Eduarda dorme como
quem reconhece ararinhas
voando nos céus
No intervalo de um sono
ela me disse sobre
os voos e os cantos
dessas pássaras dançantes
Eu ainda contestei dizendo
ser andorinhas, mas ela se
fez enfática sob araras
& voltou a dormir
No intervalo de um sono
Eduarda gosta de olhar os prédios
admirar-se com as garças que
se esquentam no sol
[um dia perguntou se não tem também garço. Eu disse que se ela quisesse poderia ter, e inaugurar palavras é uma das artes mais bonitas do mundo. Ela se riu]
No intervalo de um sono
Eduarda guarda também um lugar
no intervalo dos cílios
um relógio de infância & sol
uma concha de mármore
acenando quiçá para alegrias
& afetos que lhes são de direito
No intervalo de um sono
Eduarda gosta de rir
como quem almeja
ser um pássaro líquido
eu rio com ela por almejar
às vezes ser água também
ainda que nesse verbo &
somente por um instante
No intervalo de um sono
Eduarda gosta de olhar
os gatos, os cachorros
comentar sobre seus pelos
suas cores suas falas
Admirar-se da claridade das
noites da cidade que parecem dias
prestar atenção nas cores
das vozes dos habitantes
o aroma de suas gargalhadas
Uma manhã
perguntou se aqui tem matinta pereira
lhe respondi que sim aqui é sua capital
me contou não saber se uma noite
ouvia o apito do guarda ou se era assobio
[-então era ela mesmo. Decerto estava andando no canal]
No intervalo de um sono
Eduarda gosta de falar de chuva
tentar prever se cairá ou não
das nuvens que se formam
permanecem ou passam
daquelas que viram vento
& voltam a dormir
[ah, eu pensei numa chuva grande, enorme, de caudas. Mas deu pra nos enganar. Fez barulho, fez uns gritos estrondosos e não veio grande como eu pensava -ela disse]
No intervalo de um sono
Eduarda me mostra um desenho
me confirma que gosta de bichos
me faz voltar a enxergar
as coisas pequenas que dormem
Dizer das pinturas das casas
dos gatos que saem de dentro delas
dos que dormem em suas janelas
& fala da saudade que tem do seu
.....
Me disse o quanto acha bonito
o pássaro coruja com seus grandes olhos
eu também lhe confessei o meu fascínio
e jamais ter entendido porque
no cravo ela é sinônimo de feiura.
Me contou de uma que apareceu doente
lá pelas bandas de casa e como os meninos
cuidaram dela até poder voltar
voando boazinha pro mato
No intervalo de um sono
Eduarda desenha com os olhos
nos papéis de minha existência
antes de voltar a dormir
Belém, início do tempo das águas grandes ou inverno amazônico de 2021.

