DOIS BEBÊS, UM PESADELO E UMA BICICLETA VOANDO

DOIS BEBÊS, UM PESADELO E UMA BICICLETA VOANDO

Há alguns dias, meus filhos, Paulo e Ágatha, estavam assistindo a *Stranger Things*. Eu estava por perto, naquele estado de presença paterna em que você está fisicamente na sala, mas espiritualmente em algum lugar entre a cozinha, o celular e a preocupação vaga com alguma coisa que precisava ser resolvida. Eles acompanhavam a série com atenção, mas havia naquele acompanhamento uma espécie de desencanto. Não era exatamente tédio. Tédio ainda é uma forma de compromisso. Quando uma criança está entediada, pelo menos está esperando alguma coisa acontecer. Ali parecia haver uma expectativa que já tinha desistido de ser satisfeita.

 

Eles não gostaram muito do rumo que a história tomou. Eu também não. E, como acontece com frequência entre pais e filhos, tive uma opinião que ninguém havia solicitado. Disse alguma coisa como: "Stranger Things queria ser um monte de coisas, mas não conseguiu ser nenhuma delas direito". Não lembro se falei exatamente assim. A memória costuma melhorar nossas frases depois que elas acontecem, o que é uma das poucas vantagens de envelhecer. Talvez eu tenha dito de maneira muito mais banal. O fato é que a ideia ficou.

 

A série queria ser aventura, terror, ficção científica, história de amadurecimento, homenagem aos anos 80, drama familiar, romance adolescente, horror cósmico, talvez até uma meditação sobre amizade e perda. Não tenho nada contra querer muita coisa. O problema é quando a obra parece estar permanentemente lembrando ao espectador que gostaria de ser tudo aquilo. Há momentos em que uma história precisa simplesmente acontecer. O monstro aparece, a criança corre, alguém se apaixona, alguém morre, a mãe enlouquece, o telefone toca. Não é preciso colocar uma pequena placa dizendo: "atenção, isto representa a solidão humana".

 

Foi então que tive a ideia de mostrar aos dois uma das fontes daquele imaginário. Não uma aula, porque meus filhos já têm pai demais para ainda receber uma palestra sobre cinema. Uma sessão de cinema. E escolhi *E.T. the Extra-Terrestrial*, filme que pertence a uma época em que eu era aproximadamente da idade deles e em que uma bicicleta, uma televisão e um extraterrestre eram capazes de ocupar uma quantidade desproporcional da imaginação de uma criança.

 

Isso também fazia parte de uma coisa que temos feito em casa. Quero mostrar a Paulo e Ágatha alguns dos filmes que fizeram parte da minha infância e adolescência. Não exatamente porque eu ache que eles tenham obrigação de gostar. Isso seria uma maneira muito eficiente de fazer com que detestassem todos. Existe um certo ridículo na tentativa dos pais de transmitir aos filhos aquilo que os formou. Nós entregamos um filme dizendo "isso aqui é importante para mim" e esperamos que a criança compreenda a importância junto com o objeto. Às vezes ela compreende. Às vezes olha para a tela e pergunta se ainda falta muito.

 

Com *E.T.* aconteceu a primeira coisa. Eles gostaram. Gostaram bastante.

 

E eu fiquei satisfeito de um modo que provavelmente merecia alguma investigação psicológica. Ver os filhos gostarem de uma coisa que foi importante para nós produz uma espécie de vaidade afetiva. É como se eles tivessem acabado de assinar um documento confirmando que a nossa infância não foi completamente inútil. Eu me lembro de observar os dois durante o filme e perceber uma coisa que já sabia, mas que é diferente quando acontece diante de você: Spielberg sabe conversar com crianças.

 

Não estou dizendo isso como quem faz uma defesa acadêmica de Spielberg. Estou dizendo porque estava sentado numa sala vendo duas crianças assistirem a um filme feito antes de elas nascerem. E elas estavam reagindo exatamente como crianças. Riam. Ficavam apreensivas. Esperavam o que aconteceria com o ET. Havia momentos em que ninguém precisava explicar nada. O filme simplesmente funcionava.

 

Talvez seja essa uma das coisas que mais envelheceram mal em certas obras contemporâneas: a necessidade de explicar que uma história é inteligente. *E.T.* não parece preocupado com isso. O filme quer que você goste do extraterrestre. E pronto. Ele é estranho, tem uma cabeça enorme, dedos compridos, olhos que parecem ter sido desenhados por alguém que tinha uma ideia muito específica de ternura e de susto ao mesmo tempo. É uma criatura biologicamente pouco promissora para o merchandising de brinquedos fofos, mas, depois de alguns minutos, estamos preocupados com a saúde dele.

