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Celso Joabe

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CAMINHONEIRA SIM SENHOR!!!

Contos0h atrás

Dora não tinha as unhas delicadas, seus dedos eram fortes, acostumados com o volante do caminhão, não que não quisesse ser vaidosa, fazer cabelo tomar banho de rosas e todas essas coisas que madame faz, mas a vida tinha lhe dado outro destino, coisa que ela acredita fielmente. Cresceu viajando com seu pai Bastião e a mãe Dorinha na boleia do alazão, o caminhão que seu pai tinha comprado fazendo divida com o tinhoso. Morreu sem pagar a dívida que agora era dela, rodava pelas estradas para essa divida pagar, com o que sobrava de dinheiro quando sobrava usava para comer e ajudar sua idosa mãe. Não só por falta de dinheiro que seu cabelo era desdenhado e os pelos das pernas uma selva, o Alazão não era desses caminhões modernos que por pouco levanta voo, ele era duro e teimoso, Dora precisava se dedicar. Trocava pneu, ajudava na carga, sabia arrumar qualquer defeito que aparecia, a graxa era sua maquiagem. Toda essa dureza afastava os olhares tendenciosos dos outros caminhoneiros. Porcos pensava ela, menos seu pai claro que Deus o tenha. Odiava os homens, menos Rogério Diniz, o locutor da rádio sertanejo na estrada, gostava da voz de barítono dele, ocasionalmente até ligava para pedir música, sonhava em ouvir um dia ele falando seu nome, coisa que nunca aconteceu. O tempo não existia na estrada. A cada quilometro chegava mais perto de pagar a dívida de seu pai, é importante ter honra dizia o velho. Um dia ia fazer sua última viagem, queria mudar de profissão, alguma que pudesse se arrumar, secretaria estava bom, ia ficar bonita e atrair o olhar de algum bom homem de família, filhos, queria três, um cachorro também.sabia que sonhava demais, mas pedia ao destino, um dia poder deixar as estradas pra trás. Sabia que pedia algo que ia se arrepender caso o destino a escutasse, amava também a solidão da estrada, só estava cansada dos perigos. Perigo esse que se apresentou um dia quando ela parou em um posto de gasolina de uma pequena cidade qualquer, desceu para abastecer e sentiu aquele olhar que por muito tempo não iria esquecer, não era o olhar de nojo ou fantasia como de costume, era o mirar de um caçador. Dora acendeu um cigarro e o encarou de volta, ele se aproximou saindo das sombras e os olhares se tocaram. Ela não se intimidou, jogou a bituca nos pés dele. Ele pisou no cigarro e deu um sorriso maligno que desarmou Dora. Deixou o tanque pela metade e seguiu seu caminho, ligou o rádio, chiado. O vazio foi crescendo diante dela, a cada curva esperava ver algum carro, quando via por alguns segundos o rosto de algum desconhecido que vinha pela outra mão gostava de imaginar que era algum amigo, ou algum primo distante, as vezes buzinava e acenava, mas dessa vez estava só. Uma infinita linha se formou em sua frente, alazão fez um ruído e parou, Dora estacionou no acostamento de terra batida. Nada em volta, vultos andavam em círculos pelas sombras que à lua deixava. Revisou o óleo, gasolina, motor, tudo em ordem até que viu um cabo que estava solto, parecia ter sido cortado com uma serra até uma parte e com o movimento do caminhão tinha terminado de soltar. Uma luz distante apontou no horizonte, seu coração disparou, pegou a caixa de ferramentas e começou a emendar o cabo, da tremedeira deixou o alicate cair dentro do motor, a luz foi se aproximando, iluminou seu rosto, sua pupila dilatou, em um movimento acrobático saltou dentro do motor, sentiu seu braco queimar não se importou, quase deslocou seu ombro quando o alicate pegou, escutou um caminhão estacionar. A porta abriu e ele saiu, aquele familiar estranho olhar a devorou. Dora gritou sentindo o membro do homem entre suas pernas, perdeu as forcas, sentiu sua língua com gosto de pinga e tabaco, a penetrou, dor, revolta, se entregou. Esticou as mãos pelo chão ralando sua pele, sentiu algo pontudo, frio, sentiu a morte, liberdade. Uma faca, não sabia como ela tinha aparecido ali, mas agradeceu ao destino. O grito agora tinha outro tom. Ela seguiu, no retrovisor o estuprador desmembrado agonizando no chão.

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OLHOS OCULTOS

Contos0h atrás

Era madrugada,na rua tudo escuro e inabitado, a pressa de entrar em casa me fazia adiantar os passos, não sei se o medo era real ou só uma amplificação da minha mente, mas respirei fundo e busquei minha coragem apertando a chave na mão, repetia comigo mesma:chegar, enfiar a chave na porta, puxar a porta, rodar a chave, escutar o barulho da trava e entrar, fechar os cadeados e esquecer o quanto aquele lugar era perigoso.Fazia duas semanas que tinham esfaqueado alguém na esquina de casa, desde daquele dia fiquei paranoica. Saía da lanchonete às 3 da manhã, o ônibus parava às cinco quadras de casa, se pelo menos eu ainda estivesse com Mario, ele me acompanhava até casa, me sentia segura com ele, agora o jogo é outro, preciso poder sozinha. Me aproximei da entrada da kit net, uma portinha entre duas lojas de bujingas e coisas antigas, senti aquela presença outra vez, olhei pra traz e não vi nada, minha mão começou a tremer, não conseguia acertar a porra do buraco, senti um sopro perto do pescoço, o vulto dele se aproximando, olhei em volta, ruas vazias, tentei enfiar a chave com mais atitude, ela caiu em câmera lenta.Peguei a chave no chão e olhei para o lado, ele estava ali, me encarando em quanto soltava fumaça de seu cigarro pelo canto da boca, apoiado no poste como alguém que espera seu amor, seria eu sua escolhida?em um piscar de olhos me puxou pelo cabelo me enforcando com a outra mão, tossi buscando ar, e no último fôlego soquei o vazio,estava sozinha.Entrei em casa e fechei os cadeados.Cansei da minha mente pregando essas peças,cansei de ser abusada por ela, agora deito em minha cama fingindo não ter medo,e deixo que o olhar que me encara pela janela me embale o sono.

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