“Eu estou escrevendo essa carta porque quero morrer.
Pode até parecer besteira agora, mas talvez eu realmente morra. Eu não sei se quero ir embora contando todas as verdades ou se só quero ficar em paz e dizer que todo mundo me amou muito.
Mas nem todo mundo me amou.
Eu amei.
Afinal, eu prefiro dar vida ao mundo do que deixar o mundo me dar a morte.
Eu só queria muito ser uma garota feliz. Brincar como qualquer garota da minha idade. Talvez elas nem brinquem tanto assim, mas eu adoro brincar de esconde-esconde e de definha com meus amigos e meus sobrinhos. Gosto quando meus sobrinhos colocam as pernas no meu colo. Adoro o cheirinho de bebê suado, porque acho que não existe cheiro mais fofo no mundo.
Minha cor favorita era roxo.
Meu filme de romance favorito era 10 Coisas que Eu Odeio em Você. Meu filme favorito, no geral, sempre foi qualquer um de Jurassic Park ou Jurassic World. Minha série favorita sempre vai ser Brooklyn Nine-Nine, e meus personagens favoritos são o Capitão Holt e o Jake.
Tem muita coisa para falar.
Mas eu só queria dizer que eu amava muito tudo.
Eu gostava das flores. Gostava de uma joaninha que pousou em mim uma vez. Eu tinha muito medo de confiar nas pessoas e sempre chorei por causa da minha prima que morreu, mesmo tendo falado com ela poucas vezes.
Uma vez, eu vi ela sentada em uma calçada, sorrindo para o sol ao lado do marido.
Naquele momento, eu pensei que queria ser igual a ela.
Ela parecia um passarinho indefeso, mas livre.
Por isso eu a amo tanto.
E eu amo todo mundo que vou citar aqui: pai, mãe, meus irmãos, meus sobrinhos, minha irmãzinha, minhas avós, minhas tias, meus primos, as garotas que me ajudaram quando eu precisava, meus amigos, todo mundo que foi gentil comigo, os animais e o Justin Bieber.
Mas, acima de tudo, eu amo Deus.
E espero sinceramente que Ele tenha misericórdia de mim.”
E foi assim que Eryn terminou.
Às vezes, aqueles pensamentos que vivem no fundo da nossa cabeça encontram uma maneira de ficar mais altos. Naquela noite, eles venceram.
Eryn tinha dezessete anos.
Dezessete.
Não era velha. Não tinha vivido tudo o que deveria viver. Ainda havia músicas que ela não tinha escutado, lugares que não tinha conhecido, pessoas que ainda não tinha encontrado e manhãs que jamais chegaram.
Ela amava Dancing Queen, do ABBA. Gostava de brincar, de flores, de bebês, dos amigos e de todas aquelas pequenas coisas que pareciam insignificantes até se tornarem lembranças.
Ela era feliz.
Ou, pelo menos, tinha sido.
Até o dia em que ela morreu.
Talvez tenha sido ali que uma parte dela começou a desaparecer. Não sei quanto dela partiu naquele momento, mas sei que foi mais do que ficou.
Uma vez, ouvi dizer que precisamos honrar a memória dos mortos.
Então espero que Eryn tenha sido honrada.
Espero que tenham falado dela.
Espero que tenham lembrado de suas piadas, de suas músicas, de suas manias e das coisas que a faziam rir.
Porque, antes de ser uma morte, Eryn foi uma garota.
E antes de ser uma lembrança, ela foi alguém.
Ela foi amada.
E amou.
E isso existiu antes de ela morrer.