 

As crianças não precisam conhecer a história do cinema para entender isso.

 

Eu, por outro lado, estava começando a olhar para o ET de maneira diferente. Talvez porque, enquanto assistíamos ao filme, eu estivesse trabalhando em outro texto sobre paternidade. E esse outro texto tinha me levado a *Eraserhead*, de David Lynch. Uma escolha perfeitamente razoável para alguém que passou a tarde assistindo aos filhos se divertirem com um extraterrestre e decidiu, à noite, refletir sobre as dificuldades de criar filhos vendo um bebê monstruoso chorar em um apartamento industrial.

 

Há escolhas intelectuais que parecem melhores quando explicadas do que quando vividas.

 

Foi assim que aconteceu a associação. O ET estava ali, deitado, doente, pequeno, vulnerável. E eu tinha na cabeça o bebê de *Eraserhead*, também deitado, também frágil, também estranho, também ocupando aquele espaço desconfortável entre o que desperta compaixão e o que desperta vontade de olhar para o outro lado.

 

Então veio a observação mais simples de todas: eles se parecem.

 

Não digo que sejam idênticos. Não são. Também não estou sugerindo que Lynch tenha criado o bebê de *Eraserhead* pensando no ET, ou que Spielberg tenha visto Lynch e decidido fazer uma versão comercialmente mais aceitável daquela criatura. Uma semelhança visual não é prova de influência. É apenas uma semelhança visual. Mas algumas semelhanças têm o mau hábito de permanecer na cabeça.

 

Cabeças grandes. Olhos enormes. Corpos pequenos. Fragilidade. Uma espécie de anatomia infantil que parece ter sido ligeiramente deslocada do lugar. Quando os dois estão deitados, especialmente nas cenas em que estão doentes ou debilitados, a comparação fica ainda mais estranha. É como se dois cineastas tivessem recebido quase o mesmo corpo e tivessem feito perguntas completamente diferentes a respeito dele.

 

E talvez seja aí que o assunto fique interessante.

 

O ET de Spielberg está doente, e a primeira coisa que sentimos é pena. O menino Elliott cuida dele. As crianças se mobilizam. O corpo enfermo produz aproximação. Quanto mais vulnerável o ET fica, mais fácil é amá-lo. A criatura que, no primeiro encontro, parecia assustadora passa a parecer pequena. E há alguma coisa quase infantilmente justa nisso. A aparência deixa de importar quando descobrimos que o outro sofre.

 

Lynch começa do outro lado. Seu bebê já parece pertencer ao sofrimento antes mesmo de entendermos o que ele é. Não existe aquele período de adaptação que Spielberg nos concede. Não há "vamos conhecê-lo". O bebê simplesmente está ali. E chora. O pai precisa cuidar dele, mas o cuidado não vem acompanhado daquela recompensa emocional que Spielberg oferece. Não há a sensação de que, depois de algumas boas ações, o universo vai reconhecer que você foi uma pessoa decente.

 

O bebê continua chorando.

 

Talvez essa seja uma das diferenças mais brutais entre os dois filmes. No mundo de *E.T.*, cuidar do outro é emocionalmente recompensador. No mundo de *Eraserhead*, cuidar pode ser apenas cuidar. Você não sabe se vai melhorar. Não sabe se vai ser agradecido. Não sabe se a situação vai fazer algum sentido daqui a dez anos. Você só sabe que existe alguém ali.

 

Quem já teve filhos conhece um pouco dessa diferença. Há momentos em que a paternidade parece exatamente aquilo que imaginávamos antes de ter filhos. A criança dorme, sorri, abraça você, fala alguma coisa engraçada, aprende uma palavra nova e, por alguns minutos, parece que a espécie humana acertou. Depois ela derruba alguma coisa, chama você três vezes, precisa de água, não quer dormir, perdeu alguma coisa que estava na mão dela há vinte segundos e, de repente, a metafísica da existência fica subordinada à procura de um objeto que provavelmente está embaixo do sofá.

 

É difícil escrever um tratado sobre a condição humana quando alguém está perguntando onde está o carregador.

 

Talvez por isso *Eraserhead* seja tão desconfortável para um pai. Não porque o filme ofereça uma representação literal da paternidade, mas porque transforma em horror uma coisa que a vida doméstica normalmente tenta esconder atrás de palavras como "família", "amor" e "responsabilidade". O bebê não aparece como realização. Aparece como presença. E presença é uma coisa muito mais exigente.

