te vejo

te vejo

Todo amor começa com aquele beijo na testa.

 

Ou com as malditas palavras:

“Eu gosto de você.”

 

Mas hoje eu acho que existe algo ainda mais profundo do que dizer “eu te amo”.

 

É dizer: eu te vejo.

 

E eu vejo você.

 

Vejo quando você está em crise e tenta fingir que está tudo bem.

Vejo quando você não come.

Vejo quando alguma coisa está acontecendo e você se fecha, coloca o fone de ouvido, aumenta o volume até o máximo e deixa o rock pesado fazer o barulho que você não consegue fazer por dentro.

 

Eu vejo.

 

Vejo até aquilo que você tenta esconder.

 

E talvez seja por isso que eu tenha me apaixonado sem perceber.

 

Porque eu não me apaixonei por uma versão bonita de você.

Não foi pelos seus olhos castanhos.

Não foi pelo que você poderia ser.

Foi por você sendo você.

 

Pelo seu mau humor.

Pela sua teimosia.

Pelo seu jeito de se esconder quando alguma coisa dói.

Pelo jeito que você muda de assunto quando não quer falar sobre alguma coisa.

Pelas pequenas manias que você nem percebe que tem.

Pelos detalhes que provavelmente nem imagina que eu guardei.

 

Todo amor começa com um simples “oi”.

 

Com uma conversa que deveria ser qualquer conversa.

 

Com uma brincadeira boba.

Com uma pergunta sem importância.

Com aquela vontade de continuar falando mesmo depois que o assunto já acabou.

 

E talvez eu tenha achado que era só isso.

 

Só uma conversa.

Só um cuidado.

Só mais uma pessoa atravessando meus dias.

 

Mas não.

 

Nem todo amor começa como a gente imagina.

 

O nosso começou com aquele beijo na testa.

 

Você indo embora.

 

E, no dia seguinte, encontrando algum motivo qualquer para falar comigo de novo.

 

Tão conivente.

Tão absurdo.

Tão pequeno.

 

E, ainda assim, hoje parece enorme.

 

Porque olhando para trás, eu percebo que talvez alguma coisa tenha começado ali, muito antes de eu entender o que estava acontecendo comigo.

 

Eu só não notei.

 

Não notei quando comecei a reparar demais.

Quando comecei a guardar suas manias.

Quando comecei a perceber seus silêncios.

Quando comecei a reconhecer, pelo jeito que você falava, quando alguma coisa não estava bem.

 

Quando comecei a querer saber se você tinha comido.

Se tinha dormido.

Se estava bem.

Se aquele silêncio era apenas silêncio ou se você estava tentando fugir de alguma coisa.

 

E foi aí que eu entendi:

 

Eu não queria apenas estar perto de você.

 

Eu queria te enxergar.

 

Inteiro.

 

Até nas partes que você tenta esconder.

 

E talvez seja isso que mais me assuste.

 

Porque dizer “eu te amo” é uma palavra.

 

Mas dizer “eu te vejo” é se colocar diante de alguém e dizer:

 

“Eu percebi você.

Eu percebi suas dores, seus defeitos, seus silêncios, suas fugas.

 

Percebi as coisas que você não diz.

Os dias em que você se fecha.

Os momentos em que tenta parecer forte.

As pequenas formas que encontrou para esconder aquilo que sente.

 

E, mesmo assim, quando olho para você, ainda é você que eu quero.”

 

Eu não sei exatamente em que momento você deixou de ser só alguém que apareceu no meu caminho.

 

Só sei que, quando percebi, você já estava aqui.

 

Em mim.

 

E talvez o nosso amor não tenha começado naquele beijo na testa.

 

Talvez tenha começado no instante em que, sem perceber, eu comecei a te ver.

 

E você deixou de ser só alguém que eu conhecia.

 

Você virou alguém que eu enxergava.