Amor entre alas

Amor entre alas

Era mais um dia normal e entediante em minha vida, eu estava mais uma vez sentado naquele corredor branco e sem vida apenas ouvindo o som dos bipes nos quartos ao lado. Eu estava novamente visitando minha irmã hospitalizada, mas dessa vez minha mãe queria um tempo a sos com ela. Pensei que seria apenas mais um dia na minha vida até que um menino se aproximou e se sentou ao meu lado, eu não o encarei mas conseguia sentir ele me fitando, ai ele decidiu abrir a boca para falar algo.

"Oi." disse o mesmo ainda me fitando

eu virei meu rosto e o olhei, ele era loiro e tinha olhos azuis escuros.

"Ahn, oi" respondi sem nenhuma expressão no rosto.

eu não estava muito afim de bater um papo agora mas o menino continuou

"qual seu nome?" ele me olhou com aqueles olhos e parecia que conseguia ver minha alma.

"meu nome? é Thomas." desviei o olhar.

"prazer, meu nome é Alexandre" ele sorriu e ele tinha um sorriso daquele com covinhas que deixa o coração aquecido.

eu demorei um pouco para responder

"prazer"

Alexandre continuou com aquele sorriso estampado no rosto que foi diminuindo gradualmente até apenas um sorriso de canto.

"eu nunca te vi por aqui, você veio se consultar?" ele desviou o olhar para uma maquina de bebidas no fim do corredor

"sim, quer dizer não, eu vim visitar minha irmã que está doente" eu nunca tinha visto aquele garoto na minha vida mas algo nele me atraia

"ah entendi, oque sua irmã tem?" ele voltou o olhar para mim

estralei meus dedos e respondi

"anemia, ela veio tomar sangue e acabou tendo de ficar"

nessa hora uma enfermeira passou por nós e me lançou um olhar esquisito, a testa franzida e a boca um pouco curvada para baixo, o olhar tinha sido apenas para mim, como se Alexandre não estivesse presente ali

"não liga para ela Thomas, ela é assim mesmo"

eu voltei meu olhos a Alexandre mas não disse nada

"sinto muito por sua irmã" ele voltou a falar

"ah, tudo bem" olhei para minhas mãos "e você? também veio visitar alguém?" criei coragem para questiona-lo

Alexandre pareceu meio apreensivo em responder a minha pergunta

"eu só estou esperando meu pai preencher alguns papéis" ele riu sem graça "mas está levando tanto tempo, parece que faz uma eternidade que estou aqui" Alexandre fitou o chão e eu juro por deus que aqueles olhos azuis dele se tornaram mais escuros e preto, mas ele se recompôs e voltou a me olhar sorrindo de canto. No entanto aquele sorriso não parecia sincero, parecia ser falso e forçado, parecia que estava a esconder algo de mim mas não dei importância porque mal conhecia aquele garoto. Então a porta do quarto de minha irmã abriu e minha mãe saiu de lá, eu me virei para me despedir mas Alexandre já não estava mais ali.

 

2 dias depois

 

voltei ao hospital, sinceramente pensei mais em Alexandre do que em minha irmã, alguma coisa naquele menino me puxava. Para meu azar ficaria a tarde toda naquele lugar, sem nada pra fazer. Comecei a andar por ai, parei em frente a maquina de bebidas e coloquei uma moeda, enquanto escolhia meu sabor de refrigerante também pensava em alexandre. Me abaixei e peguei o refri de dentro da maquina mas quando me levantei senti um toque em meu ombro e quando virei, era ele. Eu até poderia ter me assustado, mas invés disso fiquei feliz por o ver novamente.

"eai Alex" sorri de canto

"oi Thomas, como você esta?"

"ah entediado é claro! e você?"

Alexandre abaixou os olhos e suspirou

"ruim, não gosto de ficar aqui, mas pelo menos hoje tenho sua companhia não é?"

antes que eu pudesse perguntar o motivo dele estar ali de novo ele me fitou com aqueles olhos profundos e eu senti as palavras voando para fora do meu cérebro. O jeito como ele me olhava era esquisito e ao mesmo tempo hipnotizante, era como se ele pudesse ver todo o meu passado e meus pensamentos, mas eu, eu hum bem..eu fiquei envergonhado com a troca de olhar. Alexander olhou para minha mão e sorriu sutilmente.

"esse refrigerante é o melhor, meu preferido."

eu sorri e abri a latinha

"você quer um gole?" ofereci a ele mas ele negou

"não posso beber, mas obrigado"

eu concordei com a cabeça.

"você vai ficar bastante tempo hoje aqui?"

"hum, sim vou, a cada 2 dias minha mãe fica uma tarde inteira com minha irmã"

"ah! isso é ótimo, teremos muito tempo para conversarmos hoje" Alexandre encostou no meu braço, mas seu toque era gelado como neve. Ele percebeu eu olhando para sua mão e a abaixou.

"é sim claro!" respondi pensando no toque.

