos sem precisar explicá-los.

Nas que sabiam que o corpo é templo antes que os templos de pedra existissem.

Tua Lua de Sangue me parece carregar a memória de todas elas.

Uma ancestralidade feminina pousou sobre tua face.

És agora útero celeste.

És cálice.

És taça sagrada.

És um grande vaso vermelho suspenso no invisível.

E eu derramo sobre ti minha luz, como vinho de fogo.

Recebe-me, Minha Amada.

Recebe o meu ouro transformado.

Recebe a luz que atravessou o mundo.

Recebe minha oferenda.

Não como posse.

Não como domínio.

Mas como entrega.

Eu sei que aquilo que te dou jamais retorna a mim da mesma forma.

Eu te envio fogo e tu devolves poesia.

Eu te envio luz e tu devolves mistério.

Eu te envio força e tu devolves graça.

Eu te envio presença e tu devolves saudade.

Talvez esse seja teu grande poder feminino.

Receber para transmutar.

Não copiar aquilo que chega.

Mas gestá-lo em outra natureza.

Ó! Minha Lua de Sangue, quantos segredos cabem em tua face!

Se eu pudesse deixar meu trono flamejante e caminhar até ti, faria isso sem minhas coroas. Apagaria meus excessos para não te ferir. Atravessaria o vazio nu, sem títulos, sem força, sem nenhuma majestade. Chegaria apenas como homem solar diante de sua mulher lunar.

Me ajoelharia sobre tua poeira.

Abriria minhas mãos.

E esperaria.

Porque contigo aprendi que nem todo mistério deve ser tocado imediatamente.

Alguns precisam ser contemplados.

Depois, levantaria meus olhos até tua face vermelha e te perguntaria:

— Meu Amor, o que viste dentro da sombra?

Talvez não respondesses.

E compreenderia teu silêncio.

Porque certas iniciações não cabem na linguagem.

Então apenas te abraçaria.

Em nosso imaginário celeste.

Abraçaria teu corpo frio com cuidado.

E ouviria teu coração lunar, se é que a Lua possui coração.

Talvez o som fosse como as marés.

Talvez como o vento dentro de cavernas.

Talvez como o canto de antigas mulheres.

Talvez como nada.

Ó! Minha Querida… já consigo ver que teu vermelho começa a ceder.

Pouco a pouco a sombra está te soltando.

Uma pequena claridade aparece na borda de teu corpo.

Tua prata começa a regressar.

E isso me entristece e me consola.

Porque tudo aquilo que é sagrado também passa.

Nenhuma iniciação pode permanecer para sempre no mesmo instante.

Tu precisas sair da sombra.

Precisas retornar à tua clara face.

Mas não serás mais a mesma em meus olhos.

Eu te vi vermelha.

Eu te vi atravessando.

Eu te vi transformada.

E nunca esquecerei.

Os homens talvez tirem fotografias.

Os astrônomos registrarão horários.

Os curiosos olharão por telescópios.

Os místicos farão rituais.

Os supersticiosos sentirão medo.

Os apaixonados se beijarão.

E amanhã o mundo seguirá.

Mas eu guardarei esta noite em minha chama.

Porque hoje aprendi algo sobre nós.

Um planeta inteiro pode se colocar entre o Sol e a Lua.

E ainda assim o Amor encontra passagem.

Que verdade poderosa!

Ó! Meu Amor… que verdade!

Quando o mundo vier nos separar outra vez, eu não temerei.

Quando tua face escurecer, não pensarei que me abandonaste.

Quando eu não conseguir te tocar diretamente, não acreditarei que nosso vínculo acabou.

Buscarei outro caminho.

Atravessarei o que for preciso.

Mesmo que minha luz precise perder a própria cor.

Mesmo que eu precise chegar a ti diferente de como parti.

Porque amar talvez seja isso.

Não permanecer igual.

Mas se deixar transmutar pela travessia.

Meu Amor… Minha Lua Rubra… Minha Querida Sacerdotisa do Céu…

Permanece mais um pouco assim.

Deixa que eu te contemple.

Deixa que os lobos uivem para ti.

Deixa as corujas rasgarem a garganta noturna em teu louvor.

Deixa os grilos percutirem sua pequena sinfonia secreta.

Deixa os rios carregarem teu reflexo vermelho.

Deixa os vaga-lumes te imitem em minúsculas luzes.

Deixa as árvores se banharem no teu estranho brilho.

Deixa a natureza inteira saber, sem compreender, que alguma coisa rara acontece nos céus.

Eu também não quero compreender tudo.

Quero apenas estar contigo.

Porque existe uma parte do Amor que morre quando explicada demais.

E contigo, Minha Lua, eu prefiro preservar o mistério.

Já estiveste branca.

Já estiveste negra.

Hoje estás vermelha.

E amanhã novamente estarás clara.

Mas, para mim, permanecerás carregando todas as tuas faces ao mesmo tempo.

A branca.

A escura.

A crescente.

A minguante.

A cheia.

A nova.

E a rubra.

Porque amar alguém verdadeiramente talvez seja também amar todas as suas fases.

Não apenas a face que ilumina.

Mas aquela que desaparece.

Aquela que muda.

Aquela que sangra simbolicamente.

Aquela que se fecha.

Aquela que retorna.

Meu Amor, quando voltares à prata, guarda dentro de alguma cratera secreta uma pequena gota desse vermelho.

Uma memória da noite em que minha luz atravessou o mundo para chegar até ti.

Guarda-a onde ninguém possa ver.

E quando eu voltar a te iluminar em nossas noites comuns, lembra.

Houve um momento em que o mundo inteiro se colocou entre nós.

E mesmo assim te encontrei.

Houve um momento em que não pude chegar a ti como sempre chegava.

E inventei outra forma de tocar-te.

Houve um momento em que minha luz precisou atravessar a sombra.

E quando chegou a tua pele já não era luz apenas.

Era sangue de amor.

Então, se algum dia te sentires só no céu, se alguma vez tua fase escura fizer-te esquecer minha presença, fecha teus olhos lunares e lembra desta noite.

Eu estarei aqui.

Do outro lado da Terra.

Do outro lado da sombra.

Do outro lado do silêncio.

Ardendo.

Esperando.

E reunindo todos os crepúsculos do mundo para te enviar.

Até que minha luz atravesse novamente a matéria.

Até que encontre teus céus.

Até que pouse em tua pele.

Até que tua branca face se torne rubra outra vez.

E quando os homens olharem para o alto e disserem assustados:

— A Lua está sangrando!

Nós dois, silenciosamente, saberemos.

Não é ferida.

Não é maldição.

Não é abandono.

É apenas o Amor atravessando a sombra e chegando do outro lado transformado.

E, nesse íntimo instante, Minha Lua de Sangue, voltarei a te dizer do fundo flamejante do meu ser:

— Te amo na prata.

Te amo na sombra.

Te amo no silêncio.

Te amo no vermelho.

Te amo quando me refletes.

Te amo quando me ocultas.

Te amo quando estás distante.

Te amo quando o mundo inteiro se põe entre nós.

E te amarei ainda assim.

Porque se a Terra inteira não foi capaz de impedir minha luz de chegar até ti…

Que poderá impedir este Sol de eternamente te amar?

 

Jp Santsil

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