 

Existe uma leitura ainda mais antiga possível para aquela criatura, e foi ela que começou a me incomodar depois. O bebê pode ser visto como fruto da queda. Não como se a criança fosse culpada pelo pecado dos adultos, o que seria uma leitura moralmente grosseira e teologicamente difícil de sustentar, mas como imagem de uma existência que surge já marcada pela desordem. O pecado, na tradição cristã, não é apenas uma infração cometida contra uma lista de regras. Há nele uma desordem do desejo, uma ruptura entre aquilo que queremos e aquilo que a realidade exige depois.

 

O bebê é a realidade depois do desejo.

 

Isso parece uma frase muito séria, e talvez seja. Mas há uma experiência bastante comum por trás dela. Antes do filho, o adulto imagina a criança. Depois do filho, encontra uma pessoa. As duas coisas não são iguais. A primeira é uma representação produzida pela imaginação do adulto. A segunda tem febre, fome, personalidade, mau humor, preferências alimentares e opiniões bastante firmes sobre legumes.

 

O filho real sempre desmente alguma fantasia dos pais.

 

Talvez o bebê de *Eraserhead* seja tão perturbador porque não permite que Henry transforme a paternidade numa fantasia. O corpo está ali, com suas necessidades, seus ruídos, sua dependência. Não há distância suficiente para que aquilo se torne bonito. E a beleza, quando aparece, costuma depender justamente de alguma distância.

 

Isso também ajuda a entender por que o ET é tão imediatamente amável. Spielberg faz uma coisa muito generosa com o espectador: ele transforma a responsabilidade em aventura. Cuidar do ET é perigoso, mas também é divertido. Há bicicletas, crianças conspirando, esconderijos, encontros secretos, a possibilidade de uma grande fuga. A responsabilidade vem embrulhada em aventura.

 

Lynch não embrulha nada.

 

A paternidade em *Eraserhead* não tem aventura. Tem rotina. Tem cansaço. Tem um homem sozinho em um apartamento com um bebê que não para de chorar. O horror não está em alguma criatura externa entrando na casa. O horror está em descobrir que a própria casa, a própria vida e o próprio corpo agora pertencem a uma situação da qual não se pode simplesmente sair.

 

E aqui a comparação começa a escapar do cinema.

 

Porque há uma fantasia muito forte na cultura moderna de que aquilo que amamos deve também nos fazer sentir bem. O filho deve nos realizar. O casamento deve nos completar. O trabalho deve expressar nossa identidade. A arte deve nos emocionar. Até o sofrimento, quando aparece em determinadas narrativas contemporâneas, precisa produzir crescimento.

 

A vida real não assinou esse contrato.

 

Às vezes uma coisa é importante e cansativa ao mesmo tempo. Às vezes amamos alguém e queremos ficar cinco minutos sozinhos. Às vezes a responsabilidade é justa e ainda assim pesa. Às vezes uma criança é a maior alegria de uma casa e, vinte minutos depois, alguém está chorando porque o irmão pegou o brinquedo errado.

 

Uma coisa não anula a outra.

 

Talvez seja por isso que *E.T.* e *Eraserhead* tenham começado a parecer, para mim, menos distantes do que pareciam naquela noite. Os dois filmes estão interessados na mesma pergunta, embora não façam questão de admitir isso: o que fazemos com aquilo que depende de nós?

 

Spielberg responde olhando para a infância. Lynch olha para o adulto.

 

Em Spielberg, a criança ainda acredita que o mundo pode ser consertado. Em Lynch, o adulto descobre que talvez o mundo não tenha sido feito para ser consertado. São posições diferentes diante da mesma fragilidade.

 

E há uma coisa curiosa na cena do ET doente. Ele está deitado e parece quase um bebê. O corpo grande da cabeça, os olhos, a palidez, a fraqueza. A criatura extraterrestre, que poderia ser imaginada como invasor, torna-se dependente. Quanto mais dependente, mais próxima da condição humana ela fica.

 

O bebê de *Eraserhead* começa onde o ET termina.

 

Ele já é dependência.

 

Talvez por isso eu tenha demorado tanto para perceber que a semelhança física era apenas a porta de entrada. O que realmente me interessava era a semelhança moral da situação. Dois seres que precisam de alguém. Dois corpos que não podem cuidar de si mesmos. Dois estranhos colocados diante de um adulto. Só que, em um caso, o adulto consegue transformar a dependência em vínculo; no outro, a dependência revela o quanto o adulto é incapaz de suportá-la.