Começamos a andar pelo hospital e a falar sobre nossos interesses, porém mais uma vez a enfermeira me encarrou estranho e apenas a mim, ela tinha algo contra mim de que eu não estava sabendo?? Alexandre percebeu meu olhar a enfermeira

"ignora serio! ninguém merece"

eu não respondi nada apenas ri. Quando estávamos passando pelo corredor principal, passamos em frente a outra máquina de bebidas, eu parei e olhei os refrigerantes, mas logo notei algo de errado, o único que estava com reflexo no vidro era eu, Alexandre não aparecia ali. Rapidamente olhei para o lado, ele ainda estava exatamente no mesmo lugar, olhei o vidro novamente e depois ele.

"Alex?" olhei para a maquina de canto e depois para ele

"oque?" ele respondeu tão calmo que acreditei que seria melhor não comentar nada

"nada não esquece" forcei um sorriso de canto e voltamos a andar mas aquilo não saia da minha cabeça, com certeza tinha algo errado. Me virei para Alexandre e inventei uma desculpa para sair de perto dele

"ei Alex, vou ao banheiro okay?" antes que ele respondesse já havia ido em direção a recepção do hospital. Me aproximei da bancada onde uma mulher adulta digitava no computador

"oi" disse meio apresado.

a mulher subiu o olhar da tela e me olhou.

"posso ajudar?" ela disse sem o mínimo de interesse em realmente me ajudar.

"sim, hum, minha tia quer a ficha do meu primo"

"nome?" ela voltou o olhar para o computador

"é Alexandre" parei, pensando em um sobrenome que poderia ser dele mas nem precisei

"Alexandre de moura?"

"sim, sim esse mesmo" concordei com a cabeça ansioso.

enquanto ela imprimia a ficha do alexandre eu comecei a ficar mais ainda ansioso, checando os corredores para ver se o mesmo não estava a me vigiar. Por fim ela me entregou a ficha e meu olhos imediatamente caíram sobre a palavra FALECIDO escrita em negrito ao lado de seu nome, um arrepio percorreu meu corpo inteiro e eu congelei, agradeci a mulher e sai me sentando em um banco. Falecido? como? como assim? eu estava incrédulo! era impossível, ele estava do meu lado a alguns minutos. Comecei a suar, mesmo que a temperatura devesse estar uns 8 graus, eu só soube segurar aquela folha e a encarar, não sabia oque deveria fazer muito menos se deveria confrontar um morto. Meu corpo entrou em piloto automático, eu levantei e fui ate a maquina de bebidas que estávamos antes, eu não sei oque eu queria encontrar, mas não era ele. Infelizmente ele estava lá, me esperando e nem deu tempo de eu dar a meia volta e sair correndo, ele já estava em pé na minha frente, engoli em seco e encontrei seus olhos

"você esta morto Alexandre"

ele abriu a boca e a fechou como se estivesse pronto para debater, mas invés disso apenas disse

"sim, eu estou" os olhos grandes dele se encheram de lagrimas e ele se pôs a chorar.

"Thomas, por favor! você precisa me entender" ele segurou meus braços com as suas mãos geladas de cadáver.

"por favor, você não pode ir, você não pode me deixar, eu imploro. eu sei que isso é esquisito! Escuta, eu morri a 2 anos de parada cardíaca" ele começou a explicar em meio a soluços

"mas eu fiquei preso aqui dentro deste inferno porque não conclui meu objetivo de vida! E eu preciso de você para ser livre daqui. No momento em que eu te vi sentado naquele corredor eu sabia que você iria me ajudar! por favor Thomas" o aperto de suas mãos se intensificou em meus braços, eu congelei, apenas com uma reação de pânico estampada no rosto e o coração a milhão.

"oque eu faço?" respondi gaguejando.

Alexandre não me respondeu, invés disso pegou meu pulso e me arrastou até a sala do zelador, fechando a porta atrás de nós. Ele se virou para mim com as bochechas cheia de lágrimas

"me beije Thomas" Ele disse aquilo no tom de quando você pede licença a alguém, eu fiquei incrédulo, como um beijo libertaria alguém? A minha mente e meu coração começaram a discutir entre si, mas meu coração ganhou a discussão

"se isso significa que você ira descansar em paz, tudo bem" Nem mesmo eu acreditei que eu havia falado aquilo, mas já era tarde demais para negar, Alexandre segurou meu rosto e me beijou, com uma fome voraz que eu nunca tinha visto antes, senti minhas forças inteiras sendo sugadas por aquele beijo. Já estava fraco mas não conseguia parar, para mim estava sendo muito mais que um simples beijo, era meu primeiro e com um garoto mas eu sabia que para Alexandre era apenas uma fuga daquele lugar. Por fim ele me soltou, eu já estava ofegante, Alexandre fechou os olhos e começou a repentinamente brilhar como um raio de sol bem ali na minha frente, EM UMA SALA DE ZELADOR. Ele flutuou e olhou para seus braços e mãos brilhantes e agora já transparentes, ele me lançou aquele seu olhar penetrante uma ultima vez antes de explodir em luzes sem se despedir ou dizer obrigado. Eu encarava agora o lugar vazio onde ele sumiu sem mais explicações, o calor do beijo dele ainda em meus lábios.