Tem dias que tua falta grita
um ruído tão absoluto
que mal me escuto.
Canção nem cachaça,
nada te cala!
E é pra não me perder de mim
que leio releio
os vestígios de ti
espalhados pela casa.
Na geladeira
a lista de compras
presa no imã I❤️SP.
Nossas necessidades já defasadas
sob a maquiagem caligráfica
dos teus caprichos
sempre performáticos.
Tuas artimanhas
na caixa de leite condensado
rasurado para duas.
Poemas natimortos
na agenda de contas.
Rumino em vão
aonde querias chegar
com os versos que não foram
a história que largou?
Notas avulsas
"Saí cedo, passeia com o Pipoca"
e os "eu te amo" dos rodapés
carimbados com batom
cuja estilística
da comunicação romântica
dá espaço pro formalismo pragmático
e se canoniza no concretismo
da carta do divórcio.
Nessas horas sem tempo,
Teus escombros sussurram amassos
em cor amarelo passado.
Sou arqueólogo compulsório
da tua voz de papel.