 

Há uma diferença importante aqui. Não acho que *Eraserhead* esteja dizendo simplesmente que a paternidade é horrível, assim como *E.T.* não está dizendo que a paternidade é uma aventura encantadora. Seria reduzir os dois filmes a slogans. Lynch parece interessado em algo mais desagradável: a possibilidade de que uma responsabilidade legítima possa ser experimentada como horror por alguém que não possui os recursos interiores para assumi-la. O problema talvez não seja a existência da criança. Talvez seja o homem que olha para ela e percebe que a vida agora lhe pede mais do que ele sabe oferecer.

 

Isso me fez pensar nos meus próprios filhos, embora, felizmente, Paulo e Ágatha não tenham nenhuma semelhança física com o bebê de *Eraserhead*. Pelo menos que eu tenha percebido. E espero continuar assim.

 

Existe uma diferença entre olhar para os filhos como continuação de nós mesmos e perceber que eles são pessoas que chegaram depois de nós. Quando eu mostro a eles um filme da minha infância, existe sempre o risco de esquecer isso. Quero que eles gostem de *E.T.* porque eu gostei. Quero que uma determinada música signifique alguma coisa para eles porque significou para mim. Quero entregar um pedaço do meu passado e receber de volta uma espécie de confirmação.

 

Mas eles não me devem isso.

 

Paulo pode achar um filme meu antigo. Ágatha pode gostar de uma cena que eu nunca achei importante. Eles podem achar engraçado aquilo que me assustava. Podem não gostar de alguma coisa que para mim foi fundamental. É assim que a memória continua. Não como herança intacta, mas como material que outra pessoa recebe e modifica.

 

Talvez tenha sido por isso que fiquei tão satisfeito quando os dois gostaram de *E.T.*. Não porque eu tivesse conseguido transmitir uma parte da minha infância com sucesso, mas porque, durante aquelas duas horas, o filme deixou de ser meu. Tornou-se deles também. O filme que eu conhecia encontrou dois espectadores que não tinham nenhuma obrigação de conhecê-lo, e mesmo assim alguma coisa aconteceu.

 

Isso é raro.

 

E talvez seja uma das melhores coisas que podemos fazer pelos nossos filhos: apresentar alguma coisa que amamos e aceitar que, depois disso, já não temos controle sobre o que ela significará para eles.

 

O cinema também envelhece assim. Nós envelhecemos assim.

 

Quando vi *E.T.* criança, eu não estava pensando em alteridade, paternidade, encarnação, queda, responsabilidade ou qualquer outra palavra que um adulto possa usar depois de ler meia dúzia de livros. Eu estava vendo um extraterrestre. Era suficiente. Talvez fosse até melhor. Eu queria saber se ele conseguiria voltar para casa.

 

Hoje, vendo o mesmo filme ao lado dos meus filhos, percebo que havia outra coisa acontecendo na história, uma coisa que eu não tinha idade para perceber. Aquele ET que eu via como criatura fantástica é também uma criatura dependente. E o que faz Elliott amadurecer não é descobrir que existem extraterrestres. É descobrir que uma vida estranha pode precisar dele.

 

É curioso como as crianças aprendem essas coisas sem precisar dos nossos conceitos.

 

Talvez o adulto seja justamente aquele que chega depois e dá nomes ao que a criança já viveu.

 

Foi assim que o ET me levou de volta ao bebê de Lynch, e o bebê de Lynch me levou de volta aos meus filhos, e os meus filhos me levaram de volta àquela noite em que estavam decepcionados com *Stranger Things*. A associação parece exagerada quando colocada dessa maneira, e provavelmente é. Mas há pensamentos que só fazem sentido porque são exagerados o suficiente para continuar andando.

 

No final, continuo gostando de *E.T.*. Talvez até mais agora. Também continuo achando *Eraserhead* um filme difícil, desagradável e, por razões que ainda não consigo explicar completamente, necessário. Um me devolve a infância. O outro não permite que eu esqueça que ela acabou.

 

E talvez a imagem mais estranha que tenha ficado de tudo isso seja justamente aquela que provocou o ensaio: dois seres deitados, um extraterrestre e um bebê, ambos pequenos demais para cuidar de si mesmos, ambos com aquelas cabeças desproporcionais e aqueles olhos enormes, ambos dependentes de alguém que precisa decidir o que fazer diante deles.

 

Quando criança, eu olhava para o ET e queria que ele voltasse para casa.

 

Hoje, olhando para meus filhos assistindo ao mesmo filme, penso que talvez a pergunta mais difícil nunca tenha sido para onde o ET deveria voltar.

 

Era quem ficaria com ele enquanto isso.

 

E, por alguma razão, essa pergunta parece muito mais próxima da vida do que eu gostaria.

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