Os olhos são o mesmo de outrora
adornando de cansaço e espanto
um rosto que deixou de ser uma folha em branco
há muito tempo.
De repente todo o inferno que antes parecia existir
apenas da porta pra dentro se expandiu
e você cobra produtividade
estando de estômago embrulhado
adoraria morrer
mas não deseja o mesmo
nem para os piores inimigos...
apesar dos pesadelos vividos com os olhos bem abertos
todas as madrugadas às 3 em ponto
como um despertador natural
a esperança ressurge
e você se sente egoísta
egoísta, sim
porque agora não é o momento
de sonhar.
Você lembra de todas as chances que desperdiçou?
você nunca se importou realmente com a opinião de ninguém
só está magoado e sem perspectiva
aliás, pelo menos nessa
não está sozinho;
há sempre uma alma atormentada
ou um desejo de juventude
à sua espreita
você pensa em todos aqueles que partiram
pensa no moto contínuo
pensa em todos os abraços que ficaram na lembrança
na época em que achava toda essa afetuosidade uma grande besteira,
e pensa sobre isso ao se recostar nas paredes da casa
que não vêem uma mão de tinta
desde que tinha dentes de leite
pensa no desconforto e na irregularidade
dos dias
no descontrole que precisa ser
contido
em como a sua voz parece distante
se unindo a todo o sofrimento
que você jamais pensou conhecer.
Sente-se egoísta e martiriza
pensa no conforto dessas paredes descascadas
nos amigos de escola quando se esbarram pelas ruas que apesar de conhecidas
já não são as mesmas
pensa no sabor adocicado da fome
por opção
e se culpa
uma culpa que cresce como os galhos de uma árvore frutífera
prestes a despencar na casa vizinha...
como chegou até aqui?
você queria tanto a solidão
queria tanto descobrir todas as suas potencialidades
você queria e queria
e mais uma vez o desejo ficou pra depois.

