Amor e Saudade: Leituras do Berro d'Água
Uma leitura cuidadosa de obras sobre amor, despedida e reencontro publicadas por autores do Berro d'Água.
Amor, Saudade e Encontros: Leituras de Afeto no Berro d'Água
Amor e saudade aparecem em formas diferentes: descoberta, convite, lembrança, despedida e recomeço. Neste percurso pelo Berro d'Água, o sentimento ganha corpo em cenas, objetos, repetições e detalhes do rosto amado.
O afeto como descoberta e convite
Em Descobrindo o amor, Caa Florencio constrói uma cena de prosa centrada em Lily e Jack. Os dois são amigos; a observação de Jack sobre a amiga e o movimento da conversa fazem a percepção amorosa surgir dentro de uma situação narrativa. O texto aposta em personagens, ações e diálogo, e não apenas em uma declaração solta.
VOCÊ ME LÊ?, de Carla P, segue outra estratégia: em vez de narrar um casal, dirige-se a um leitor desconhecido e o convida para café, poemas e conversa sobre um livro. A intimidade nasce do tratamento direto e da pergunta final. Leia a obra completa.
A saudade como inventário
hoje acordei com saudade, de Carol Okama, organiza a emoção como uma sequência de lembranças: avô, bisa, irmão, interior, pintura, séries e encontros. A repetição de “saudade” funciona como eixo de montagem; cada memória específica impede que o sentimento fique apenas abstrato.
Em memórias de nós, também de Carol Okama, a palavra “nós” é desdobrada entre pronome, relação passada e “nó na garganta”. O poema é curto e concentrado: sua unidade vem da repetição sonora e semântica, não de uma narrativa com começo, meio e fim. Leia a obra completa.
Despedida, corpo e lembrança
TOQUE, de Sion Tadeu, reduz o desejo a três linhas: “Eu sonho com ele / mas não é suficiente / anseio pelo seu toque.” A insuficiência e o anseio são repetidos quase sem ornamentação; o espaço entre o sonho e o contato sustenta a tensão do micro-poema.
DESPEDIDA, de Hideki Kunihira, transforma a saída de alguém em perda física: sobram “cacos” e a imagem de uma parte do sujeito que foi levada. A repetição de “choro” acelera a passagem entre segredo, desespero, medo e falta, até inverter a perspectiva: a presença também passa a ser motivo de choro.
pintinhas, de Carol Okama, desloca a saudade para a memória minuciosa do rosto amado. O poema se apoia em detalhes — duas pintinhas, expressões, pelos e manchas — para mostrar como lembrar alguém pode ser uma forma de catalogar o corpo.
Recomeço sem apagar a ruptura
Em O eclipse que me trouxe de volta., Matheus Henrique narra o alívio depois de uma relação desgastada e a chegada de um novo vínculo. O texto passa da imagem de escuridão e queda para cuidado, escuta e uma possibilidade de brilho. A metáfora organiza a virada do narrador.
Para escrever sobre afeto
- Identifique o que é observável: uma cena, um objeto, uma repetição ou uma imagem.
- Troque a declaração abstrata por um detalhe que só aquela relação poderia ter.
- Ao citar uma obra, mantenha o título e o nome de quem a escreveu.
- Se uma história envolver terceiros identificáveis, preserve a intimidade deles.
O valor dessas obras está nas soluções concretas: cena, inventário, corte, detalhe e metáfora. Ler assim é mais útil do que classificá-las genericamente como “românticas”.
O afeto convence mais quando aparece em uma cena, num objeto ou numa escolha de linguagem do que quando é anunciado em palavras grandes.
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