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Mariana Villaça

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TODO MUNDO VAI EMBORA

Contos0h atrás

Os dois estavam deitados no chão do quarto naquela tarde dourada de uma quarta-feira de verão. Aquele carpete em um tom de cinza era tão macio que parecia que eles estavam deitados sobre uma nuvem, mas o que os dois mais estavam gostando daquele momento era de curtir a companhia. Mesmo assim, havia tempo que os dois não faziam aquilo. Havia tempo que não passavam os dedos pelo carpete, que não rolavam para mudar de posição e que não se implicavam cutucando um ao outro com os pés nus. Mas ela não estava aproveitando. Ela não estava pensando nos raios de sol que estavam há menos de uma hora de se pôr. Ela só conseguia pensar em como ele iria embora, em como eles ficariam muito tempo sem se ver novamente e em como nada jamais seria como antes, como nos velhos e bons tempos. Ele iria embora, ponto. E isso estragava tudo. E era sempre assim, ele vinha de vez em quando, passava um tempo com ela, depois alguém abria a porta e ele escapava. Ela jamais o impediria de ir embora. Ela até o faria caso tivesse coragem, mas ela nunca teve. “Como manter uma onda sobre a areia? Como manter um raio de luar em sua mão?” E, isso tudo, toda essa antecipação, não fazia bem. Ela sentia dor no estômago e, às vezes, não conseguia olhar no rosto dele. Sabia que, se olhasse, os dois se afogariam em lágrimas e ela seria obrigada a explicar o que estava acontecendo. Por que ele tinha que morar tão longe? Por que a casa ficava tão vazia sem ele? Tudo tem o mesmo fim. No final, todo mundo morre, todo mundo vai embora. No final, ninguém fica para contar a história, e não interessa se a pessoa foi o amor da sua vida ou se te ensinou a andar de bicicleta. Não importa se isso dói, se isso arranca um pedaço do seu ser que você nem sabia que existia: todo mundo vai embora. Ele olhou para o rosto dela, que encarava o teto, e perguntou se ela estava bem. Sim, claro, claro que ela estava bem, e foi isso que ela respondeu, mesmo não sendo verdade. Ele pegou a mão dela e ficaram ali, em silêncio, duas mãos entrelaçadas e o tão familiar carpete cinza. Cinza como ela. Se ela pudesse escolher uma cor para o que ela estava sentindo, com certeza seria cinza. Sua cunhada escancarou a porta do quarto e chamou o marido para ir embora e ele quase deu um pulo no sobressalto, mas ela não, ela já estava esperando. Ela até gostava da esposa do seu irmão, mas não ali, não naquele momento. Ela queria mesmo era que sua cunhada se explodisse em mil pedacinhos como uma granada num campo de guerra. Não de verdade, claro, só da boca para fora. Mas isso não impediu que ela sentisse, desde o começo do relacionamento, que aquela mulher era uma bomba prestes a causar um desastre que, de fato, causou. Causou quando levou seu irmão para longe fazia uns dois anos. Mas ela ainda sentia falta. Sentia dentro do peito como se tudo tivesse acontecido há dois minutos. Aquele anel. Aquelas caixas. Ela perguntando para o irmão se podia ficar com o quarto dele para usar de biblioteca, escritório, ateliê ou qualquer outra coisa que, na verdade, ela nem queria, porque queria que ele ficasse. Ele beijando a noiva. Ele indo embora.

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